sábado, 16 de maio de 2009

Chegou o fim de semana, vamos ao teatro...

São Paulo


Teatro a Vapor
Teatro a Vapor, do escritor e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), convida o público a embarcar em uma viagem ao Brasil do início do século XX.

Repleta de bom humor e sarcasmo, a peça caminha como uma locomotiva de cenas que retratam o cotidiano, as crenças, e os valores sócio-culturais do país naquele início de século.

Aproveitando-se do fato de ser jornalista, Artur Azevedo buscou inspiração nas notícias publicadas em sua época para escrever os roteiros das cenas.

Bons exemplos disso são o famoso Crime da Mala e o escandaloso caso da proibição da venda da cerveja Brahma, ambos retratados nas estórias da peça.

Acompanhada de música ao vivo, a comédia conta com uma direção inovadora e um figurino de primeira linha. Além disso, as interpretações conseguem extrair com muita competência as riquezas do texto de Artur Azevedo.

Encenado pelo Grupo GATU, o espetáculo Teatro a Vapor encontra-se em sua segunda montagem e tem a direção de Eloísa Vitz, diretora e atriz do Grupo TAPA. A assistência de direção é de Adriano Campos.

O Elenco conta com a participação de Adriano Campos, Ana Lúcia Barbosa, Daniela Rocha, Eduardo Cléber, Francielle de Freitas, Gabriele Freitas, Laura Guerra, Luiz Fernando, Marcelo Sousa, Patrícia Abibe, Paula Cordeiro, Potiguara Novezze e Sandra Fonseca.

Na Iluminação está Alexandre Gomes. Na direção musical, Maurício Sanaiote, músico e compositor. A peça também conta com a participação especial do músico Dario Arruda, da Banda Arruda Brasil e Maurício Sanaiote.

Texto: Artur Azevedo
Direção: Eloisa Vitz
Direção Musical: Paulo Marcos
Assistência de direção: Adriano Campos
Iluminação: André Martins
Arranjos: Maurício Sanaiote
Elenco: Alunos da Uniban

Estréia: 27/09/2003 às 21h
Local: Av. Rudge, 315 (Campos Elíseos) – auditório do Campus Rudge
Entrada : GRATUITA
Ingressos: nas Centrais de Atendimentos dos Campi

Agradecimentos:
À Profa. Christianne Coletti, Maurício Leonardi, Stillo & Classe, Marino e Márcio do campus RG, TV Uniban, Folha Universitária, Tomás Martins, Rodrigo Petterson, Alessandra A. Doria, Ana Lúcia Sinopoli, aos Seguranças do Campus RG, Armando (pai e filho), Ana Fernandes, Grupo Tapa e a todas as pessoas que de forma direta ou indireta contribuíram para a realização desse espetáculo

Viúva, porém Honesta

Peça escrita em 1957, “Viúva, porém Honesta” de Nelson Rodrigues é uma farsa irresponsável em três atos. A trama é sobre Ivonete, a filha do Dr. JB, mafioso corrupto e dono do maior jornal do país, que após a morte do seu marido decide nunca mais sentar-se.

Nelson nesta comédia despudorada explicita os impulsos mais secretos dos personagens. Ele coloca em cena as mazelas do Brasil e escancara por meio de tipos inesquecíveis: a viúva devassa, o corrupto dono de jornal, o serviçal idiota, o psicanalista charlatão e
muitos outros.

O desfecho é inesperado e criativo, onde Nelson Rodrigues consegue com muito humor transgredir o raciocínio lógico para que Ivonete se salve desta viuvez inconsolável.

“Viúva, porém honesta” é uma comédia surpreendente, com um humor transgressor e
anárquico. Imperdível.

Direção Eloisa Vitz





Game - Jogo Perigoso
Gatu apresentou o espetáculo infantil “Game: Jogo Perigoso”. A peça entrou em cartaz no dia 19 de maio, e as apresentações aconteceram todos os sábados e domingos, às 16h, no Teatro UNIBAN BRASIL. Sob a direção de Eloisa Vitz, a peça narra de uma maneira divertida a história de um menino louco por videogame, e seus personagens vivem momentos de surpresas, tropeços, diversão e gargalhadas.




O GATU nasceu há sete anos e, durante esses anos, encenou peças conhecidas como “Vereda da Salvação” de Jorge Andrade e “Teatro a Vapor” de Artur Azevedo, entre outras.

Auto da Barca do Inferno
A clássica história de Gil Vicente narra o juízo final de forma satírica, com foco na chegada dos mortos ao porto para embarque em uma das duas barcas: uma com destino ao inferno, comandada pelo diabo, e a outra, com destino ao paraíso, comandada por um anjo. Ambos os comandantes aguardam os mortos, que são as almas que seguirão ao paraíso ou ao inferno. O “Auto da Barca do Inferno”.

É a primeira parte da chamada trilogia das Barcas; a segunda e a terceira são, respectivamente, o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória. Os atores se revezam em diversos personagens: uma marquesa, um agiota, um parvo, um sapateiro, um frade, uma alcoviteira, um judeu, um juiz, um promotor, um enforcado e quatro cavaleiros.

Direção: Eloisa Vitz. Com Daniela Rocha, Eloisa Vitz, Laura Vidotto e Miriam Jardim. Atores convidados Diogo Pasquim, Eduardo Brisa, Elam Lima, Gabriel Ferry, Marcos Machado, Rafael Gracciolli e Romeu Bart




Novidade
Promoção!
Imprima no site Gatu seu desconto de 50% para o espetáculo "Viúva, porém honesta" válido somente na bilheteria oficial.

Meia entrada: R$20,00 c/ desconto R$10,00
(estudante, classe artistica, idosos e professores)
Interia: R$40,00 c/ desconto R$20,00








Teatro Gil Vicente
Av. Rudge, 315 - Campos Elíseos - SP
Sáb. 21:00
Dom. 20;00
Para mais Informações: 55 11 3618-9014

Fonte:http://www.gatu.com.br/gatu_cultura/promo.html?gclid=CIGXvLX1wJoCFQVaFQodrl6Nqw





Rio de Janeiro



PEÇAS DE TEATRO
Monstra

Comédia traz adaptação de livro de Patricya Travassos que reúne crônicas sobre o universo feminino















EDITORIAL

Baseada do livro homônimo de crônicas da atriz Patricya Travassos, a comédia Monstra leva ao palco uma conferência de autoajuda, na qual a palestrante, interpretada por Patricya, apresenta ensinamentos que não se aplicam a ela. Em crise com seu cotidiano, com sua vida amorosa e com o envelhecimento, ela acaba vivendo todos os problemas emocionais que pretende curar com o seu método.

Abordadas sob a ótica feminina, as cenas trazem situações de conflito, e até mesmo dramáticas, que misturam sensibilidade, futilidade, força, insegurança e humor. Durante a peça, Patricya Travassos divide o palco com Ricardo Duque e Daianny Cristian. Com direção e concepção de Jorge Fernando, o espetáculo fica em cartaz até 28 de junho, no Teatro dos Grandes Atores.

Ficha Técnica
Texto: Patricya Travassos (baseado nas crônicas do livro homônimo)
Elenco: Patricya Travassos, Ricardo Duque e Daianny Cristian
Direção e concepção: Jorge Fernando
Luz: Paulo Roberto Moreira
Cenário: Lia Renha e Marco Villarino
Figurino: Cláudia Kopke
Preparação corporal: Clarice Silva
Visagismo: Fernando Torquato
Programação Visual: Luiz Stein
Direção Musical: Liminha
Vídeo eTrilha Sonora: Apavoramento Sound System

Foto: Bruno Veiga

INFORMAÇÕES

Local: Teatro dos Grandes Atores I (INFORMAÇÕES)
Preço(s): R$ 60,00.
Data(s): Até 28 de junho de 2009.
Horário(s): Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h.





Hã?
Diogo Portugal apresenta seu espetáculo de stand-up comedy nos palcos cariocas















Em cartaz no Teatro dos Grandes Atores, o show Hã?, do humorista curitibano Diogo Portugal, traz sátiras e observações divertidas de fatos que acontecem todos os dias. Durante a apresentação, o comediante também interpreta canções com seu violão, todas repletas de humor.

Portugal é um dos humoristas mais vistos na Internet, com mais de 16 milhões de visitas, além de ser criador e curador do Risorama, festival humorístico da América Latina. Junto de Marcela Leal, Marcelo Mansfield e Rafinha Bastos, ele fundou o Clube da Comédia.

Foto: Divulgação

INFORMAÇÕES

Local: Teatro dos Grandes Atores I (INFORMAÇÕES)
Preço(s): R$ 60,00.
Data(s): Até 25 de abril de 2009.
Horário(s): Sexta e sábado, 23h.





A História de Nós 2


Comédia romântica estreia no Teatro Cândido Mendes


EDITORIAL

Com texto de Licia Manzo e direção de Ernesto Piccolo, o espetáculo A História de Nós 2 retrata as várias facetas de um homem e de uma mulher. A peça conta a história de Edu, alguém dividido entre o desejo de ascender profissionalmente, a vontade de manter um casamento e o sonho de ser eternamente livre, e Lena, uma mulher 'partida' entre carreira, maternidade e paixão.

A trama começa na noite em que Edu, separado de Lena há algum tempo, vai ao apartamento buscar seus últimos pertences. Assim, o derradeiro encontro do casal converte-se num ajuste de contas cômico e emocionante, no qual eles tentam descobrir de quem afinal foi a culpa da separação: da mulher, da mãe, da advogada bem sucedida, do marido, do adolescente eterno ou do publicitário workaholic. Por meio de humorados e reflexivos flashbacks, seis personagens ocupam a cena para mostrar A História de Nós 2.

Ficha Técnica:
Autor: Licia Manzo
Diretor: Ernesto Piccolo
Elenco: Alexandra Richter e Marcelo Valle
Assistente de direção: Neuza Caribé
Cenógrafo: Clívia Cohen
Figurinista: Cao Albuquerque
Direção de movimento: Marcia Rubin
Trilha sonora: Rodrigo Penna
Iluminador: Maneco Quinderé
Multimídia: Miguel Pachá
Fotografia: Dalton Valério
Assistente de produção: Luciana Bemvindo
Diretor de produção: Gustavo Nunes
Produção: Turbilhão de Idéias
Realização: Alexandra Richter e Marcelo Valle
Patrocínio: Bradesco Seguros e Previdência

INFORMAÇÕES

Local: Teatro Candido Mendes (INFORMAÇÕES)
Preço(s): R$ 40,00.
Data(s): 19 de março (estreia para convidados) a 14 de junho de 2009.
Horário(s): Quinta a sexta, 21h; sábado, 19h30 e 21h; domingo, 20h.




Os Ruivos


Comédia mostra histórias engraçadas e dramas vividos por pessoas ruivas


EDITORIAL


Para dar voz aos direitos e conflitos das pessoas ruivas, atores ruivos sobem ao palco do Teatro Miguel Falabella e contam os divertidos casos de Laranja, personagem principal da peça Os Ruivos. Com humor, os atores relatam histórias sobre a experiência de ter pela clara e cabelos vermelhos num país tropical.

Escrito por Pedro Monteiro e Leonardo Neves, o texto mistura histórias reais com casos fantasiosos e, de forma divertida, faz pensar sobre a exclusão e os preconceitos que envolvem os ruivos. A peça é estrelada por Pedro Monteiro e Cida Camero e conta com a direção de Cynthia Reiss.

INFORMAÇÕES

Local: Teatro Miguel Falabella (INFORMAÇÕES)
Preço(s): R$ 20,00 (quinta e sexta) e R$ 30,00 (sábado e domingo).
Data(s): Até 28 de junho de 2009.
Horário(s): Quinta a domingo, 18h.




Casal TPM


Comédia aborda os problemas que envolvem as relações de casais


EDITORIAL

Com texto de Paula Giannini e direção de Amauri Ernani, a peça Casal TPM retrata de forma bem-humorada a relação de amor e ódio vivida pelos casais modernos. O casamento, a rotina, o dia-a-dia, as traições, as decepções e as desconfianças são alguns dos assuntos abordados na trama.

A ideia do espetáculo é fazer com que o público se identifique com a história que se passa no palco, como as brigas eternas de casal, as disputas do dia-a-dia, as mentiras, as frustrações sexuais, o romance, a cumplicidade e o ciúme.

INFORMAÇÕES

Local: Centro Cultural Suassuna (INFORMAÇÕES)
Preço(s): R$ 30,00.
Data(s): Até 31 de maio de 2009.
Horário(s): Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h.


fonte:http://www.guiadasemana.com.br/Rio_de_Janeiro/Artes_e_Teatro/Capa/Capa.aspx





//divirta-se/teatro


Em Belo Horizonte





Backyardigans


em cartazPersonagens da série de Tv fazem show ao vivo em BH dias 30 e 31 de maio no Palácio das Artes





Emoção no limite


Atriz e diretora Jeane Doucas apresenta o monólogo Se eu estou aqui, eu posso estar ali?






Cântico dos cânticos



Espetáculo de bonecos baseado em texto bíblico está em cartaz até domingo no Teatro Alterosa




Festival Giramundo



Grupo de teatro inicia temporada aos domingos do mês de maio no Parque Ecológico Vale Verde





Caminhos de Brás Cubas



Espetáculo baseado na obra de Machado de Assis está em cartaz até junho no Sesc Tupinambás




fonte:http://www.new.divirta-se.uai.com.br/html/capa_teatro/id_sessao=11/capa_teatro.shtml

quarta-feira, 13 de maio de 2009

OS NEGROS E ESCRAVOS


Escravos trabalhando em engenho de açúcar

Dois motivos levaram Paraty a ser um dos mais movimentados porto de desembarque de escravos africanos. O primeiro é que Paraty foi, durante muito tempo, o único ou o mais rápido acesso do litoral para a cidade de São Paulo, para Minas Gerais e para o Vale do Paraíba. Por isso, durante os ciclos do açúcar, ouro e café, era pelo porto da cidade que chegavam os navios negreiros com escravos destinados a essas regiões. O segundo motivo é que por ser uma vila pequena, não havia fiscalização de autoridades civis, militares e eclesiásticas, além do zelos dos humanitários, que embaraçavam o desembarque, leilão, venda e entrega dos escravos.

O principal local de desembarque de escravos era no fundo do Saco de Mamanguá. Uma bula papal proibia a venda ou leilão de escravos antes de serem batizados. Daí o motivo da construção em 1720 da capela de Nossa Senhora da Conceição de Mamanguá. O registro era feito apenas do primeiro nome e da idade estimada. Pouco mais tarde a capela foi transferida para Paraty-mirim onde criou-se uma estrutura de descanso, engorda, batizado e venda de escravos. Tão intenso foi esse movimento que o território de Paraty-mirim foi elevado à categoria de Paróquia por decreto-provincial de 1836.

Por pressão dos ingleses, foi promulgada em 1830 a Lei Feijó proibindo o tráfico de escravo. Apesar de não ser levada a sério, os cafeicultores pressentindo o fim do tráfico, começaram a fazer estoque de escravos. Devido a essa lei, os navios negreiros não podiam chegar oficialmente pelo porto da cidade e, por isso, até o ano de 1850 os escravos eram desembarcados clandestinamente no porto de Paraty-Mirim, a 20 km da cidade. Nesse ano foi promulgada a lei Eusébio de Queiroz que acabou definitivamente com o tráfico, afetando a economia do município. A abolição definitiva da escravatura foi em 1888 com a promulgação da Lei Áurea.

Com tanta facilidade para obter escravos, Paraty foi construída com esse tipo de mão de obra. Foram os negros que moveram os engenhos de açúcar e os alambiques de pinga, calçaram as ruas da cidade e as estradas da serra com pedras, subiram a serra com mercadorias destinadas ao interior e desceram com ouro e com café, cuidaram das plantações, mantiveram os rios limpos de galhos e árvores para evitar enchentes. Em 1717 o Capitão Lourenço de Carvalho era o mais rico paratiense “porque se acha com tresentos negros, que lha adquirem grande cabedal com a condução de cargas, em que comtiuadamente andão serra assima”. No auge do ciclo do café Paraty tinha uma população de 10.000 habitantes dos quais 3.500 eram escravos.



Por um documento oficial - o Registro de Posturas da Assembléia Legislativa Provincial de 1836 (equivalente à Assembléia Estadual) - percebe-se, pelos artigos transcritos, como era dura a vida dos escravos:

Postura 1: Ninguém poderá vender pólvora, nem arma de qualquer natureza ... à escravos ... O infrator escravo será punido com cem a duzentos açoites...

Postura 2: Todo escravo que for encontrado de noite ou nos domingos e dias santos a qualquer hora do dia, fora da fazenda de seus senhores .... será punido com vinte e cinco a cinquenta açoites

Postura 6: ... consentir ajuntamento para danças e candomble em que entre escravos alheios, será punida com as penas impostas na Postura Quinta. Os escravos que forem apreendidos serão castigados com cinquenta a cem açoites.

Outro documento oficial, este um Registro das Posturas da Câmara Municipal da Villa de Paraty de 1829, dá uma idéia sobre a vida dos escravos:

Artigo 52: Os escravos que forem encontrados nas ruas e praças públicas a jogarem (candomble), serão castigados na cadeia a arbítrio dos senhores ....

O fim do tráfico negreiro e, logo depois, a abolição da escravatura foi um duro golpe para a economia paratiense. Além da receita gerada pela intermediação da venda de escravos, os alambiques perderam seu principal cliente: o traficante, que usava a pinga para trocar por escravos na África.



Escravos jogando capoeira

O Quilombo do Campinho

Uma comunidade negra, remanescente de quilombo, localizada a 13,4 km de Paraty, junto à rodovia BR-101, sentido Ubatuba, é considerada como a de maior organização comunitária do estado do Rio de Janeiro. Oficialmente conhecida como quilombo do Campinho da Independência, no dia 21 de março de 1999 – Dia Internacional Contra a Discriminação Racial – o então governador Antony Garotinho, cumprindo o artigo 68 da Constituição Federal, que assegura aos remanescentes de quilombo o reconhecimento definitivo da propriedade fez a primeira titulação, nesse sentido, de terras do Rio de Janeiro, ao registrar 287,94 hectares em nome do quilombo. Essa terra não pode ser vendida, doada ou alugada a pessoas de fora da comunidade e, apesar da posse ser individual, seu uso é comunitário. Se um pedaço de terra não está sendo usado, outra família pode vir e fazer uma plantação.

Não há registros históricos sobre o quilombo do Campinho, mas a memória coletiva diz que por volta de 1750 essas terras foram doadas a três escravas libertas (Antonica, Marcelina e Luiza) pelo seu senhor, que tinha ali a Fazenda Independência. Talvez tenha contribuído para essa doação, o fato de que as terras não produzissem atividade rentável e não estivessem valorizadas, pois nessa época estava acabando o ciclo do ouro.

As terras do Campinho se tornaram o refúgio dos negros que eram libertos, ou dos que mesmo depois da abolição, não queriam continuar trabalhando para os brancos. Formaram uma comunidade completamente isolada da civilização e que, até hoje, evitam misturas com “gente de fora”. Por tanto, além de todos serem descendentes de Antonica, Marcelina ou Luiza, todos tem algum laço de parentesco. De 1750 até 1970, quando foi construída a BR-101, cortando suas terras, essa comunidade negra vivia completamente isolada do mundo, “presos no meio da serra”, longe da cidade e do mar.

No quilombo do Campinho a sociedade é nitidamente matriarcal, seja pelo fato das terras terem sido dadas às mulheres, seja porque era muito mais difícil um escravo homem ser liberto do que uma escrava mulher, fazendo do Campinho uma comunidade com muito mais mulheres do que homens. Todo o trabalho de roça, artesanato e de produção de farinha são ainda hoje feitos principalmente pelas mulheres. Os homens procuram trabalho na cidade, estando sempre no ciclo entre estar empregado ou não. A renda da comunidade vem da venda de produtos agrícolas (cana e banana), da produção de farinha de mandioca e do artesanato (cestos e esteiras feitos em taquara, taboa e cipó). Há na comunidade uma Casa do Artesanato, aberta diariamente e onde se pode comprar os produtos feitos no local e conhecer um pouca da história do quilombo.

A comunidade, católica em sua maioria, tem em maio o seu maior evento religioso, a Festa de São Benedito, o santo dos negros. Atualmente além da igreja católica, há mais duas igrejas evangélicas. As igrejas e o campo de futebol são as principais áreas de socialização.

A escola atende mais de cem crianças e está em processo de diferenciação, de forma a ensinar e preservar as características afro-brasileiras.

A Casa de Farinha, local onde ficam os equipamentos para descascar, lavar, ralar, secar e torrar a mandioca, é essencial para a comunidade pois produz o alimento básico para consumo diário além de ser sua principal fonte de renda. A Casa de Farinha é utilizada por várias famílias, que se unem para colher a mandioca e produzir a farinha. Existe uma Casa de Farinha comunitária, localizada na beira da BR-101, próxima a uma pequena cachoeira, e mais umas três ou quatro Casas de Farinhas menores. Atualmente a comunidade está buscando recursos para a construção de um alambique de pinga e um engenho para produção de açúcar mascavo.

fonte:http://www.paraty.tur.br/culturasetradicoes/negrosescravos.php

O fim da escravidão e a sustentabilidade



13/5/2009 - Gabriela Werner - Diversidade
Algumas semanas atrás, viajei com quatro amigos para Analândia, no interior de São Paulo. Na medida em que nos afastávamos da cidade, o trânsito diminuía, a paisagem ficava mais verde e os passageiros do carro mais relaxados. Não demorou muito para começarem os comentários contemplativos – “que paisagem bonita!”, “como é bom respirar ar puro!”, “é muito importante sair da cidade de vez em quando, não acham?” – e as conversas desinteressadas sobre o mundo.
Entre as conversas, por alguma razão que agora não me vem à cabeça, falamos sobre o fim da escravidão no Brasil, fato importantíssimo, que faz seu 121º aniversário no dia 13 de maio.
Naquela época, além da rebelião dos próprios escravos, que ao longo de muitos anos tentaram a todo custo defender sua liberdade, apareceu no país uma minoria mais consciente, formada por literatos, religiosos, políticos e pessoas do povo, que defendia a abolição. O que eles precisaram enfrentar era um jeito de pensar que via os escravos como meros recursos para a produção, que acreditava que as coisas eram assim mesmo e que defendia que a adoção de outra forma de trabalho era impossível porque os custos da produção subiriam demais.
E como a mudança ocorreu? Bom, foram várias coisas ao mesmo tempo:
§ Criação de alternativas econômicas: trabalho assalariado de brasileiros e de imigrantes estrangeiros no Sul; substituição dos engenhos pelas usinas no Nordeste, diminuindo a quantidade de mão-de-obra necessária; aparecimento das indústrias nas cidades;
§ Limitações sucessivas por parte do governo: proibição do tráfico de escravos (1850); lei do ventre livre (1871); lei dos sexagenários (1885); e finalmente a lei Áurea (1888);
§ Aumento no número de abolicionistas e das pressões populares, inclusive entre os escravos, por meio dos movimentos quilombolas;
§ Aumento da pressão internacional e abolição da escravatura em outros países.
Será que esse processo tem algo a nos ensinar?
Se pensarmos no meio ambiente, talvez nós estejamos no meio do “processo de abolição”. Afinal, o número de pessoas preocupadas com a natureza tem crescido muito, a legislação ambiental está ficando mais rigorosa, a pressão internacional é cada vez maior e as alternativas para melhorar os processos produtivos não param de crescer – reaproveitamento de resíduos, design inteligente de produtos, utilização de energia renovável, ecoeficiência, etc.
No futuro, tendem a prosperar organizações e pessoas que adotam um novo jeito de pensar e agir, de acordo com os limites e as leis da natureza. Quando chegarmos lá, os nossos netos provavelmente se perguntarão como um dia a sociedade viveu sem reconhecer a importância e os direitos do meio ambiente, da mesma forma como hoje consideramos a escravidão absurda.
Até a próxima!
Gabriela Werner
PS: vale lembrar que, apesar de ilegal, a escravidão ainda é uma realidade no Brasil. Dados de 2005 da Organização Internacional do Trabalho apontam que há cerca de 25 mil pessoas mantidas em condições análogas às de escravidão no país, em atividades muitas vezes ligadas à degradação do meio ambiente. Saiba mais sobre essa questão aqui.



Gabriela Werner
Analista de Desenvolvimento Sustentável do Grupo Santander Brasil

fonte: http://www.bancoreal.com.br/sustentabilidade/?clique=Geral/Frame_Superior/Menu_Institucional/Sustentabilidade

O quinto poder está nas mãos do consumidor



Envolverde
Mauricio Salvador é Mestre em Comunicação e Administração, professor e diretor comercial na e-bit Informação e autor do blog Comércio Eletrônico e Marketing Online .

05/05/2009 - 12h05

Por Mauricio Salvador

Informações e opiniões dos consumidores divulgadas na internet baseiam cada vez mais as decisões de compra e a atuação das empresas.

No colégio, estudei sobre os três poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Algum tempo depois, já na faculdade, falava-se no quarto poder, o da imprensa, no sentido de proteger os direitos do cidadão denunciando abusos, injustiças e má administração governamental sob a bandeira de defesa da democracia.

Atualmente, na era da informação, catalisada pela internet e seus zilhões de páginas, imagens, vídeos e redes sociais, acordo pensando num quinto poder. O poder do consumidor e seu conteúdo colaborativo.

Em julho de 2005, Jeff Jarvis teve uma experiência negativa com seu notebook Dell. Depois de tentativas frustradas de resolver seu problema no suporte da empresa, postou sua fúria em seu blog Buzzmachine.com. Em algumas horas seu blog começou a ser inundado por experiências de outros consumidores da empresa também insatisfeitos. Poucos dias depois, outros blogs com conteúdos ácidos sobre os mesmos problemas começaram a pipocar.

Uma semana depois, quando se fazia uma busca pela palavra “Dell” no Google, o blog de Jeff aparecia no topo da página de resultados. Foi o suficiente para chamar a atenção de revistas e jornais do porte de PC World, Business Week e The Wall Street Journal. Em agosto do mesmo ano, a Dell publicou em seu site uma resposta ao problema. Tarde demais. Um incontrolável círculo vicioso de geração de conteúdo negativo havia sido criado.

Em uma pesquisa recente feita pelo Datafolha com internautas brasileiros, foi publicado que 53% dos consumidores usam opiniões postadas por outros usuários na internet antes de decidir pela compra de um produto. Depois de assistir a um ingênuo vídeo caseiro postado no YouTube por um jovem americano, tomei minha decisão de comprar um BlackBerry em vez de um iPhone. Uma comunidade no Orkut me fez optar por uma TV LG ao invés de uma Samsung.

Cada vez mais, consumidores como eu e você baseiam suas decisões de compra em opiniões postadas por outros usuários em blogs, fotologs, fóruns, comunidades e sites especializados.

No comércio eletrônico, as resenhas e opiniões dos consumidores vêm sendo cada vez mais exploradas por fabricantes e lojas virtuais. A Amazon utiliza com excelência o conteúdo gerado por seus consumidores. É possível inclusive ordenar os produtos baseando-se nas notas dadas pelas pessoas que os compraram. Outra loja virtual, a Bazuca.com, do Chile, incentiva seus visitantes, com créditos em compras, a opinarem sobre produtos, de notebooks a vinhos.

Cada vez mais as empresas se preocupam em acompanhar o que está sendo dito sobre suas marcas, produtos e serviços na internet. Se na época dos nossos avós um cliente insatisfeito compartilhava sua experiência negativa com onze pessoas, hoje essa frustração tem ao seu dispor um megafone virtual de alcance ilimitado: a internet.

Através dela, é possível dissipar de maneira irreversível sua angústia e revolta com produtos de má qualidade e serviços mal prestados. Irreversível sim, porque blogs, comunidades e fóruns não são como grafites de parede que podem ser apagados da noite para o dia.

O quinto poder é mais do que colocar suas insatisfações como consumidor num amplificador. É o poder de fazer produtos voltarem para as mesas dos projetistas para serem redesenhados. É o poder de fazer as empresas reconhecerem publicamente quando errarem e de enaltecer aquelas que se preocupam realmente em trazer qualidade e inovação para o mercado.

De forma subjetiva, mas em progressão geométrica, esse poder aumenta cada vez mais. Se hoje ele tem influência sobre produtos, serviços e empresas, por que amanhã não teria sobre governos? A última eleição nos Estados Unidos mostrou a força da internet como veículo de discussões e apoio às propostas dos candidatos. Várias ONGs pelo mundo já usam a web para publicar informações de administração pública no combate à corrupção, como a Transparência Brasil.

Se hoje, ao chegar em casa depois de um dia de trabalho, em vez de ligar a televisão você entrar na internet para publicar uma foto engraçada do seu cachorro, um vídeo do seu filho dando os primeiros passos, escrever sobre um prato exótico que comeu no almoço ou simplesmente desabafar sobre o trânsito horrível de sua cidade, parabéns! Você faz parte do quinto poder.

Consumidores, uni-vos.

(Envolverde/Instituto Akatu)

fonte:http://ces.fgvsp.br/index.cfm?fuseaction=noticia&IDnoticia=150749&IDidioma=1

Engajamento com Stakeholders



Stakeholder é o termo em inglês que diz respeito às parte interessadas, ou seja, todos os públicos com os quais uma organização se relaciona em seu dia-a-dia, ou que impactam e são impactados por ela, seja direta ou indiretamente.

Engajamento com Stakeholders é buscar entender e envolver as partes interessadas de uma Organização em suas atividades e decisões. Esse é um elemento-chave na busca da sustentabilidade, pois envolve o gerenciamento dos 3Ps (desempenho ambiental, econômico e social) e implica em práticas éticas e transparentes junto a todos os públicos com os quais a organização se relaciona.

Considerar os pontos de vista dos diversos públicos no processo de gestão traz uma série de oportunidades, que vão desde a redução de riscos até a construção de soluções que beneficiam todos os envolvidos. Além disso, representa uma nova proposta de geração de valor: um modelo de negócios em que todos ganham e no qual as organizações desempenham o papel de agentes de mudança social.

fonte:http://sustentabilidade.bancoreal.com.br/engajamento/default.aspx

Oficinas de Sustentabilidade




As oficinas de sustentabilidade para funcionários estavam entre as primeiras ações que fizemos internamente no movimento de inserção do tema em na nossa organização. Em 2003 formatamos cursos de 8 horas em que todos aprendiam conceitos básicos, refletiam e elaboravam planos para colocar a sustentabilidade em suas rotinas, dentro e fora do trabalho. Esses cursos foram fundamentais para que cada vez mais pessoas conhecessem e aplicassem o tema, apoiando a criação e desenvolvimento de muitas ações no dia-a-dia dos participantes.
Agora, no Espaço Real de Práticas em Sustentabilidade, essas oficinas estão abertas, gratuitamente para todos que querem uma introdução ao tema e estão começando a se interessar pelo assunto.
Veja os temas abordados em nossas Oficinas:
- Os 3 Ps (ambiental, social e econômico)
- Alguns conceitos de Desenvolvimento Sustentável
- O Estado do Mundo
- Iniciativas Inspiradoras
A próxima Oficina de Sustentabilidade será em Recife
Agende-se
Data: 25 de maio de 2009
Horário: das 09:00 às 18:00h
Local: JCPM Trade Center
Av. Eng. Antonio de Góes, 60 - Pina - Recife
Inscrições
As vagas são limitadas e a confirmação será feita de acordo com a ordem de inscrição.

Maiores informações acesse o site do Banco Real

fonte:http://www.bancoreal.com.br/sustentabilidade/?clique=Geral/Frame_Superior/Menu_Institucional/Sustentabilidade

terça-feira, 12 de maio de 2009

Leis de incentivo Fiscal



Leis de Incentivo Fiscal

Potencialize suas chances de conseguir o patrocínio para seu projeto. Consiga a aprovação nas principais leis e editais de fomento à cultura como: Lei Rouanet, Lei Mendonça, Editais.

Consulte-nos sobre preços e formas de pagamento.

Cadastre-se agora, é Grátis!

Abaixo seguem algumas Informações úteis para a aprovação de projetos com as leis de incentivo fiscal. Qualquer duvida nossa equipe estara pronta a atendê-lo.

Lei Rouanet - Incentivo Fiscal
Neste mecanismo de apoio, a proposta cultural passa por uma análise no Ministério da Cultura, e, se aprovada, o seu titular poderá buscar recursos para a execução junto a pessoas físicas ou empresas tributadas com base no lucro real, que terão total ou parte do valor apoiado deduzido no Imposto de Renda (IR), dentro dos percentuais permitidos pela legislação. As pessoas ou empresas que apoiam projetos culturais com benefícios fiscais são chamadas incentivadoras.

Neste mecanismo, o Ministério da Cultura NÃO repassa recursos para a proposta cultural.

Atenção - quem pleiteia apoio pelo mecanismo de incentivos fiscais da Lei Rouanet também deve observar a Instrução Normativa Conjunta MinC/Ministério da Fazenda n.º 01/1995, e o Decreto 3.000/1999 (especificamente o capítulo II, seção I).

Quem pode ser apoiado:

- Pessoas físicas com atuação na área cultural (artistas, produtores culturais, técnicos da área cultural etc);

- Pessoas jurídicas públicas de natureza cultural da administração indireta (autarquias, fundações etc);

- Pessoas jurídicas privadas de natureza cultural, com ou sem fins lucrativos, (empresas, cooperativas, fundações, ONGs, Organizações Sociais etc)

Lembre-se:

- Pessoa física deve comprovar atuação cultural pelo currículo ou portifólio; pessoa jurídica deve ter a natureza cultural expressa: no seu ato constitutivo (contrato social ou estatuto); no CNPJ, onde deve constar a atividade cultural como a atividade principal ou secundária; e pelo relatório de atividades culturais, ou currículo/portifólio dos dirigentes, em caso de empresa ou instituição com menos de dois anos.

- Instituições públicas da administração direta NÃO PODEM receber apoio por incentivo fiscal.

O que pode ser apoiado:

As propostas culturais podem abranger os seguintes segmentos, entre outros: teatro, dança, circo, ópera, mímica e congêneres; literatura; música; artes plásticas e gráficas, gravuras e congêneres; cultura popular e artesanato; patrimônio cultural material e imaterial (museu, acervo etc); área audiovisual (curta e média metragem, festivais nacionais, oficinas, programas de rádio e TV, sites etc).

Quem pode apoiar com incentivo fiscal:

- Pessoas físicas pagadoras de Imposto de Renda
- Empresas tributadas com base no lucro real

Não podem apoiar com incentivo fiscal

- Microempresas e empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional
- Empresas com regime de tributação baseada em lucro presumido ou arbitrado
- Doador ou patrocinador vinculado à pessoa, instituição ou empresa titular da proposta, exceto quando se tratar de instituição sem fins lucrativos, criada pelo incentivador.

Consideram-se vinculados:

- pessoa jurídica da qual o doador ou patrocinador seja titular, administrador, gerente, acionista ou sócio, na data da operação, ou nos 12 meses anteriores;
- cônjuge, parentes até o terceiro grau, inclusive os afins, e dependentes do doador ou patrocinador ou dos titulares, administradores, acionistas ou sócios de pessoa jurídica vinculada ao doador ou patrocinador;
- outra pessoa jurídica da qual o doador ou patrocinador seja sócio


Formas de apoio: doação e patrocínio.


O apoio pode ser efetuado por duas formas: doação ou patrocínio.


A doação compreende as seguintes ações:
- transferência definitiva e irreversível de recursos financeiros, em favor do titular da proposta cultural;
- transferência definitiva e irreversível de bens, em favor do titular da proposta cultural;
- Também se configura como doação o valor despendido com as despesas de restauração, conservação ou preservação de bem tombado pela União, por pessoa física pagadora do Imposto de Renda ou pessoa jurídica tributada com base no lucro real dele proprietária ou titular. Este tipo de gasto também pode ser objeto de benefício fiscal.

Na doação é proibido qualquer tipo de promoção do doador e só podem se beneficiar dela propostas culturais de pessoa física, ou jurídica sem fins lucrativos.

O patrocínio compreende as seguintes ações:
- transferência definitiva e irreversível de dinheiro;
- transferência definitiva e irreversível de serviços;
- utilização de bens móveis ou imóveis do patrocinador, sem transferência de domínio.

O patrocinador tem direito a receber até 10% do produto resultante do projeto (CDs, ingressos, revistas etc), para distribuição gratuita promocional. Se houver mais de um patrocinador, cada qual receberá o produto em quantidade proporcional ao valor incentivado, respeitado o limite de 10% para o conjunto de patrocinadores.

No patrocínio pode haver publicidade do apoio com identificação do patrocinador, e qualquer proposta aprovada pode se beneficiar dele, inclusive as que estiverem em nome de pessoa jurídica com fins lucrativos.

Percentuais de abatimento
Os percentuais de abatimento no Imposto de Renda são os seguintes, conforme o artigo 26 da Lei 8.313/91:

Empresas:
- 30% do valor patrocinado;
- 40% do valor doado.

Pessoa física:
- 60% do valor patrocinado;
- 80% do valor doado.

Atenção - A dedução é limitada aos percentuais estabelecidos pela legislação do imposto de renda vigente, que atualmente são de 4% para pessoa jurídica e 6% para pessoa física. A empresa pode ainda lançar o valor incentivado como despesa operacional.

Com a publicação da Lei 9.874/99 e a Medida Provisória nº 2228-1/2001, a pessoa física ou a empresa que apoiam projetos enquadrados em determinados segmentos, estabelecidos pelo artigo 18, passaram a ter a possibilidade de deduzir até 100% do valor doado ou patrocinado, também dentro dos limites da legislação do imposto de renda vigente. Neste caso, no entanto, o valor incentivado não pode ser lançado como despesa operacional.

Os referidos segmentos são:

- Artes Cênicas;
- Livros de valor artístico, literário ou humanístico;
- Música erudita ou instrumental;
- Exposições de Artes Visuais;
- Doações de acervos para bibliotecas públicas, museus, arquivos públicos e cinematecas, treinamento de pessoal e aquisição de equipamentos para manutenção desses acervos;
- Produção de obras cinematográficas e videofonográficas de curta e média metragem e preservação e difusão do acervo audiovisual (apenas produções independentes e culturais-educaticas de caráter não-comercial, realizadas por empresas de rádio e televisão);
- Preservação do patrimônio cultural material e imaterial (só é considerado como patrimônio o bem cultural oficialmente tombado, em esfera federal, estadual ou municipal; processo de tombamento em andamento não é considerado).

Projetos audiovisuais - Incentivo Fiscal

São apoiados projetos audiovisuais que se enquadrem nos seguintes segmentos:
∗ Curta metragem (até 15 minutos)
∗ Média metragem (de 16 até 70 minutos)
∗ Festivais Nacionais
∗ Difusão (mostras/distribuição de acervo)
∗ Restauração/Preservação de acervo
∗ Oficinas
∗ Workshops
∗ Programa de rádio e TV
∗ Multimídia (site / portal, DVD, CD-Rom)
∗ Promoção de atividades de estímulo à pesquisa, de conhecimento do mercado, de desenvolvimento de tecnologia, dos meios de produção, da informação e análise sobre o audiovisual brasileiro

Para projetos de outras modalidades como longa metragem (acima de 70′), séries (+ de 3 capítulos) e festivais internacionais, o proponente deve dirigir-se à Agência Nacional de Cinema, Ancine.

Para qualquer outro projeto cultural que não esteja relacionado a conteúdos audiovisuais e radiofônicos, a exemplo de projetos culturais voltados à musica, teatro etc., clique aqui.

Os projetos culturais podem ser apoiados, via incentivos fiscais, por pessoas físicas pagadoras de Imposto de Renda ou por pessoas jurídicas, por meio de doações ou patrocínios.As pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real podem deduzir valores de até 4% de seu Imposto de Renda e as pessoas físicas podem abater percentual de até 6%, seguindo os limites da legislação referente ao Imposto de Renda.

De acordo com o artigo 26 da Lei Rouanet (Lei 8.313/91), empresas podem deduzir 30% do valor patrocinado e 40% do valor doado. Já as pessoas físicas podem deduzir 60% do valor patrocinado e 80% do valor doado. Nestes casos, as pessoas jurídicas poderão abater as doações e patrocínios como despesa operacional.

O artigo 18 da mesma Lei Rouanet permite a dedução integral do valor incentivado para os segmentos:

- “produção de obras cinematográficas e videofonográficas de curta e média metragem e preservação e difusão do acervo audiovisual”, também dentro dos limites da legislação do imposto de renda” ( redação dada pela MP 2228-1/01, Artigo 53, alínea f).

- e para “construção e manutenção de salas de cinema e teatro, que poderão funcionar também como centros culturais comunitários, em municípios com menos de 100 mil habitantes” (Lei 8.313/91, Art 18, alínea h, redação inserida pela Lei 11.646/08)

Nestes casos, no entanto, o valor destinado ao projeto não pode ser lançado como despesa operacional. (ver o artigo 18 da Lei 8.313/91, modificado pela Lei 9.874/99 e pela Medida Provisória 2228-1/200 1- artigo 53, parágrafo 3o, alínea f).


B - APRESENTAÇÃO DE PROJETOS

1) Proponentes:

a) Pessoa Física:
- Apresentação de no máximo 02 (dois) projetos para captação e realização simultânea;
- Valor máximo passível de autorização para captação simultânea: até 1.000 (um mil) salários mínimos.

b) Pessoa Jurídica de Natureza Cultural:
- Apresentação de no máximo 02 (dois) projetos por segmento, respeitado o limite máximo de até 06 (seis) projetos para captação e realização simultânea;
- Valor máximo passível de autorização para captação simultânea: a ser definido mediante análise de portifólio de realizações na área audiovisual;

∗ O conteúdo das propostas (projeto) apresentadas tem que ser de natureza cultural.
∗∗ Em qualquer situação, seja o proponente pessoa física ou jurídica, a depender do montante passível de aprovação, a autorização para captação de recursos poderá ser concedida de forma escalonada (parcelada), com a exigência de prestação de contas parcial.

2) Documentação

Todos os proponentes, ao apresentarem projetos, devem encaminhar:

a- Formulários
- Formulário padrão preenchido, incluindo termo de responsabilidade assinado pelo proponente, orçamento físico financeiro, plano básico de divulgação, plano de distribuição, etc.
Formulário Apresentação de Projetos - Incentivo Fiscal

Instruções de Preenchimento - Incentivo Fiscal

b - Documentos

Toda a documentação requerida para a apresentação de projetos está exposta na Portaria MinC no. 4/08. A leitura deste documento é essencial.

Os proponentes devem apresentar documentos legais, documentos complementares e documentação técnica específica a cada segmento audiovisual ao qual está relacionada a proposta.


Documentos legais


I - Pessoa Física

a)documento de identificação (Carteira de Identidade, Carteira de Motorista, Passaporte, Registro de Estrangeiro);

b) CPF - Cadastro de Pessoa Física;

c) comprovante de residência;

d) apresentar versão atualizada de seu Curriculum Vitae devidamente assinado ou Portfólio comprovando as atividades culturais realizadas.


II - Pessoa Jurídica de Direito Privado

a)Documento de Constituição - de acordo com sua natureza deverá apresentar:
- cópia autenticada do contrato social e alterações contratuais, devidamente registrados no órgão competente, ou contrato social consolidado, devidamente registrado no órgão competente, contendo no objeto social a finalidade cultural;

- cópia autenticada do estatuto social e atas de alteração estatutárias, devidamente registrados no órgão competente, ou estatuto social consolidado, devidamente registrado no órgão competente, contendo no objeto social a finalidade cultural;

b) ata de eleição da atual diretoria;

c) termo de posse de seus diretores;

d) CNPJ , contendo atividade cultural registrada no campo “Código e descrição da atividade econômica principal” ou “Código e descrição da atividade econômica secundária

e) Documentos de seus sócios / dirigentes / procuradores :

- documento de identificação (Carteira de Identidade, Carteira de Motorista, dentre outros)
- CPF - Cadastro de Pessoa Física
- comprovante de residência
- documento de pessoa estrangeira:
i. cédula de identidade de estrangeiro da República Federativa do Brasil;
ii. comprovante de residência;
iii. passaporte, constando visto de permanência e prazo de validade

f) relatório de atividades culturais da instituição/empresa. No caso da instituição/empresa possuir menos de 2 anos de atividades, deverá apresentar versão atualizada do Curriculum Vitae devidamente assinado ou Portfólio comprovando as atividades culturais realizadas pelos seus principais dirigentes.

III - Pessoa Jurídica de Direito Público

a)Documento de Constituição - de acordo com sua natureza devera apresentar:
- estatuto social e atas de alteração estatutárias, devidamente registrados no órgão competente, ou estatuto social consolidado, devidamente registrado no órgão competente, contendo no objeto social a finalidade cultural;
- regimento interno, contendo em seus objetivos a finalidade cultural;
- decreto ou lei que a constituiu, contendo em seus objetivos a finalidade cultural;

b) Atas de eleição de diretoria;

c) Termo de posse de seus diretores;

d) Instrumento de delegação de competência;

e) Documentos de seus dirigentes :
- Documento de identificação (Carteira de Identidade, Carteira de Motorista, dentre outros)
- CPF - Cadastro de Pessoa Física
- Comprovante de Residência
- documento de pessoa estrangeira:
i. cédula de identidade de estrangeiro da República Federativa do Brasil;
ii. comprovante de residência;
iii. passaporte, constando visto de permanência e prazo de validade

f) relatório de atividades culturais da instituição/empresa.

A documentação relacionada nos ítens I, II e III deverá ser apresentada em cópia acompanhada do documento original, para autenticação, mediante confrontação com o original, pelo servidor público que a receber ou, na impossibilidade de apresentação do original, por cópia autenticada em cartório.

O Ministério da Cultura, após a análise da documentação recebida, poderá solicitar ao proponente o envio de outros documentos que se fizerem necessários ao exame de admissibilidade do proponente.

Nos casos em que o proponente opte pela outorga de poderes a terceiros, a procuração deverá ser conferida por instrumento público, única e exclusivamente relacionada à proposta cultural apresentada, sendo admitidos apenas, os poderes para vistas dos autos obtenção de cópias de documentos neles contidos, conhecimento das decisões proferidas e requisição de juntada de documentos, sendo os demais atos de competência exclusiva do proponente da proposta cultural.


Documentos Complementares - Apresentação Obrigatória:


Para todos os projetos é obrigatória, ainda, a apresentação dos seguintes documentos:

I. projeto do curso acompanhado do currículo do responsável, no caso de proposta que contenham previsão de atividades de ensino, capacitação ou oficinas;

II. pelo menos três orçamentos obtidos no mercado, no caso de propostas que contenham previsão de aquisição de bens permanentes ou locação de espaço;

III. contrato ou acordo de cooperação técnica, no caso de proposta que contenham previsão de execução compartilhada;

IV. documentos comprobatórios de autoria ou titularidade da obra quando se tratar de utilização de obra própria;

V. anuência do proprietário ou detentor de direitos, no caso de propostas que contenham previsão de utilização de acervos de terceiros, de adaptação de obra de imagens, exibição de filmes e uso de roteiros;

VI. autorização de uso da obra e identificação da fonte, para uso de imagem de terceiros, inclusive no caso de pesquisa em banco de imagens;

VII. autorização do órgão público competente, no caso de eventos ou intervenção artístico-culturais em espaços públicos;

VIII. no caso de propostas que contenham previsão de aquisição de bens permanentes, termo de compromisso onde o proponente declare que dará destinação cultural aos bens, após a finalização do proposta, indicando o(s) beneficiário(s);

IX. cópia de instrumento de cessão de direitos do autor(es) e titular(es) dos direitos autorais, emitido pelo órgão responsável pelo registro ou pelo Cartório de Títulos e Documentos em que tal instrumento tiver sido registrado, de acordo com o Artigo 50, § 1º da Lei 9.610/1998, ou, ainda, de autorização de utilização ou adaptação da obra dada por seu(s) autor(es) e demais titular(es) de direitos autorais, de acordo com a Lei 9.610/1998;

X. tradução juramentada, com cópia autenticada, para a utilização de textos estrangeiros redigidos em outra língua;

XI. informações sobre medidas preventivas que serão adotadas para evitar o impacto ambiental;

XII. documento específico exigido para cada a área cultural em conformidade com o proposta, identificados no Anexo I.

Quando os documentos citados nos incisos deste artigos forem firmados em língua estrangeira, devera ser apresentada tradução efetuada por tradutor juramentado.


Documentação técnica (Propostas da área audiovisual)


Produção de obra audiovisual de curta ou media metragens:

a) no caso de ficção, roteiro dividido por seqüências, contendo o desenvolvimento dos diálogos e registrado na Fundação Biblioteca Nacional;

b) no caso de documentário, argumento contendo abordagem ou ações investigativas,
identificação das locações, dos depoentes ou personagens e, quando for o caso, material de arquivo e locuções;

c) Storyboard, no caso de animação;

2. Restauração ou preservação de acervo audiovisual:

a) termo de comprometimento de entrega de um master para preservação na Cinemateca Brasileira, devidamente assinado pelo titular do proposta e dos direitos sobre a obra;

b) Declaração anuência do proprietário ou detentor de direitos, no caso de propostas que contenham previsão de utilização de acervos de terceiros; de adaptação de obra; uso de imagens; exibição de filmes e utilização de roteiros;

c) Laudo técnico do estado das obras a serem restauradas


3. Programas de Rádio e TV (de caráter não comercial):


a) manifestação de interesse de emissoras em veicular o programa;

b) declaração de regularidade da emissora exibidora junto ao ECAD.

c) Estrutura/formato do programa, contendo sua duração, periodicidade e número de programas.

d) Propostas de programas de Rádio e TV não contemplarão a aquisição de espaço(s) para a sua veiculação.

4. Propostas de Mostras/Festivais/Oficinas e Workshops:


a) Identificação dos títulos a serem exibidos com a devida manifestação de interesse do(s) titular(es) dos direitos das mesmas, no caso de mostra;

b) Justificação acerca do conteúdo (acervo) indicado para o segmento de público a ser atingido, no caso de mostra;

c) Apresentação de planilha orçamentária especifica para cada ação prevista (mostra competitiva, mostra paralela, oficinas, workshop, etc.), no caso de festivais;

d) Vinculação de despesas (cachês, passagens, hospedagens e alimentação) referentes
a profissionais e participantes (homenageados, palestrantes, instrutores, curadores,
atores/produtores) com as respectivas identificações e funções a serem exercidas, em ambos os casos;
- Quando o projeto envolver realização de cursos de formação e capacitação de profissionais ou ensino das artes, é necessário encaminhar o projeto pedagógico, nome e currículo do coordenador pedagógico.

5. Multimídia (cd-room, site, portal):


a) Estrutura do site/portal;

b) Descrição das fontes de alimentação de conteúdo;

c) Definição de conteúdos( pesquisa e sua organização e, roteiros);

d) Design das interfaces, descrição da navegabilidade, opções de interatividade, design da editoração de texto/imagem/som e, indexações.
A qualquer produto ou sub-produto, faz-se necessário a inclusão da logomarca do Ministério da Cultura, conforme o Manual de Identidade Visual da SECOM/PR.


Os documentos de projetos audiovisuais devem ser entregues, pessoalmente ou por correspondência, no protocolo da Secretaria do Audiovisual (SAV), ou nas Representações Regionais do Ministério.


LEI DE MENDONÇA

Conheça a lei que regulamenta os incentivos fiscais para projetos culturais

LEI N° 10.923 DE 30 DE DEZEMBRO DE 1990.
Dispõe sobre incentivo fiscal para a realização de projetos culturais, no âmbito do Município de São Paulo.

LUIZA ERUNDINA DE SOUSA, Prefeita do Município de São Paulo, usando das atribuições que lhe são conferidas por lei, faz saber que a Câmara Municipal, em sessão de 28 de dezembro de 1990, decretou e eu promulgo a seguinte lei:

Art. 1° - Fica instituído, no âmbito do Município de São
Paulo, incentivo fiscal para a realização de projetos culturais, a ser concedido a pessoa física ou jurídica domiciliada no Município. 1° - O incentivo fiscal referido no "caput " deste artigo corresponderá ao recebimento, por parte do empreendedor de qualquer projeto cultural no Município, seja através de doação, patrocínio ou investimento, de certificados expedidos pelo Poder Público, correspondentes ao valor do incentivo autorizado pelo Executivo. 2° - Os portadores dos certificados poderão utilizá-los para pagamento dos impostos sobre serviços de qualquer natureza - ISS e sobre a propriedade predial e territorial urbana _ IPTU, até o limite de 20% (vinte por cento) do valor devido a cada incidência dos tributos. 3° - Para o pagamento referido no parágrafo anterior, o valor de face dos certificados sofrerá desconto de 30% (trinta por cento). 4° - A Câmara Municipal de São Paulo fixará anualmente, o valor que deverá ser usado como incentivo cultural, que não poderá ser inferior a 2% (dois por cento) nem superior a 5% (cinco por cento) da receita proveniente do ISS e do IPTU. 5° - Para o exercício de 1991, fica estipulada a quantia equivalente a 5% (cinco por cento) da receita proveniente do ISS e do IPTU, excluindo-se o valor destinado ao FUNTRAN.

Art. 2° - São abrangidas por esta lei as seguintes áreas: I - música e dança II - teatro e circo III - cinema, fotografia e vídeo IV - literatura V - artes plásticas, artes gráficas e filatelia VI - folclore e artesanato VII - acervo e patrimônio histórico e cultural, museus e centros culturais.

Art. 3° - Fica autorizada a criação, junto à Secretaria Municipal de Cultura, de uma Comissão, independente e autônoma, formada maioritariamente por representantes do setor cultural a serem enumerados pelo Decreto regulamentador da presente lei e por técnicos da administração municipal que ficará incumbida da averiguação e da avaliação dos projetos culturais apresentados. 1° - Os componentes da Comissão deverão ser pessoas de comprovada idoneidade e de reconhecida notoriedade na área cultural. 2° - Aos membros da Comissão, que deverão ter um mandato de 1 (um) ano, podendo ser reconduzidos, não será permitida a apresentação de projetos durante o período de mandato, prevalecendo esta vedação até 2 (dois) anos após o término do mesmo. 3° - A Comissão terá por finalidade analisar exclusivamente o aspecto orçamentário do projeto, sendo-lhe vedado se manifestar sobre o mérito do mesmo. 4° - Terão prioridade os projetos apresentados que já contenham a intenção de contribuintes incentivadores de participarem do mesmo. 5° - O Executivo deverá fixar o limite máximo de incentivo a ser concedido por projeto, individualmente. 6° - Uma parcela dos recursos a serem destinados ao incentivo deverá ser destinada para a aquisição de ingressos.

Art. 4° - Para a obtenção do incentivo referido no artigo Art. 1°, deverá o empreendedor apresentar à Comissão cópia do projeto cultural, explicando os objetivos e recursos financeiros e humanos envolvidos, para fins de fixação do valor do incentivo e fiscalização posterior.

Art. 5° - Aprovado o projeto o Executivo providenciará a emissão dos respectivos certificados para a obtenção do incentivo fiscal.

Art. 6° - Os certificados referidos no artigo 1° terão prazo de validade, para sua utilização, de 2 (dois) anos, a contar de sua expedição, corrigidos mensalmente pelos mesmos índices aplicáveis na correção do imposto.

Art. 7° - Além das sanções penais cabíveis, será multado em 10 (dez) vezes o valor incentivado o empreendedor que não comprovar a correta aplicação desta lei, por dolo, desvio do objetivo e/ou dos recursos.

Art. 8° - As entidades de classe representativas dos diversos segmentos da cultura poderão ter acesso, em todos os níveis, a toda documentação referentes aos projetos culturais beneficiados por esta lei.

Art. 9° - As obras resultantes dos projetos culturais beneficiados por esta lei, serão apresentadas, prioritariamente, no âmbito territorial do Município, devendo constar a divulgação do apoio institucional da Prefeitura do Município de São Paulo.

Art. 10° - Fica autorizada a criação, junto à Secretaria Municipal de Cultura, do Fundo Especial de Promoção das Atividades Culturais - FEPAC.

Art. 11° - Constituirão receitas do FEPAC, além das provenientes de dotações orçamentárias e de incentivos fiscais, os preços de cessão dos Corpos Estáveis, teatros e espaços culturais municipais, suas rendas de bilheteria, quando não revertidas a título de cachês, a direitos autorais e à venda de livros ou outras publicações e trabalhos gráficos editados ou co-editados pela Secretaria Municipal de Cultura, aos patrocínios recebidos à participação na produção de filmes e vídeos, à arrecadação de preços públicos originados na prestação de serviços pela Secretaria e de multas aplicadas em conseqüência de danos praticados a bens artísticos e culturais e a bens imóveis de valor histórico, quando não seja receita do CONPRESP, o rendimento proveniente da aplicação de seus recursos disponíveis, além de outras rendas eventuais.

Art. 12° - Caberá ao Executivo a regulamentação da presente lei no prazo de 90 (noventa) dias a contar de sua vigência.

Art. 13° - Esta lei entrará em vigor na data sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

fonte: http://www.patrociniocerto.com.br/leis.asp

domingo, 10 de maio de 2009

Súbito


Nem posso dizer que fui feliz
não houve tempo para nada
enleada de suas palavras
envolta em desejos e sonho.
Nosso amor foi revoada
de pássaros em migração
ou miragem desses meus
sentidos cansados de tanta solidão?

Não houve tempo para nada
nem sei que músicas embalam
seu sono sem mim.
Nem sei se sonha ou se passa a noite
em claro, como tateio a madrugada
de saudade em saudade.

Inesperado, veio e se foi, súbito.
Pouco conheci de suas mãos
senão o fogo onde ardo, deixado
assim como nada, em meus vãos.
Pouco entendi dos silêncios seus
e, das palavras todas que me disse,
apenas uma ouço agora: Adeus!


autor: Saramar

Imagem: Bouguereau

fonte:http://abrindojanelas.blogspot.com/

Não Basta


Não basta andar juntos na vida;
é preciso viver juntos a estrada que se anda.

Não basta comer à mesma mesa;
é preciso amassar o mesmo pão.

Não basta falar a mesma língua;
é preciso encontrar-se na mesma linguagem.

Não basta ir atrás dos outros;
é preciso ir com os outros.

Não basta resolver os problemas dos outros;
é preciso amar os outros e os seus problemas.

Não basta caminhar no mesmo sentido;
é preciso dar um sentido a caminhos diferentes.

Não basta rezar todos a mesma oração;
é preciso rezar a mesma oração por todos.



Frei Manuel Rito Dias
Luanda


fonte:http://brancamar.blogspot.com

sábado, 9 de maio de 2009

História do Dia da Mães

As mais antigas celebrações do Dia da Mãe remontam às comemorações primaveris da Grécia Antiga, em honra de Rhea, mulher de Cronos e Mãe dos Deuses. Em Roma, as festas comemorativas do Dia da Mãe eram dedicadas a Cybele, a Mãe dos Deuses romanos, e as cerimônias em sua homenagem começaram por volta de 250 anos antes do nascimento de Cristo.
Durante o século XVII, a Inglaterra celebrava no 4º Domingo de Quaresma (40 dias antes da Páscoa) um dia chamado “Domingo da Mãe”, que pretendia homenagear todas as mães inglesas. Neste período, a maior parte da classe baixa inglesa trabalhava longe de casa e vivia com os patrões. No Domingo da Mãe, os servos tinham um dia de folga e eram encorajados a regressar a casa e passar esse dia com a sua mãe.


À medida que o Cristianismo se espalhou pela Europa passou a homenagear-se a “Igreja Mãe” – a força espiritual que lhes dava vida e os protegia do mal. Ao longo dos tempos a festa da Igreja foi-se confundindo com a celebração do Domingo da Mãe. As pessoas começaram a homenagear tanto as suas mães como a Igreja.

Nos Estados Unidos, a comemoração de um dia dedicado às mães foi sugerida pela primeira vez em 1872 por Julia Ward Howe e algumas apoiantes, que se uniram contra a crueldade da guerra e lutavam, principalmente, por um dia dedicado à paz.


A maioria das fontes é unânime acerca da idéia da criação de um Dia da Mãe. A idéia partiu de Anna Jarvis, que em 1904, quando a sua mãe morreu, chamou a atenção na igreja de Grafton para um dia especialmente dedicado a todas as mães. Três anos depois, a 10 de Maio de 1907, foi celebrado o primeiro Dia da Mãe, na igreja de Grafton, reunindo praticamente família e amigos. Nessa ocasião, a sra. Jarvis enviou para a igreja 500 cravos brancos, que deviam ser usados por todos, e que simbolizavam as virtudes da maternidade. Ao longo dos anos enviou mais de 10.000 cravos para a igreja de Grafton – encarnados para as mães ainda vivas e brancos para as já desaparecidas – e que são hoje considerados mundialmente com símbolos de pureza, força e resistência das mães.

Segundo Anna Jarvis seria objetivo deste dia tomarmos novas medidas para um pensamento mais activo sobre as nossas mães. Através de palavras, presentes, atos de afeto e de todas as maneiras possíveis deveríamos proporcionar-lhe prazer e trazer felicidade ao seu coração todos os dias, mantendo sempre na lembrança o Dia da Mãe.

Face à aceitação geral, a sra. Jarvis e os seus apoiantes começaram a escrever a pessoas influentes, como ministros, homens de negócios e políticos com o intuito de estabelecer um Dia da Mãe a nível nacional, o que daria às mães o justo estatuto de suporte da família e da nação.

A campanha foi de tal forma bem sucedida que em 1911 era celebrado em praticamente todos os estados. Em 1914, o Presidente Woodrow Wilson declarou oficialmente e a nível nacional o 2º Domingo de Maio como o Dia da Mãe.

Hoje em dia, muitos de nós celebram o Dia da Mãe com pouco conhecimento de como tudo começou. No entanto, podemos identificar-nos com o respeito, o amor e a honra demonstrados por Anna Jarvis há 96 anos atrás.

Apesar de ter passado quase um século, o amor que foi oficialmente reconhecido em 1907 é o mesmo amor que é celebrado hoje e, à nossa maneira, podemos fazer deste um dia muito especial.

E é o que fazem praticamente todos os países, apesar de cada um escolher diferentes datas ao longo do ano para homenagear aquela que nos põe no mundo.

Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro, mas atualmente o Dia da Mãe é no 1º Domingo de Maio, em homenagem a Maria, Mãe de Cristo

No Brasil a introdução desta data se deu no RIO GRANDE DO SUL, em 12 de maio de 1918, por iniciativa de EULA K. LONG, em SÃO PAULO, a primeira comemoração se deu em 1921.

A oficialização se deu por decreto no Governo Provisório de Getúlio Vargas, que em 5 de maio de 1932, assinou o decreto nº 21.366.

Em 1947, a data foi incluída no calendário oficial da Igreja Católica por determinação do Cardeal Arcebispo do Rio, Dom Jaime de Barros Câmara.

Fonte: Guia dos Curiosos (Marcelo Duarte) - Portugal
http://www.arteducacao.pro.br

Ás Mães

- às Mães que apesar das canseiras, dores e trabalhos, sorriem e riem, felizes, com os filhos amados ao peito, ao colo ou em seu redor; e às que choram, doridas e inconsoláveis, a sua perda física, ou os vêem “perder-se” nos perigos inúmeros da sociedade violenta e desumana em que vivemos;
- às Mães ainda meninas, e às menos jovens, que contra ventos e marés, ultrapassando dificuldades de toda a ordem, têm a valentia de assumir uma gravidez - talvez inoportuna e indesejada – por saberem que a Vida é sempre um Bem Maior e um Dom que não se discute e, muito menos, quando se trata de um filho seu, pequeno ser frágil e indefeso que lhe foi confiado;
- às Mães que souberam sacrificar uma talvez brilhante carreira profissional, para darem prioridade à maternidade e à educação dos seus filhos e às que, quantas vezes precisamente por amor aos filhos, souberam ser firmes e educadoras, dizendo um “não” oportuno e salvador a muitos dos caprichos dos seus filhos adolescentes;
- às Mães precocemente envelhecidas, gastas e doentes, tantas vezes esquecidas de si mesmas e que hoje se sentem mais tristes e magoadas, talvez por não terem um filho que se lembre delas, de as abraçar e beijar...;
- às Mães solitárias, paradas no tempo, não visitadas, não desejadas, e hoje abandonadas num qualquer quarto, num qualquer lar, na cidade ou no campo, e que talvez não tenham hoje, nem uma pessoa amiga que lhes leia ao menos uma carta dum filho...;
- também às Mães que não tendo dado à luz fisicamente, são Mães pelo coração e pelo espírito, pela generosidade e abnegação, para tantos que por mil razões não tiveram outra Mãe...e finalmente, também às Mães queridíssimas que já partiram deste mundo e que por certo repousam já num céu merecido e conquistado a pulso e sacrifício...
A todas as Mães, a todas sem excepção, um Abraço e um Beijo cheios de simpatia e de ternura! E Parabéns, mesmo que ninguém mais vos felicite! E Obrigado, mesmo que ninguém mais vos agradeça!


Fonte: APFN - Associação Portuguesa de Famílias Numerosas
http://www.arteducacao.pro.br

SE O AMANHÃ NÃO VIER...

Se eu soubesse que essa seria a última vez que eu veria você dormir
Eu aconchegaria você mais apertado,
E rogaria ao senhor que protegesse você.

Se eu soubesse que essa seria a última vez que veria você sair pela porta,

Eu abraçaria, beijaria você, e chamaria de volta,
Para abraçar e beijar uma vez mais.

Se eu soubesse que essa seria a última vez que ouviria sua voz em oração,
Eu filmaria cada gesto, cada palavra sua,
Para que eu pudesse ver e ouvir de novo, dia após dia.

Se eu soubesse que essa seria a última vez,
Eu gastaria um minuto extra ou dois, para parar e dizer: EU TE AMO
Ao invés de assumir que você já sabe disso.

Se eu soubesse que essa seria a última vez,
Eu estaria ao seu lado, partilhando do seu dia, ao invés de pensar:
"Bem, tenho certeza que outras oportunidades virão, então eu posso deixar passar esse dia."

É claro que haverá um amanhã para se fazer uma revisão,
E nós teríamos uma segunda chance para fazer as coisas de maneira correta.

É claro que haverá outro dia para dizermos um para o outro: "EU TE AMO",

E certamente haverá uma nova chance de dizermos um para o outro:
"Posso te ajudar em alguma coisa?"
Mas no caso de eu estar errado, e hoje ser o último dia que temos,
Eu gostaria de dizer "O QUANTO EU AMO VOCÊ"
E espero que nunca esqueçamos disso.

O dia de amanhã não esta prometido para ninguém, jovem ou velho,
E hoje pode ser sua última chance de segurar bem apertado, a mão da pessoa que você ama.

Se você está esperando pelo amanhã, porque não fazer hoje?

Porque se o amanhã não vier, você com certeza se arrependerá pelo resto de sua vida,
De não ter gasto aquele tempo extra num sorriso, num abraço, num beijo,
Porque você estava "muito ocupado" para dar para aquela pessoa, aquilo que acabou sendo o último desejo que ela queria.

Então, abrace seu amado, a sua amada HOJE.
Bem apertado.
Sussurre nos seus ouvidos, dizendo o quanto o ama e o quanto o quer junto de você.
Gaste um tempo para dizer:

"Me desculpe"

"Por favor"

"Me perdoe"

"Obrigado"

ou ainda:

"Não foi nada"

"Está tudo bem".

Porque, se o amanhã jamais chegar, você não terá que se arrepender pelo dia de hoje.
Pois o passado não volta, e o futuro talvez não chegue.


fonte:http://www.velhosabio.com.br

Faça mais isto...

Apenas nesta manhã, eu vou deixar você escolher o que vai vestir, e sorrir e dizer que está ótimo.
Nesta manhã, eu vou deixar de lado a roupa pra lavar, pegar você e levá-lo ao parque.
Apenas nesta manhã, eu vou deixar a louça na pia e pedir que você me ensine a montar quebra-cabeças.
Apenas nesta tarde, vou desligar o telefone, e sentar com você no quintal para soltar bolhas de sabão.
Apenas nesta tarde, não vou gritar nenhuma vez, nem mesmo resmungar, quando você insistir em ir até o sorveteiro.
Apenas nesta tarde, não vou me preocupar com o que você vai ser quando crescer.
Vou deixar você me ajudar a assar biscoitos e não vou ficar atrás de você tentando consertá-los.
Apenas nesta noite, vou segurá-lo em meus braços e contar-lhe uma história sobre como você nasceu e como eu te amo.
Apenas nesta noite, eu vou deixar você espirrar a água da banho e não ficar nervosa.
Apenas nesta noite, vou deixar você ficar acordado até tarde, enquanto ficamos sentados na soleira, contando as estrelas.
Apenas nesta noite, enquanto eu passar meus dedos entre seus cabelos vou simplesmente ser grato a Deus por ter me dado o maior presente do mundo.

fonte:http://www.velhosabio.com.br

Creio

Creio no sorriso das estrelas,
na mensagem do infinito,
no canto dos pássaros,
na paz do sol poente,
no carinho do luar.
Creio no homem,
consciência da vida,
arquiteto de dias melhores.
Creio no amor,
melhor alternativa para a felicidade.
Creio na capacidade
de os homens se unirem,
e de mãos dadas,
edificarem um mundo humano.
Creio na verdade,
em meio a tantas máscaras e mentiras.
Creio na liturgia-compromisso
que leva a realização,
quando celebrada por corações solidários e amigos.
Creio em Deus, encarnado na terra dos homens,
através de Jesus.
Creio na eternidade da vida,
construção do futuro sobre o passado,
perpetuando o presente.
Creio na poesia da flor,
no sonho acordado,
na tranquilidade do coração,
na beleza do olhar,
na alegria de viver!

fonte:http://www.mensagensepoemas.net

Com o tempo... Mario Quintana

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz
com uma outra pessoa, você precisa, em
primeiro lugar, não precisar dela.

Percebe também que aquele(a) que você ama
(ou acha que ama), e que não quer nada com você,
definitivamente não é a pessoa da sua vida.

Você aprende a gostar de você,
a cuidar de você e, principalmente,
a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas...
é cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas,
você vai achar não quem você estava procurando,
mas quem estava procurando por você!

Mário Quintana

fonte:http://www.mensagensepoemas.net

Meus Pais Meu Orgulho (Ivan Teorilang)

Soneto c/ acróstico (nome do pai e da mãe)

Nossas vidas intensas se transformaram numa
Embora fisicamente insistentemente distante
Laços nunca rompidos por ferramenta nenhuma
Sobreviverão para sempre com amor abundante

Originei-me abençoadamente, com esta união,
Não poderia nunca ser fruto de outra melhor
Envaideço por esta sorte, ter de Deus a mão
Como acontece sempre, pois Ele é meu senhor

Espero ansioso, deles todo o perdão merecer
Ciente de sua pureza eu sinto isto possível
Ignoro reação diferente,tudo teria a perder

Lamento os motivos que vieram á constranger
Imenso porem, um sentimento se faz incrível
A ausensia da intenção deste mal, a cometer.

fonte:http://www.mensagensepoemas.net

Um dia você aprende que... (Shakespeare)

Depois de algum tempo você aprende a diferença,
a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se,
que companhia nem sempre significa segurança,
e começa a aprender que beijos não são contratos,
e que presentes não são promessas.

Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante,
com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança;
aprende a construir todas as suas estradas no hoje,
porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos,
e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo,
e aprende que não importa o quanto você se importe,
algumas pessoas simplesmente não se importam...
aceita que não importa quão boa seja uma pessoa,
ela vai ferí-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais,
e descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la,
e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida;
aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias,
e o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida,
e que bons amigos são a família que não nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que eles mudam;
percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa,
por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas;
pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós,
mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender que não se deve comparar-se com os outros,
mas com o melhor que pode ser.
Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.
Aprende que não importa onde já chegou, mas onde se está indo,
mas se você não sabe para onde está indo qualquer lugar serve.

Aprende que ou você controla seus atos ou eles o controlarão,
e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade,
pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.
Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.
Aprende que paciência requer muita prática.

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute
quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se;
aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou;
aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha;
aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens;
poucas coisas são tão humilhantes... e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando se está com raiva se tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame
não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode,
pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém;
algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.
Aprende que com a mesma severidade com que julga,
você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido,
o mundo não pára para que você o conserte.
Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás, portanto,
plante seu jardim e decore sua alma ao invés de esperar que alguém lhe traga flores,
e você aprende que realmente pode suportar...
que realmente é forte e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
Descobre que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!

Nossas dúvidas são traidoras
e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar,
se não fosse o medo de tentar.

(Shakespeare)

fonte:http://www.mensagensepoemas.net

De tudo ficaram três coisas Fernando Sabino

De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos apenas começando,
A certeza de que é preciso continuar,
E a certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar.
Façamos da interrupção um caminho novo,
Da queda um passo de dança,
Do medo uma escada,
Do sonho uma parte da procura e do encontro.
E assim terá valido a pena existir.

(Fernando Sabino)


fonte:http://www.mensagensepoemas.net

Renda-se Clarice Lispector

Renda-se como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei.
Pergunte, sem querer, a resposta, como estou perguntando.

Não se preocupe em "entender". Viver ultrapassa todo entendimento.

(Clarice Lispector)

Fonte: http://www.tvcultura.com.br

Mães




Existe em minha memória,
Guardadas com muita emoção
fortes lembranças da infância de um tempo que não vai voltar,
são recordações de vidas que jamais serão esquecidas
de mãos sempre estendidas prontas a me amparar.

Minha mãe suas mãos transformam meu viver
conduzem meus passos constroem meu saber
que os anos podem passar
poderemos até nos separar
mas jamais vou esquecer
em suas mãos posso sempre me abrigar.


de Nicole Luckmann

fonte:Mundo Jovem
http://www.pucrs.br/mj/poema-mae-94.php

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Inocência - Visconde de Taunay


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1
Inocência, de Visconde de Taunay
Fonte:
TAUNAY, Visconde de. Inocência. 19ª ed., São Paulo: Ática, 1991 (Bom Livro).
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para bibvirt@futuro.usp.br.Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto.Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para bibvirt@futuro.usp.br e saiba como isso é possível.



Inocência

Visconde de Taunay

I—O SERTÃO E O SERTANEJO

Todos vos bem sentis a ação secreta Da natureza em seu governo eterno,
E de íntimas camadas subterrâneas. Da vida o indicio a superfície emerge.
(Goethe, Fausto, 2ª parte)
Então com passo tranqülo metia-me eu por algum recanto da floresta,
algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, me denunciasse
a servidão e o domínio; asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado, onde
nenhum importuno viesse interpor-se entre mim e a natureza.
(J. J. Rousseau, O Encanto da Solidão)
Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul-oriental da
vastíssima província de Mato Grosso a estrada que da Vila de Sant'Ana do
Paranaíba vai ter ao sitio abandonado de Camapuã. Desde aquela povoação,
assente próximo ao vértice do ângulo em que confinam os territórios de São
Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso até ao Rio Sucuriú, afluente do
majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de léguas,
anda-se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas
umas às outras, rareiam, porem, depois as casas, mais e mais, e caminham-se
largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro de João
Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem chão e hospitaleiro, que
acolhe com carinho o viajante desses alongados paramos, oferece-lhe
momentâneo agasalho e o provê da matalotagem precisa para alcançar os
campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e Nioac, no Baixo Paraguai.
Ali começa o sertão chamado bruto.
2


Pousos sucedem a pousos, e nenhum teto habitado ou em ruínas,
nenhuma palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das
noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está caindo. Por toda a
parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a vegetação virgem,
como quando aí surgiu pela vez primeira.
A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se à maneira de
alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na composição de
todo aquele solo, fertilizado aliás por um sem-número de límpidos e
borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos
tributários do claro e fundo Paraná ou, na contravertente, do correntoso
Paraguai.
Essa areia solta, e um tanto grossa, tem cor uniforme que reverbera com
intensidade os raios do Sol, quando nela batem de chapa. Em alguns pontos é tão
fofa e movediça que os animais das tropas viageiras arquejam de cansaço, ao
vencerem aquele terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se
enterram até meia canela.
Freqüentes são também os desvios, que da estrada partem de um e outro
lado e proporcionam, na mata adjacente, trilha mais firme, por ser menos pisada.
Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui
variadas se mostram as paisagens em torno.
Ora e a perspectiva dos cerrados, não desses cerrados de arbustos
raquíticos, enfezados e retorcidos de São Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas
e elevadas árvores que, se bem não tomem, todas, o corpo de que são capazes à
beira das águas correntes ou regadas pela linfa dos córregos, contudo
ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na
casca lisa a força da seiva que as alimenta; ora são campos a perder de vista,
cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama, toda
salpicada de silvestres flores; ora sucessões de luxuriantes capões, tão regulares
e simétricos em sua disposição que surpreendem e embelezam os olhos; ora,
enfim, charnecas meio apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e o
gravata entrança o seu tapume espinhoso.
Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e
ressecado pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando
lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, ateia com
uma faúlha do seu isqueiro.
Minando à surda na touceira, queda a vivida centelha. Corra daí a
instantes qualquer aragem, por débil que seja, e levanta-se a língua de fogo
esguia e trêmula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espaços
imensos que se alongam diante dela. Soprem então as auras com mais força, e de
mil pontos, a um tempo, rebentam sôfregas labaredas que se enroscam umas nas
3


outras, de súbito se dividem, deslizam, lambem vastas superfícies, despedem ao
céu rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagais de tabocas e
taquaras, até esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que não possam
transpor, caso não as tanja para além o vento, ajudando com valente fôlego a
larga obra de destruição.
Acalmado aquele ímpeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de
espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, ali, a consumir com
mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até se extinguir de todo,
deixando como sinal da avassaladora passagem o alvacento lençol, que lhe foi
seguindo os velozes passos
Através da atmosfera enublada mal pode então coar a luz do Sol. A
incineração é completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas
carboretadas, detritos, argueiros e grânulos de carvão que redemoinham, sobem,
descem e se emaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas,
caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro às
outras.
Por toda a parte melancolia; de todos os lados tétricas perspectivas.
É cair, porém, daí a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de
fada andou por aqueles sombrios recantos a traçar às pressas jardins encantados
e nunca vistos. Entra tudo num trabalho intimo de espantosa atividade.
Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim, em que não
desabrochem rebentões com o olhar sôfrego de quem espreita azada ocasião
para buscar a liberdade, despedaçando as prisões de penosa clausura.
Aquela instantânea ressurreição nada, nada pode pôr peias.
Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro,
verde-gaio, acetinado, cabra todas as tristezas de há pouco. Aprimoram-se
depois os esforços; rompem as flores do campo que desabotoam as carícias da
brisa as delicadas corolas e lhe entregam as primícias dos seus cândidos
perfumes.
Se falham essas chuvas vivificadoras, então, por muitos e muitos meses,
ai ficam aquelas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente iluminadas por
avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma esperança de vida, com
todas as suas opulências e verdejantes pimpolhos ocultos, como que raladas de
dor e mudo desespero por não poderem ostentar as riquezas e galas encerradas
no ubertoso seio.
Nessas aflitas paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz, tão
freqüente antes do incêndio. Só de vez em quando ecoa o arrastado guincho de
algum gavião, que paira lá em cima ou bordeja ao chegar-se à terra, a fim de
agarrar um ou outro réptil chamuscado do fogo que lavrou.
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Rompe também o silêncio o grasnido do caracará, que aos pulos procura
insetos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vôo dos urubus, cujos negrejantes
bandos, guiados pelo fino olfato, buscam a carniça putrefata.
É o caracará comensal do urubu. De parceria se atira, quando urgido pela
fome, à rês morta e, intrometido como é, a custo de alguma bicada do pouco
amável conviva, belisca do seu lado no imundo repasto.
Se passa o caracará a vista do gavião, precipita-se este sobre ele com vôo
firme, dá-lhe com a ponta da asa, atordoa-o, atormenta-o só pelo gosto de lhe
mostrar a incontestada superioridade.
Nada, com efeito, o mete em brios.
Pelo contrário, mal levou dois ou três encontrões do miúdo, mas audaz
adversário, baixa prudente à terra e põe-se ai desajeitadamente aos saltos.
apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade das asas
levanta pó e cinza, tão de perto as arrasta ao chão.
Afinal, de cansado, deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a
serpesinha, que em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a
salvo, pensar as fundas queimaduras.
* * *
Tais são os campos que as chuvas não vêm regar.
Com que gosto demanda então o sertanejo os capões que lá de bem longe
se avistam nas encostas das colinas e baixuras, ao redor de alguma nascente
orlada de pindaíbas e buritis?!
Com que alegria não saúda os formosos coqueirais, núncios da linfa que
lhe há de estancar a sede e banhar o afogueado rosto?!
Enfileiram-se às vezes as palmeiras com singular regularidade na altura e
conformação; mas não raro amontoam-se em compactos maciços, dos quais se
segregam algumas mais e mais, a acompanhar com as raízes qualquer tênue fio
d'água, que coleia falto de forças e quase a sumir-se na ávida areia.
Desde longe dão na vista esses capões.
É a princípio um ponto negro, depois uma cúpula de verdura, afinal,
mais de perto, uma ilha de luxuriante rama, oásis para os membros lassos do
viajante exausto de fadiga, para os seus olhos encandeados e sua garganta
abrasada.
Então, com sofreguidão natural, acolhe-se ele ao sombreado retiro, onde
prestes desarreia a cavalgadura, à qual dá liberdade para ir pastar, entregando-se
sem demora ao sono reparador que lhe trará novo alento para prosseguir na
cansativa jornada.
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Ao homem do sertão afiguram-se tais momentos incomparáveis acima de
tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto circulo de ambições.
Satisfeita a sede que lhe secara as fauces, e comidas umas colheres de
farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio
comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o firmamento
azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os troncos
brancos das pindaíbas a copa dos ipês e as palmas dos buritis a ciciar a modo de
harpas eólias, músicas sem conta com o perpassar da brisa.
Como são belas aquelas palmeiras!
O estípite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias,
sustenta denso feixe de pecíolos longos e canulados, em que assentam flabelas
abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexíveis e tremulantes.
Na base em torno da coma, pendem, amparados por largas espatas,
densos cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia, revestida de escamas
romboidais e de um amarelo alaranjado, desafia por algum tempo o férreo bico
das araras.
Também, com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de
conseguir a apetecida e saborosa amêndoa! Em grupos juntam-se elas, umas
vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras,
pelo contrário, de todo azuis, de maior viso e que, por parecerem negras em
distancia, têm o nome de araraúnas. Ali ficam alcandoradas, balouçando-se
gravemente e atirando de espaço a espaço, às imensidades das dilatadas
campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem fim, ao quererem
multas disputar o mesmo cacho. Quase sempre, porém, estão a namorar-se aos
pares, pousadas uma bem encostadinha à outra.
Vê tudo aquilo o sertanejo com olhar carregado de sono. Caem-lhe
pesadas as pálpebras; bem se lembra de que por ali podem rastejar venenosas
alimárias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preocupação, adormece
com serenidade.
Correm as horas vem o Sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o
vento. Não ciciam mais os buritis; gemem, e convulsamente agitam as
flabeladas palmas.
É a tarde que chega.
Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os
braços; boceja; bebe um pouco d'água; fica uns instantes sentado, a olhar de um
lado para outro, e corre afinal a buscar o animal, que de pronto encilha e
cavalga.
6


Uma vez montado, lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo e
de espírito, por aqueles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde
pernoite.
Quanta melancolia baixa à terra com o cair da tarde!
Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora.
Enegrece o solo; formam os matagais sombrios, maciços, e ao longe se desdobra
tênue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio
apagadas, ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.
É a hora, em que se aperta de inexplicável receio o coração. Qualquer
ruído nos causa sobressalto; ora o grito aflito da zabelê nas matas, ora as
plangentes notas do bacurau a cruzar os ares. Freqüente é também amiudarem-se
os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro
extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.
Quem viaja atento às impressões intimas, estremece, mau grado seu, ao
ouvir nesse momento de saudades o tanger de um sino muito, muito ao longe, ou
o silvar distante de uma locomotiva impossível. São insetos ocultos na macega
que trazem essa ilusão, por tal modo viva e perfeita que a imaginação, embora
desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos afora a doidejar e
a criar mil fantasias,
* * *
Espalham-se, por fim, as sombras da noite.
O sertanejo que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde,
nem reparou nos esplendores do céu, que não viu a tristeza a pairar sobre a terra,
que de nada se arreceia, consubstanciado como está com a solidão, pára,
relanceia os olhos ao derredor de si e, se no lagar pressente alguma aguada, por
má que seja, apeia-se, desencilha o cavalo e reunindo logo uns gravetos bem
secos, tira fogo do isqueiro, mais por distração do que por necessidade.
Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do espírito ou o
bem-estar do corpo. Nem sequer monologa, como qualquer homem acostumado
a conversar.
Raros são os seus pensamentos: ou rememora as léguas que andou, ou
computa as que tem que vencer para chegar ao término da viagem.
No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquela
esplêndida natureza, recomeça ele a caminhar, como na véspera, como sempre.
Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as
mesmas. Dá-lhe o Sol, quando muito, os pontos cardeais, e a terra só lhe prende
a atenção, quando algum sinal mais particular pode servir-lhe de marco miliário
na estrada que vai trilhando.
7


—Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro
agigantado ou uma disposição especial de terras, lá está a peúva grande...
Cheguei ao Barranco Alto. Até ao pouso de Jacaré há quatro léguas bem
puxadas.
E, olhando para o Sol, conclui:
—Daqui a três horas estou batendo fogo.
Ocasiõ es há em que o sertanejo dá para assobiar. Cantar, é raro; ainda
assim, à surdina; mais uma voz intima, um rumorejar consigo, do que notas
saídas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao chamado agoniado
da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom humor.
É-lhe indiferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas
pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na areia da estrada.
—Que bichão! murmura ele contemplando um rasto mais fortemente
impresso no solo; com um bom onceiro não se me dava de acuar este diabo e
meter-lhe uma chumbada no focinho.
O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral,
família. Enquanto moço, seu fim único é devassar terras, pisar campos onde
ninguém antes pusera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras e
furar matas, que descobridor algum ate então haja varado.
Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importância das viagens
empreendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudais que
transpôs, os ribeirões que batizou, as serras que transmontou e os pantanais que
afoitamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeá-los com rara paciência.
Cada ano que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e acrescenta
uma pedra ao monumento da sua inocente vaidade.
—Ninguém pode comigo, exclama ele enfaticamente. Nos campos da
Vacaria, no sertão do Mimoso e nos pantanos do Pequiri, sou rei.
E esta presunção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de
gesticular majestático em sua singela manifestação.
A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que
o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe dá foros de infalibilidade.
Se estende o braço, aponta com segurança no espaço e declara
peremptoriamente:
—Neste rumo daqui a 20 léguas, fica o espigão mestre de uma serra
braba, depois um rio grosso; dali a cinco léguas outro mato sujo que vai findar
num brejal. Se vassuncê frechar direitinho assim umas duas horas, topa com o
pouso do Tatu, no caminho que vai a Cuiabá.
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O que faz numa direção, com a mesma imperturbável serenidade e
firmeza indica em qualquer outra.
A única interrupção que aos outros consente, quando conta os inúmeros
descobrimentos, é a da admiração. À mínima suspeita de dúvida ou pouco caso,
incendem-se-lhe de cólera as faces e no gesto denuncia indignação.
— Vassuncê não credita! protesta então com calor. Pois encilhe o seu
bicho e caminhe como eu lhe disser. Mas assunte bem, que no terceiro dia de
viagem ficará decidido quem é cavouqueiro e embromador. Uma coisa é mapiar
à toa, outra andar com tento por estes mundos de Cristo.
Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente os membros
cansados e entorpecidos, os olhos já enevoados pela idade, os braços frouxos
para manejar a machadinha que lhe da o substancial palmito ou o saboroso mel
de abelhas, procura então quem o queira para esposo, alguma viúva ou parenta
chegada, forma casa e escola, e prepara os filhos e enteados para a vida
aventureira e livre que tantos gozos lhe dera outrora.
Esses discípulos aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas
descrições das grandes cenas da natureza, num belo dia desertam da casa
paterna, espalham-se por ai além, e uns nos confins do Paraná, outros nas
brenhas de São Paulo, nas planuras de Goiás ou nas bocainas de Mato Grosso,
por toda a, parte enfim, onde haja deserto, vão pôr em ativa prática tudo quanto
souberam tão bem ouvir, relembrando as façanhas do seu respeitado progenitor e
mestre.
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II - O VIAJANTE
Próprio de espírito sorumbático, é andar sempre calado: tagarelar é o
encanto e a alma da vida.
La Chaussée. Comigo, respondeu Sancho, meu primeiro movimento é
logo tal comichão de falar que não posso deixar de desembuchar o que me vem
A boca.
Cervantes, D. Quixote.
O dia 15 de julho de 1860 era dia claro, sereno e fresco, como costumam
ser os chamados de inverno no interior do Brasil.
Ia o Sol alto em seu percurso, iluminando com seus raios, não muito
ardentes para regiões intertropicais, a estrada, cujo aspecto há pouco tentamos
descrever e que da Vila de Sant'Ana do Paranaíba vai ter aos campos de
Camapuã.
A essa hora, um viajante, montado numa boa besta tordilho-queimada,
gorda e marchadeira, seguia aquela estrada. A sua fisionomia e maneiras de
trajar denunciavam de pronto que não era homem de lida fadigosa e comum ou
algum fazendeiro daquelas cercanias que voltasse para casa. Trazia na cabeça
um chapéu-do-chile de abas amplas e cingido de larga fita preta, sobre os
ombros um poncho-pala de variegadas cores e calçava botas de couro da Rússia
bem feitas e em bom estado de conservação.
Tinha quando muito vinte e cinco anos, presença agradável, olhos negros
e bem rasgados, barba e cabelos cortados quase à escovinha e ar tão inteligente
quanto decidido.
Na mão empunhava uma comprida vara que havia pouco cortara, e com
que ia distraidamente fustigando o ar ou batendo nos ramos de árvores que se
dobravam ao alcance do braço.
Vinha só e, no momento em que damos começo a esta singela história,
achava-se no bonito trecho de caminho que medeia entre a casa de Albino Lata e
a do Leal, a sete boas léguas da sezonática e decadente Vila de Sant'Ana do
Paranaíba
Nesta porção de estrada, ensombrada pelas árvores de vistoso cerrado, o
leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e parece mais aléia de bem tratado
jardim, do que caminho de tropas e carreadores.
Ainda aumenta os encantos daquele lance a inúmera quantidade de rolas
caboclas a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater das asas produz
um arruído tão característico e singular.
O nosso viajante, se caminhava distraído e meio pensativo, não parecia,
contudo, de gênio sombrio ou pouco divertido.
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Muito ao contrário, sacudia as vezes o torpor em que vinha e entrava a
cantarolar, ou assobiar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha que
tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento cadencial da
cabeça.
Numa dessas reações contra alguma preocupação, disse em voz alta,
puxando por um relógio de prata, seguro em corrente do mesmo metal:
—Às duas horas, pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o
meio-dia, e tenho tempo diante de mim a botar fora.
Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais ativamente
recomeçou a zurzir os galhos das árvores, bocejando de tédio.
Também pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado
emparelhou outro viajante, escanchado num cavalinho feio e zambro, mas muito
forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter vindo quase a galope.
Homem já de alguma idade, o recém-chegado era gordo, de compleição
sangüínea, rosto expressivo e franco. Trajava à mineira e parecia, como
realmente era, morador daquela localidade.
—Olá, patrício, exclamou ele conchegando a cavalgadura à da pessoa a
quem interpelava, então se vai botando para Camapuã?
Olhou o nosso cavaleiro com desconfiança e sobranceria para quem o
interrogava tão sem-cerimônia e meio enviesado respondeu:
—Talvez sim... talvez não... Mas a que vem a pergunta?
—Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem sequer o saudei...
Sou mesmo um estabanado... Deus esteja convosco. Isto sempre me acontece...
A minha língua fica às vezes tão doida que se põe logo a bater-me nos dentes...
que é um Deus nos acuda e... não há que avisar: água vai! Olhe, por vezes já me
tem vindo dano, mas que quer? É sestro antigo... Não que eu sela malcriado,
Deus de tal me defenda, abrenúncio; mas pega-me tal comichão de falar que vou
logo, sem tir-te, nem guar-te, dando à taramela...
A volubilidade com que foram ditas estas palavras causou certo espanto
ao mancebo e o levou a novamente encarar o inopinado companheiro, desta feita
com mais demora e ar menos altivo.
Notou então a fisionomia alegre e bonachã do tagarela e, com ar de
simpatia, correspondeu ao comunicativo sorriso daquele que, à força, queria
travar conversação.
—Pelo que vejo, disse ele, o Sr. gosta de prosear.
—Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma
coisa: é de um cristão com quem de vez em quando dê uns dedos de pérola. Isto
sim, por aqui é casqueiro. Tudo anda tão calado!... uma verdadeira
11


caipiragem!... Eu, não. Sou das Gerais, gelaria como por cá se diz; nasci no
Paraibana, conheci no meu tempo pessoas de muita educação, gente mesma de
traz e fui criado na Mata do Rio como homem e não como bicho do monte.
—Ah! o senhor é de Minas?
—Gerais, se me faz favor. Batizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da
gema. Andei ceca e meca antes de vir deitar poita neste país. Isto já faz muito
tempo, pois também vou ficando velho. Há mais de quarenta anos pelo menos
que sai da casa dos meus pais.
E interrompendo o que dizia, perguntou:
—O senhor também é de Minas?
—Nhor-não, respondeu o outro. Sou caipira de São Paulo: nasci na Vila
de Casa Branca, mas fui criado em Ouro Preto.
—Ah! na cidade Imperial ?...
—Lá mesmo.
—Então é quase de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente. Ora,
quem diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o seu rasto fresco na areia.
Ai vai, disse eu por vezes com os meus botões, um sujeitinho que não tem
pressa de pousar. Também tocando o meu canivete, tratei de agarrá-lo para não
fazer a viagem a olhar para o céu e a bancar. Acha que obrei mal?
—Não, senhor, protestou o moço com afabilidade. Muito lhe agradeço a
intenção. Assim alcançarei sem cansaço o Leal, onde pretendo dar hoje com os
ossos.
—Oh! exclamou o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois,
meu rico senhor, eu moro a meia légua do Leal, torcendo a esquerda e se
vosmecê não tem compromissos lá com o homem, far-me-á muito favor
agasalhando-se em teto de quem é pobre, mas amigo de servir. Minha tapera é
pouco retirada do caminho, e quem vem montado como o senhor, não tem que
andar contando bocadinhos de léguas.
Convite tão espontâneo e amável não podia deixar de ser bem aceito,
sobretudo naquelas alturas, e trouxe logo entre os dois caminhantes a
familiaridade que tão depressa se estabelece em viagem.
—Com toda a satisfação irei parar em sua casa, retrucou o jovem. Nunca
vi o Leal, pois agora é a primeira vez que cruzo este sertão, e ando de pouso em
pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho para passar a noite com os
meus camaradas.
Traz então tropa?
—Tropa, não; apenas dois bagageiros que vêm com as minhas cargas e
uma besta à destra.
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—Olá! o amigo viaja à fidalga, observou o mineiro com gesto folgazão.
—Qual!... Bastantes privações tenho já curtido.
—Decerto não as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quiser ficar.
Não encontrará luxarias nem coisas da capital, unicamente o que pode ter nestes
mundos: quatro paredes de pau-a-pique mal rebocadas, uma cama de vento, bom
feijão a fartar, ervas a mineira, arroz de papa, farinha de milho torradinha, café
com rapadura e talvez até um lombo fresco de porco.
—Olá! exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar vida de
capitão-mor. Não queria tanto, bastava-me...
—O que sobretudo desejo é que tenha comigo o coração na boca. Se não
gostar do passadio, vá logo desembacharido. Na minha rancharia pousa pouca
gente, porque fica para dentro da estrada... assim, talvez lhe falte alguma coisa;
em todo o caso farei pelo melhor . . .
Depois de breve pausa, continuou:
—Mas porém, creio que já é ocasião, agora que nos conhecemos como
dois amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a mim,
me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha história conto-lha em duas
palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte ?
—Cirino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para
o servir.
— Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortesmente e levando a
mão ao chapéu. Como lhe disse há pouco, minha historia é história de entrar por
uma porta e sair por outra. Minha gente não é de má raça, pelo contrário; meu
pai, que Deus lhe dê a glória, possuía alguma coisa de seu e deixou aos seus
muitos filhos um nome limpo e respeitado. Cada qual de nós—éramos sete—
tomou o seu rumo. Quanto a mim, casei muito mocinho e fui morar na Diamantina,
onde abri casa de negócio. Depois de alguns anos, uns bons, outros
caiporas, morreu minha dona e mudei-me, a principio, para Pinmi e mais tarde
para Uberaba. A vida começou a desandar-me de todo, e fiz logo este cálculo:
estar tão longe, antes afundar-me no mato de uma boa feita. Vendi minha lojinha
de ferragens e internei-me até cá com três escravos. lá doze anos que moro
nestes socavões e, palavra de honra, até ao presente não me tenho arrependido.
Na minha situação há fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade... Não
posso por isto queixar-me sem ingratidão. Deus Nosso Senhor Jesus Cristo tem
olhado para mim, e me julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro do
despotismo de misérias, que vai por estas terras fora... Cruzes! nem falar nisto é
bom... Diga-me porém uma coisa: vosmecê para onde se atira?
—Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.
—Deveras? Então esta caminhando à toa?
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—Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes fundões
curando maleitas e feridas bradas.
—Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é
doutor, não é? Físico, como chamavam os nossos do tempo de dantes.
—É fato, confirmou Cirino com alguma satisfação.
—Ora, pois multo bem, cai-me a sopa no mel; sim, senhor, vem mesmo
ao pintar... a talhe de foice.
—Por quê?
—Daqui a pouco saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê leu
nos livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na corte do Império?
—Não, respondeu Cirino, primeiro no Colégio do Caraça; depois fui
para Ouro Preto, onde tirei carta de farmácia.
E acrescentou com enfatuação:
—Desde então tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é
um milagre.
—Ah! a sabença é coisa boa. . . eu também tinha jeito para saber mais do
que ler e escrever, isto mesmo mulmente; mas quem nasceu para carreiro, vira,
mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro. Com o que, entonces, vosmecê
entende de curar?...
—Entendo, afirmou Cirino sem o menor constrangimento.
—Pois caiu-me muito ao jeito na mão; sim, senhor. Estou com uma
menina doente de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido a Sant'Ana
buscar quina do comércio; mas lá não havia da maldita e voltava bem agoniado.
Ora...
—Trago, interrompeu o outro, muito remédio nas minhas malas. Para
sezões, tenho uma composição infalível...
— Já se sabe; entra composição de quina. Deveras é santa mezinha. A
pequena tomou a do campo; mas essa pouco talento tem, de maneira que a sezão
não lhe deixou o corpo.
—Há quantos dias apareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado
doutor.
—Faz hoje, salvo engano, dez dias.
Até agora era uma rapariga forçada, sadia e rosada como um lambo; nem
sei ate como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguém pode fiar-se na tal Vila de
Sant'Ana; é uma peste de febres. Eu bem a não Queria levar até lá: mas ela pediu
tanto age consenti! Demais como era para ver a madrinha, uma boa senhora, de
muita circunstância, a mulher do Major Melo Toques. .. Não conhece?
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—Pois não.
—E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo à
garrulice.
—Quando pousei na vila, estive com ele.
—E não gostou? Aquilo sim é homem às direitas. Também é pau para
toda a obra na Senhora Sant'ana, é o tutu de lá. Em querendo taramelar um
pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma logo uma conversa que
me dá um fartão... E depois pessoa de muitas letras... Escreve ao governo; é juiz
de paz, major reformado, serve de juiz municipal, já fez a campanha dos
Farrapos lá no Rio Grande do Sul para as bandas dos Castelhanos e merece
muita estimação. Mora numa casa de andar e tem loja muito sortida, por sinal
que bem baratinha para a distancia. E as histórias que conta? f: um nunca acabar.
O homem parece que sabe o Império de cor e salteado! Nem o vigário! Olhe, Sr.
Cirino, vou dizer-lhe uma coisa, que talvez lhe pareça embromação: às vezes
dou um pulo até a vila só para bater língua com o major, porque com esta gente
daqui não se tira partido: escorraçada e arisca que é um Deus nos acuda! Então,
como lhe ia contando, galopeio até lá, e pego numa mapiagem que me enche as
medidas. Não há...
—Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cirino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei
por aqui algum negócio?
—Homem, conforme. Gente doente é mato; mas também mofina como
ela só. Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está morre não morre há
muitos anos, e é homem de boas patacas. Este, se vosmecê o curar, talvez caia
com os cobres. Tudo o mais é uma récula de gente mais ou menos.
—Vosmecê traz bastante quina do comércio? perguntou em seguida.
—Trago, respondeu Cirino, mas é cara.
—Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo
são serões.
Começou então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas moléstias
que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas perigosas;
e com este tema às ordens achou meios e modos de falar até quase perder o
fôlego.
Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preocupado, ou em todo
caso, muito distraidamente, o que lhe contava o seu novo amigo, saindo, de vez
em quando, da apática atenção para instigar com a voz e o calcanhar a
cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar descanso ou buscava
comer os rebentões mais apetitosos do capim a grelar.
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Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro. —
Vosmecê a modo que está triste? disse ele. Deixou alguma coisa de seu lá por
trás?
—Homem, para ser franco, respondeu Cirino dando um suspiro, deixei; e
essa coisa é uma dívida... dívida de jogo.
—Isto é mau, retrucou o mineiro, fechando um tanto a cara. Por causa
desse vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem à beira das estradas. Mas é
coco grosso?
—Trezentos mil-réis.
—Já é gimbo graúdo. E com quem jogou?
—Com o Totó Siqueira, de Sant'Ana. Por isto pretendeu atrasar-me a
viagem; mas prometi mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e passei-lhe
um papel. No que estou pensando, e se acharei até lá meios de cumprir a
palavra.
—Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um
pouco com os doentes.
—Não imagina, replicou Cirino com verdadeiro sentimento, quanto me
tem amofinado essa maldita dívida. Não pelo dinheiro, que dele faço pouco
caso; mas por ter pegado em cartas, coisa que nunca tinha feito na minha vida;
isto sim...
—Pois meu rico senhor, prosseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e
tome tento com a gente do sertão, não com esses que moram -nas suas casas,
sossegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens de tropas e carreiros.
Isso sim, é uma súcia de jogadores, que andam armados de baralhas e vísporas e,
por dá cá aquela palha, empurram uma faca na barriga de um cristão ou
descarregam uma garrucha na cabeça de um companheiro, como se fosse em
melancia podre. Depois, o demônio do jogo, quando entra no corpo de um desgraçado,
faz logo ninho e de lá pincha fora a vergonha. Da má vida com
raparigas airadas, fadistas e mulheres à toa, ainda a gente endireita; mas com
cartas e sortes, só na caldeira de Pedro Botelho é que se cuida em mudar de
rumo. Quem lhe fala, teve um tio morador nas Trairás, para cá de Camapuã
cinco léguas, que trabalhava todo o ano na terra para vir jogar até perder o
último cobre nas rancharias do Sucuriú.
Pereira, de posse de tão largo assunto, contou mil historias, umas
lúgubres, outras jocosas, verídicas, inventadas na ocasião ou reproduzidas.
Haviam, no entretanto, os dois caminhado bastante. Inclinara-se no
horizonte o Sol, e a brisa da tarde já vinha soprando do lado do poente, viva,
perfumosa.
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—Nós, observou o mineiro, com a nossa conversa deixamos os nossos
animais vir cochilando. Também já está aqui a minha estradinha. Meta-se nela,
Sr. Cirino; em frente ia parar no Leal: minha fazendola começa neste ponto à
beira do caminho e vai por ai afora ate bem longe, um mundo de alqueires de
terra que nem tem conta.
Ao dizer estas palavras, tomou ele a dianteira e dando a direita à estrada
geral, enveredou por uma aberta larga e muito sombreado que levava com voltas
e tortuosidades à margem rasa de copioso e límpido ribeirão, de álveo areento,
todo ele. Que sítio risonho, encantador, esse, ensombrado por majestosa e
elegante ingazeira, toda pontuada das mimosas e balsâmicas florezinhas!
Os animais, ao perceberem o bater da água, apertaram o passo e,
entrando na fresca corrente quase até aos peitos, estiraram o pescoço e
puseram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de encontro ao fio
caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em linfa.
—Não deixe a sua besta se empanainar observou Pereira. Upa!
continuou ele puxando pela rédea do cavalo e batendo-lhe amigavelmente na pá
do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!
Transposto o ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada
mata, abria-se numa verdadeira estrada, que os dois cavaleiros tomaram a meio
galope.
Transmontava afinal o Sol, quando, atem de ralo matagal, surgiu a ponta
de um mastro de São João, que o mineiro saudou com mostras de grande alegria,
como sinal precursor da querida vivenda.
Antes, porem, de nela penetrarmos, digamos quem era aquele mancebo
que viajava ornado do pomposo titulo de doutor, e, que mais é, revestido de
autoridade para ir, a seu talante aplicando remédios e preconizando curas
milagrosas.
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III—O DOUTOR
Semeai promessas: a ninguém causam desfalque, e o mundo é rico de
palavras.
A esperança quando outros nela crêem faz ganhar muito tempo.
Ovídio, a Arte de Amar.
Ao morreres, dota a algum colégio ou a teu gato.
Pope.
Sganarelo. — De todo a parte vem gente procurar-me,
e se as coisas continuarem assim, sou de parecer que
de uma vez devo dedicar-me à medicina . Acho que
de todos os ofícios é este o preferível, porque, ou se
faça bem ou mal, sempre no fim há dinheiro.
Molière, O Médico à Força.
Nascera Cirino de Campos, como dissera a Pereira, na província de São
Paulo, na sossegada e bonita Vila de Casa Branca, a qual demora Umas 50
léguas do litoral. Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava boticário e a
esse oficio acumulava o importante cargo de administrador do correio, crescera
debaixo das vistas paternas até a idade de doze anos completos, quando fora
enviado, em tempos de festas e a título de recordação saudoso, a um velho tio e
padrinho, morador na cidade de Ouro Preto.
Esse parente, solteirão, de gênio rabugento, misantropo, e dado às
práticas da mais extrema carolice, recebeu o pequeno com mau modo e
manifesto descontentamento, tanto mais quanto à presença de um estranho vinha
interromper os hábitos de completa solidão a que se acostumara desde longos
anos.
Era homem que trajava ainda à moda antiga, usando de sapatos de fivela,
calções de braguilha, e cabeleira empoada com o competente rabicho.
A sua reputação de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro Preto,
tão bem firmada quanto a de refinado sovina, chegando a voz público a afirmar
que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo enterrado em numerosos buracos
no chão da alcova de dormir.
—Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cirino, poucos dias depois da
chegada, fique sabendo que por qualquer coisinha lhe sacudo a poeira do corpo.
Dê-se por avisado e ande direitinho que nem um fuso.
O menino, transido de medo, passou a tarde a chorar num canto sombrio
da casa, onde relembrou, até lhe vir o sono, a alegre vida de outrora, os
folguedos que fazia com os camaradas na viçosa relva do Cruzeiro, à entrada da
Vila de Casa Branca e sobretudo os carinhos da saudoso mamãe.
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Em seguida aquela admoestação preventiva fora o tio à casa de uns
padres que tinham influência na direção do Colégio do Caraça e com eles
arranjara a admissão do afilhado naquele estabelecimento de instrução.
Como finório que era, conseguiu este resultado sem multa dificuldade,
pagando-o, a juros compostos, com tentadoras promessas.
—Por ora, resmoneou ele, nada poderei fazer pela educação do rapaz;
mas... enfim... um dia... estou já velho, e tratarei de mostrar que não me esqueci
dos bons padres que tanto me ajudam hoje.
Lançada, assim, a eventualidade de uma verba testamentária, ficou
decidida a entrada de Cirino na casa colegial.
O pressentimento da falta de proteção natural torna as crianças dóceis e
resignadas. Também não fugiu nem mugiu o caipirazinho ao penetrar no
internato em que devia passar tristonhamente os melhores anos da sua
adolescência.
Ótimo negócio fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão-somente
desembolsando boas palavras e, por estar agarrado à vida, chegou até a levar ao
cemitério dois dos padres que se haviam prendido às esperanças de valiosa
recordação.
Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo universal, um belo
dia morreu quando medos se esperava, deixando muito recomendado um seu
testamento, que foi, com efeito, aberto com sofreguidão digna de melhor êxito.
Testamento havia, força é confessar; não já testamento, mas extenso
arrazoado, todo da letra do velho barras de ouro, porém, ou maços de notas, nem
sombra.
Esfuracou-se a casa de alto a baixo, levantaram-se os soalhos,
escutaram-se todas as paredes, quebraram-se os móveis; nada apareceu, nada
denunciou esconderijo de riquezas, nem coisa que com isso se avizinhasse.
Descobriu-se então que aquele carola fora um pensador desabusado,
antigo admirador de Xavier, o Tiradentes, que nunca tivera vintém e vivera
como filósofo, grazinando lá consigo mesmo, de tudo e de todos.
Era o seu testamento uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia,
atirada de além-túmulo e corroborada pelo legado sarcástico que em pomposo
codicilo fazia aos padres do Caraça da sua biblioteca "a fim, dizia ele, de ajudar
a educação dos mancebos e auxiliar as boas intenções dos seus honrados e
virtuosos diretores".
Procuraram-se os tais livros, e topou-se com um baú cheio de obras, em
parte devoradas pelo cupim, que foram, incontinenti, entregues às chamas de um
grande auto-de-fé. Eram as Ruínas de Volney, 0 Homem da Natureza, as poesias
eróticas de Bocage, o Dicionário filosófico de Voltaire, o Citador de
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Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny, os romances do marquês de Sade
e outras produções de igual alcance e quilate, algumas até em francês, mas anotadas
por leitor assíduo e mais ou menos convencido.
A conseqüência desse pesado gracejo póstumo, que destruía de raiz o
conceito de uma vida inteira, foi a imediata exclusão de Cirino do Colégio do
Caraça.
Tinha então dezoito anos, e, como era vivo, conseguiu, apesar da natural
pecha que lhe atirava o parentesco com o estrambótico e defunto protetor, ir
servir de caixeiro numa botica velha e manhosa, onde entre drogas e receituários
lhe foram voltando os hábitos da casa paterno.
Leve era o trabalho, e o aviamento de prescrições tão lento, que os
ingredientes farmacêuticos ficavam meses inteiros nos embaçados e
esborcinados frascos à espera de que alguém se lembrasse de tirá-los daquele
bolorento esquecimento.
Em localidade pequena, de simples boticário a médico não há mais que
um passo. Cirino, pois, foi aos poucos, e com o tempo, criando tal ou qual
pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já seboso de tanto uso,
entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na mala da garupa, as
vizinhanças da cidade à procura de quem se utilizasse dos seus serviços.
Nessas curtas digressões principiou a receber o tratamento de doutor.
Então para melhor o firmar, depois de se ter despedido da botica em que servia,
matriculou-se na escola de farmácia de Ouro Preto com a intenção de tirar a
carta de boticário, que o Presidente de Minas Gerais tem o privilégio de conferir,
dispensando documentos de qualquer faculdade reconhecida.
Antes, porém, de conseguir a posse daquele lisonjeiro documento, faz-se
Cirino, num dia de capricho, de partida decidida e começou então a viajar pelos
sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar, unindo a alguns conhecimentos
de valor positivo outros que a experiência lhe ia indicando ou que a voz do povo
e a superstição lhe ministravam.
Toda a sua ciência assentava alicerces no tal Chernoviz. Também era o
inseparável vademecum; seu livro de ouro; Homero à cabeceira de Alexandre.
Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava à sombra das árvores ou junto
ao leito dos enfermos.
Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna,
muita coisa inútil e até disparatada; entretanto no interior do Brasil é obra que
incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações têm força de
evangelho.
Conhecia Cirino o seu exemplar de cor e salteado; abria-o com
segurança nos trechos que desejava consultar e graças a ele formara um fundo
20


de instrução real e até certo ponto exata, a que unirá o estudo natural das
utilíssimas e ainda pouco aproveitadas ervinhas do campo.
A fim de aumentar os seus recursos em matéria médica vegetal, foi a
pouco e pouco dilatando as excursões fora das cidades, para as quais voltava,
quando se via falto de medicamentos ou quando, digamo-lo sem rebuço, queria
gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com a clínica do sertão.
Afinal, afeito a hábitos de completa liberdade, resolvera empreender
viagem para Camapuã e sul de Mato Grosso, não só com o intuito de estender o
raio das operações, como levado do desejo de ver terras novas e longínquas.
Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte granjeando o
tratamento de doutor, que gradualmente lhe foi parecendo, a si próprio, titulo
inerente a sua pessoa e a que tinha incontestável direito.
Bem formado era o coração daquele moço, sua alma elevada e incapaz
de pensamentos menos dignos; entretanto no intimo do seu caráter se haviam
insensivelmente enraizado certos hábitos de orgulho, repassado de tal ou qual
charlatanismo, oriundo não só da flagrante insuficiência cientifica, como da roda
em que sempre vivera.
Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus defeitos, do comum
dos médicos ambulantes do sertão, tipos que se encontram freqüentemente
naquelas paragens, eivados de todos os atributos da mais crassa ignorância, mas
rodeados de regalias completamente excepcionais.
Por toda a parte entra, com efeito, o doutor; penetra no interior das
famílias, verdadeiros gineceus; tem o melhor lugar a mesa dos hospedes, a mais
macia cama; é, enfim, um personagem caldo do céu e junto ao qual acodem
logo, de muitas léguas em torno, não já enfermos, mas fanatizados crentes, que
durante largos anos se haviam medicado ou por conselhos de vizinhos ou por
suas próprias inspirações e que na chegada desse Messias depositam todas as ardentes
esperanças do almejado restabelecimento.
21
IV—A CASA DO MINEIRO
Está a cela na mesa. Torne o bom acolhimento desculpável o mau
passadio.
(Walter Scott, Ivanhoé)
Quando assomaram os dois viajantes à entrada do terreiro que rodeava a
vivenda de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e
magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada de alegria.
Puseram-se algumas galinhas a girar atarantadas, ao passo que vários
galos, já empoleirados na cumeeira da morada, bradavam novidade e uns porcos
e bacorinhos aqui e acolá se erguiam dentre palhas de milho e, estremunhados,
olhavam para os recém-chegados com olhos pequenos e cheios de sono.
Do interior da habitação, não tardou a sair uma preta idosa mal vestida,
trazendo atado à cabeça um pano branco de algodão, cujas pontes pendiam ate
ao meio das costas.
—Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que há de novo por cá?
—A tenção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma
lentidão.
—Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina?
Nocência?
—Nhã está com sezão.
—Isto sei eu, rapariga de Cristo; mas como passou ela de trasantontem
para cá?
—Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.
—Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco,
veremos. E a janta?... Está pronta? Venho varado de fome. Que diz, Sr. Cirino?
indagou, voltando-se para 0 companheiro.
—Não se me dava também de comer alguma coisa. Temos razão para. . .
—Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte que o
terreno é nosso. Minha casa, ia lho disse, é pobre, mas bastante farta e a
ninguém fica fechada.
Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavalinho zambro, o qual foi por
si correndo em direção a uma dependência da casa com formas de tosca
estrebaria.
Apeou-se igualmente Cirino, mas, ao penetrar numa espécie de alpendre
de palha que ensombrada a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade
no gesto e na fisionomia.
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—Ora, Sr. Pereira, exclamou ele batendo com o tacão da bota num
sabugo de milho, só agora é que me lembro que as minhas cargas vão todas
tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem medicamentos. Que
maçada! Devíamos ter esperado na boca da sua picada.
Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:
—Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que lá
não deixei aviso seguro à sua gente? Não se lembra de um ramo verde que pus
bem no meio da estrada real?
—É verdade, confirmou Cirino.
—E então? Daqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso
rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.
Consistia a morada de Pereira num casarão vasto e baixo, coberto de
sapé, com uma porta larga entre duas janelas muito estreitas e mal abertas. Na
parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava sensivelmente fora da
vertical, grandes rachas longitudinais mostravam a urgência de serias reparações
em toda aquela obra feita de terra amassada e grandes paus-a-pique.
Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construído de
troncos de palmeiras, por entre os quais iam rolando as espigas de milho, com o
contínuo fossar dos porquinhos, que dali não arredavam pé.
Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de
buriti, sustentado por grossas taquaras, ligeiro apêndice acrescentado por
ocasião de alguma passada festa, em que o número de convidados ultrapassara
os limites de abrigo da hospitaleira habitação.
Internamente era ela dividida em dois lanços: um, todo fechado, com
exceção da porta por onde se entrava, e que constituiu o cômodo destinado aos
hóspedes, outro, à retaguarda, pertencia à família, ficando, portanto,
completamente vedado às vistas dos estranhos e sem comunicação interna com o
compartimento da frente.
Era de barro compacto e secado o chão desta sala, vendo-se nele sinais
de que as vezes ali se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o
ripamento revestidos de luzidia e tênue camada de picumã que lhes dava brilho
singular como se tudo tora jacarandá envernizado.
—Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se numa tripeça
de pau, não é meu, e de quem me procura. Poucos vêm cá decerto parar, mas
enfim é sempre bom contar com eles... Minha gente mora na dependência dos
fundos.
E apontou para a parede fronteira à porta de entrada, fazendo um gesto
para mostrar que a casa se estendia além.
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—Sr. Pereira, disse Cirino recostando-se a uma sólida marquesa, não se
incomode comigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não há ninguém
—Pois então, retorquiu o mineiro, deite-se um pouco, enquanto vou lá
dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas espere
deitadinho e a gosto, o que é sempre mais cômodo do que ficar de pé ou sentado.
Não desprezou o hóspede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e,
cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.
Quem se coloca em posição horizontal, depois de vencidas umas
estiradas léguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o sono cerrar as
pálpebras do recém-chegado e intumescer-lhe o peito com sossegada respiração.
Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse
acordado pelo tropel de animais que paravam, e por grita de gente a pôr cargas
em terra.
Assomou Pereira à porta com ar jovial.
—Então, que lhe disse eu?
—De fato; estou agora sossegado.
—E o Sr. tomou uma boa data de sono.
—Quem sabe uma hora?
—Boa dúvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de Nocência,
que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro Preto, quando cai
geada na rua.
—Então não vai melhor?
—Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, há de ir vê-la. Está,
pobrezinha, tão desfeita que parece doente de uns três meses atrás.
—Felizmente, observou Cirino com alguma enfatuação, aqui estou eu
para pô-la de pé em pouco tempo.
—Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira unção.
—Patrícios! O gente! gritou ele em seguida para os dois camaradas
chegados de pouco: vão mecês sentar naquele rancho, ali. Perto há boa água, e
lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem, dêem ração de fartar aos
animais. Aproveitem o milho, enquanto há: é a sustância desses bichos. Aqui,
vendo-o baratinho. Um atilho por um cobre e não são espigas chuchas, nem grão
soboró. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... janta na mesa!...
Foram o chamado e as indicações de Pereira compridas sem demora.
Apareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa
uma toalha de algodão, grosseira, mas muito alva, sobre a qual derramou duas
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boas caias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul,
e ao lado colocou uma colher e um garfo de metal.
—Sente-se, doutor, disse Pereira para Cirino, agora não mariduco com
mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida do seu
agrado.
Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem
cheios e fumegantes, um de feijão-cavalo, outro de arroz.
—E as ervas? perguntou Pereira. Não ha?
—Nhor-sim. Eu trago já, respondeu a preta, que com efeito voltou dai a
pouco.
Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficiência e mau preparo da
comida.
—Não lhe dou hoje lombo de porco: mas o prometido não cai em
esquecimento, isto lhe posso assegurar.
—Estou muito contente com o que há, protestou com sinceridade Cirino.
E, de fato, pelo modo por que começou a comer, repetindo animadas
vezes dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.
—Maria, disse Pereira para a escrava, que se fora colocar a alguma
distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora mel e café com doce.
—Ah! exclamou Cirino com patente satisfação estirando os braços,
fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor
Jesus Cristo, que me deu este bom agasalho.
—Amém! respondeu Pereira.
—Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou às
suas ordens; podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre para
mim atalhá-la de pronto. Em tais casos, não gosto de adiantamentos.
Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se os
sobrolhos, e vaga inquietação lhe pairou na fronte.
—Mais tarde, disse ele com precipitação.
—Nada, meu senhor, retrucou Cirino, quanto mais cedo, melhor. É o que
lhe digo.
—Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.
—Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. mesmo
para bem da moça.
Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.
—E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade,
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—Pois não foi o Sr. mesmo quem mo disse na prosa do caminho?
—Ah!... é verdade. Ela ainda não é moça... Quatorze, quinze anos,
quando muito... Quinze anos e meio... Uma criança, coitadinha! . . .
—Enfim, replicou o outro, seja como for. Quando o Sr. quiser, venha
procurar. Enquanto espero, remexerei nas minhas malas e tirarei alguns
remédios para tê-los mais a mão.
—Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus trens naquele canto e
fique descansado: ninguém bulira neles... Quanto à minha filha... eu já venho...
dou um pulo lá dentro, e... depois conversaremos.
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V—AVISO PRÉVIO
Onde há mulheres, aí se congregam todos os males a um tempo.
(Menandro)
Nunca é bom que um Homem sensato eduque seus filhos de modo a
desenvolver-lhes demais o espírito
(Eurípedes, Medéia)
Filhos, sois para os homens o encanto da alma.
( Menandro ) .
Estava Cirino fazendo o inventário da sua roupa e já começava a
anoitecer, quando Pereira novamente a ele se chegou.
—Doutor, disse o mineiro, pode agora Meca entrar para ver a pequena.
Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma.
—Assim e bem melhor, respondeu Cirino.
E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a
e pôs-se de pó.
Antes de sair da sala, deteve Pereira o hóspede com ar de quem
precisava tocar em assunto de gravidade e ao mesmo tempo de difícil
explicação.
Afinal começou meio hesitante:
—Sr. Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, multo amigo de
todos, muito acomodado e que tenho o coração perto da boca como vosmecê
deve ter visto...
—Por certo, concordou o outro.
—Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai
o doutor entrar no interior da minha casa e... deve portar-se como...
—Oh, Sr Pereira! atalhou Cirino com animação, mas sem grande
estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da vista
dos profanos os seus aposentos domésticos, posso gabar-me de ter sido recebido
no seio de muita família honesta e sei proceder como devo.
Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.
—Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não e nenhum
pé-rapado, mas nunca é bom facilitar... E já que não há outro remédio, vou
dizer-lhe todos os meus segredos... Não metem vergonha a ninguém, com o
favor de Deus; mas em negócios da minha casa não gosto de bater língua...
Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece
moça de cidade, muito ariscazinha de modos mas bonita e boa deveras...
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Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. Tenho outro filho, este um
latagão, barbudo e grosso que está trabalhando agora em portadas para as bandas
do Rio.
—Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual
garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
—Ah! é casada? perguntou Cirino.
—Isto é, é e não e. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no
costela do gado para São Paulo um homem de mão-cheia, que talvez o Sr.
conheça... o Manecão Doca...
—Não, respondeu Cirino abanando a cabeça.
—Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele
só... fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de gado que metem pasmo.
Também dizem que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso, o que é
possível, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui
de pousada... olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe
em casamento... isto é, dei-lhe uns toques .. porque os pais devem tomar isso a si
para bem de suas famílias; não acha?
—Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.
—Pois bem, o Manecão ficou ansim meio em dúvida; mas quando lhe
mostrei a pequena, foi outra cantiga... Ah! também é uma menina
E Pereira, esquecido das primeiras prevenções, deu um muxoxo
expressivo, apoiando a palma da mão aberta de encontro aos grossos lábios
—Agora, está ela um tanto desfeita: mas, quando tem saúde é coradinha
que nem mangaba do areal. Tem cabelos compridos e finos como seda de paina,
um nariz mimoso e uns olhos matadores . . .
Nem parece filha de quem é...
A gabes imprudentes era levado Pereira pelo amor paterno.
Foi o que repentinamente pensou lá consigo, de modo que,
reprimindo-se, disse com hesitação manifesta:
—Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!.. Se não tomam estado,
ficam juraras e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum marido
malvado... E depois, as histórias! . Ih meu Deus, mulheres numa casa, é coisa de
meter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Enfim, minha
filha, enquanto solteira, honrou o nome de meus pais... O Manecão que se
agüente, quando a tiver por sua .. Com gente de saia não há que fiar... Cruz!
botam famílias inteiras a perder, enquanto o demo esfrega um olho.
Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é em geral corrente nos nossos
sertões e traz como conseqüência imediata e prática, além da rigorosa clausura
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em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito
chegados para filhos de menor idade, mas sobretudo os numerosos crimes
cometidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa entre
pessoa da família e algum estranho.
Desenvolveu Pereira todas aquelas idéias e aplaudiu a prudência de tão
preventivas medidas.
—Eu repito, disse ele com calor, isto de mulheres, não há que fiar. Bem
faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem
um fuso... Uma piscadela de olho mais duvidosa, era logo pau... Contaram-me
que hoje lá nas cidades... arrenego!... não há menina, por pobrezinha que seja,
que não saiba ler livros de letra de forma e garatujar no papel... que deixe de ir a
fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que
saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha
com qualquer tafulão malcriado... pois pelintras e beldroegas não faltam..
Cruz!... Assim, também é demais, não acha? Cá no meu modo de pensar,
entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas também é preciso não dar asas
às formigas... Quando elas ficam taludas, atamanca-se uma festança para
casá-las com um rapaz decente ou algum primo, e acabou-se a historia...
—Depois, acrescentou ele abrindo expressivamente com o polegar a
pálpebra inferior dos olhos, cautela e faca afiada para algum meliante que se
faca de tolo e venha engraçar-se fora da vila e termo... Minha filha...
Pereira mudou completamente de tom:
—Pobrezinha... Por esta não há de vir o mal ao mundo... É uma
pombinha do céu... Tão boa, tão carinhosa!... E feiticeira!!!
Não posso com ela.. só o pensar em que tenho de entregá-la nas mãos de
um homem, bole comigo todo... E preciso, porém. Há anos... devia já ter
cuidado nesse arranjo, mas... não sei... cada vez que pensava nisso... caia-me a
alma aos pés. Também é menina que não foi criada como as mais... Ah! Sr.
Cirino, isto de filhos, são pedaços do coração que a gente arranca do corpo e
bota a andar por esse mundo de Cristo.
Umedeceram-se ligeiramente os cílios do bom pai.
—O meu mais velho pára, Deus sabe onde... Se eu morresse neste
instante, ficava a pequena ao desamparo... Também, era preciso acabar com esta
incerteza... Além disso, o Manecão prometeu-me deixá-la aqui em casa, e deste
modo fica tudo arranjado... isto é, remediado, filha casada é traste que não
pertence mais ao pai.
Houve uns instantes de silêncio.
—Agora, prosseguiu Pereira com certo vexame, que eu tudo lhe disse,
peço-lhe uma coisa: veja só a doente e não olhe para Nocência... falei assim a
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mecê, porque era de minha obrigação... Homem nenhum, sem ser muito chegado
a este seu criado, pisou nunca no quarto de minha filha... Eu lhe juro... Só em
casos destes, de extrema percisão...
—Sr. Pereira, replicou Cirino com calma, lá lhe disse e torno-lhe a dizer
que, como médico, estou há muito tempo acostumado a lidar com famílias e a
respeitá-las. t: este meu dever, e ate hoje, graças a Deus, a minha fama é boa...
Quanto às mulheres, não tenho as suas opiniões, nem as acho razoáveis nem de
justiça. Entretanto, é inútil discutirmos porque sei que isso são prevenções
vindas de longe, e quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita... O Sr.
falou-me com toda a franqueza, e também com franqueza lhe quero responder.
No meu parecer, as mulheres são tão boas como nos, se não melhores: não há,
pois, motivo para tanto desconfiar delas e ter os homens em tão boa conta...
Enfim, essas suas idéias podem quadrar-lhe à vontade, e é costume meu antigo a
ninguém contrariar, para viver bem com todos e deles merecer o tratamento que
julgo ter direito a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus para todos nós, e
ninguém queira arvorar-se em palmatória do mundo.
Tal profissão de fé, expedida em tom dogmático e superior, pareceu
impressionar agradavelmente a Pereira, que fora aplaudindo com expressivo
movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluência da frase.
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VI — INOCÊNCIA
Nesta donzela é que se acham juntas a minha vida e a minha morte.
(Henoch, o Livro da Amizade)
Jamais vira coisa tão perfeita como o seu rosto pálido. Os seus olhos
franjados de sedosos cílios multo espessos e o seu ar meigo e doentio.
(George Sand, os Mestres Galteiros)
Tudo, em Fenela, realçava a idéia de uma miniatura. Além do mais havia
em sua fisionomia e, sobretudo, no olhar extraordinária prontidão, fogo e
atilamento.
(Walter Scott, Peveril do Pico).
Depois das explicações dados ao seu hóspede, sentiu-se o mineiro mais
despreocupado.
—Então, disse ele, se quiser, vamos já ver a nossa doentinha.
— Com muito gosto, concordou Cirino.
E saindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas cercas e
rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fronteira a magnifico
laranjal, naquela ocasião todo pontuado das brancas e olorosas flores.
—Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se
juntam tamanhos bandos de graúnas, que é um barulho dos meus pecados.
Nocência gosta muito disso e vem sempre coser debaixo do arvoredo. ~ uma
menina esquisita...
Parando no limiar da porta, continuou com expansão:
—Nem o Sr. imagina... Às vezes, aquela criança tem lembranças e
perguntas que me fazem embatucar... Aqui, havia um livro de horas da minha
defunta avó.
...Pois não é que um belo dia ela me pediu que lhe ensinasse a ler?... Que
idéia!
.. Ainda há pouco tempo me disse que quisera ter nascido princesa... Eu
lhe retruquei: E sabe você o que é ser princesa? Sei, me secundou ela com toda a
clareza, é uma moca muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes
na cabeça, muitos lavrados no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio
tonto E se o Sr. visse os modos que tem com os bichinhos?! . . . Parece que está
falando com eles e que os entende... Uma bicharia, em chegando ao pé de
Nocência, fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco .. Se fosse agora a
contar-lhe histórias dessa rapariga, seria um não acabar nunca... Entremos, que é
melhor...
31
Quando Cirino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quase noite,
de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pode lobrigar,
além de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em uso
no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradados. Estava encostada a
um canto, e nela havia uma pessoa deitada.
Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se
ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do
queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e voltou-se para os
que entravam.
—Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez
—Boas-noites, dona, saudou Cirino.
Tímida voz murmurou uma resposta, ao passo que o jovem, no seu papel
de médico, se sentava num escabelo junto à cama e tomava o pulso à doente.
Caía então luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte do colo e
da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por trás da nuca.
Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza
deslumbrante.
Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenuidade,
realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar por entre os
cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a ponto de projetarem
sombras nas mimosas faces.
Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca pequena, e o queixo
admiravelmente torneado.
Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada a
camisinha de crivo que vestia, deixando nu um colo de fascinadora alvura, em
que ressaltava um ou outro sinal de nascença.
Razões de sobra tinha, pois, o pretenso facultativo para sentir a mão fria
e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil cliente.
—Então? perguntou o pai.
—Febre nenhuma, respondeu Cirino, cujos olhos fitavam com mal
disfarçada surpresa as feições de Inocência.
—E que temos que fazer?
—Dar-lhe hoje mesmo um suador de folhas de laranjeira da terra a ver se
transpira bastante e, quando for meia-noite, acordar-me para vir administrar uma
boa dose de sulfato.
Levantara a doente os olhos e os cravara em Cirino, para seguir com
atenção as prescrições que lhe deviam restituir a saúde.
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—Não tem fome nenhuma, observou o pai; há quase três dias que só
vive de beberagens. 11: uma ardência continua, isto até nem parecem maleitas..
—Tanto melhor, replicou o moço; amanhã verá que a febre lhe sai do
corpo, e daqui a uma semana sua filha está de pé com certeza. Sou eu que lhe
afianço.
—Fale o doutor pela boca de um anjo, disse Pereira com alegria.
—Hão de as cores voltar logo, continuou Cirino.
Ligeiramente enrubesceu Inocência e descansou a cabeça no travesseiro.
—Por que amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço.
—Por nada, respondeu ela com acanhamento.
— Sente dor de cabeça?
—Nhor-não.
—Tire-o, pois: convém não chamar o sangue; solte pelo contrário, os
cabelos,
Inocência obedeceu e descobriu uma espessa cabeleira, negra como o
âmago da cabiúna e que em liberdade devia cair ate abaixo da cintura. Estava
enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do cocoruto
—É preciso, continuou Cirino, ter de dia o quarto arejado e por a cama
na linha do nascente ao poente.
—Amanhã de manhãzinha hei de virá-la, disse o mineiro.
—Bom, por hoje então, ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem
tudo, e que a dona sue bem. A meia-noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a
mezinha. Sossegue o seu espirito e reze duas Ave-Marias para que a quina faça
logo efeito.
—Nhor-sim, balbuciou a enferma.
—Não lhe dói a luz nos olhos? perguntou Cirino, achegando-lhe um
momento a vela ao rosto.
—Pouco... —um nadinha.
—Isso é bom sinal. Creio que não há de ser nada.
E levantando-se, despediu-se:
—Ate logo, sinhá-moça.
Depois do que, convidou Pereira a sair.
Este acenou para alguém que estava num canto do quarto e na sombra.
—Ó Tico, disse ele, venha cá...
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Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora
perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado
de rugas, como se já fora entrado em anos; mas os olhinhos vivos e a negrejante
guedelha mostravam idade pouco adiantada. Suas perninhas um tanto arqueadas
terminavam em pés largos e chutos que, sem grave desarranjo na conformação,
poderiam pertencer a qualquer palmípede.
Trajava comprida blusa pardo sobre calças que, por haverem pertencido
a quem quer que fosse muito mais alto, formavam embaixo volumosa rodilha,
apesar de estarem dobradas. A cabeça, trazia um chapéu de palha de carandá
sem copa, de maneira que a melena lhe aparecia toda arrepiada e erguida em
torcidas e emaranhadas grenhas.
—Oh! exclamou Cirino ao ver entrar no círculo de luz tão estranha
figura, isto deveras é um tico de gente.
—Não anarquize o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Ele é
pequeno... mas bom. Não é, meu nanico?
O homúnculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos
alvos e agudos, ao passo que deitava para Cirino olhar inquisidor e altivo.
—0 Sr. vê, doutor, continuou Pereira, esta criaturinha de Cristo ouve
perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo compreende. Não pode falar... isto é,
sempre pode dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quase a estourar de
raiva e de canseira. Quando se mete a querer explicar qualquer coisa, é um
barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus Recados, onde aparece uma voz
aqui, outra acolá, mais cristãzinhas no meio da barafunda.
—É que não lhe cortaram a língua, observou Cirino.
—Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito e
não pode ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza este sertão de cabo a
rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é verdade, Tico?
O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cirino.
—Mas é filho aqui da casa? perguntou este.
—Nhor-não; tem mãe à beira do Rio Sucuriú, daqui a quarenta léguas, e
envereda de lá para ca num instante, vindo a pousar pelas casas, que todas
recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a ninguém. Aqui fica
duas, três e mais semanas e depois dispara como um mateiro para a casa da mãe.
E uma espécie de cachorro de Nocência. Não é, Tico?
Fez o mudo sinal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.
Pereira, depois de todas aquelas explicações que o anão parecia ouvir
com satisfação, disse, voltando-se para este, ou melhor abaixando-se em cima da
sua cabeça:
34
—Agora, meu filho, vai ao curral grande e apanha para mim uma
mãozada de folhas de laranjeira da terra... daquele pé grande que encosta na
tronqueira.
Mostrou o homúnculo com expressivo gesto que entendera e saiu
correndo.
Ia Cirino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar
onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:
—Ó doutor, Nocência quer beber um pouco de água. . . Fará mal?
—Aqui não há limões-doces? indagou o moço.
— E um nunca acabar... e dos melhores.
—Pois então faça sua filha chupar uns gomos.
Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e dispostos os cobertores
ao redor do corpo da menina, acompanhou Cirino que, parado à porta de saída,
estava mirando as primeiras estrelas da noite.
—Vosmecê achou doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto
trêmula, algum perigo no que tem aquele anjinho
—Não, absolutamente não, respondeu Cirino. Verá o Sr. que, daqui a
três dias, sua filha não tem mais nada.
—Malditas febres!... Quando não derrubam um cristão, o amofinam anos
inteiros... Eu não quisera que minha filha ficasse esbranquiçada, nem feia .. As
moças quando não são bonitas, é que estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo
dos limões-doces... Que cabeça! . . .
Adiantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto à boca chamou
com voz forte:
—Ó Tico!
Prolongado grito respondeu-lhe a certa distância
O mineiro pôs-se a assobiar com modulações à maneira dos índios.
Houve uns momentos de silencio; depois veio correndo o anão e,
chegando-se para perto, mostrou por sinais que não ouvira bem o recado.
—Uns limões-doces, já!... Nocência está com sede...
Disparou o pequeno como uma seta, sumindo-se logo na densa escuridão
que já se espessara entre as árvores do pomar.
35
VII— O NATURALISTA
A minha filosofia toda resume-se em opor a paciência as mil o uma
contrariedades de que a vida está inçada.
(Hoffmann, O Reflexo Perdido).
Serena e quase luminosa corria a noite. No paro campo do céu cintilava,
com iriante brilho, um sem-número de estrelas, projetando na larga fita da
estrada do sertão, misteriosa e dúbia claridade.
Pelo caminhar dos astros havia de ser quase meia-noite; e, entretanto, a
essa hora morta, em que só vagueiam à busca de pasto os animais bravios do
deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pó, outro
montado numa besta magra e já meio estafada.
Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e
vinha com grossa e comprida vara na mão rangendo diante de si lerdo e
orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e
malinhas, cobertas por um grande ligam
Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o selim, com as
pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia
ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apesar da hora
adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto
redondo, juvenil, olhos gázeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas
compridas, escorrido bigode e cabelos muito louras. O seu traje era o comum em
viagem: grandes botas, paletó de alpaca em extremo folgado, e chapéu-do-chile
desabado. Trazia, entretanto, a tiracolo, umas quatro ou cinco caixinhas de
lunetas ou quaisquer outros instrumentos especiais, e na mão segurava um pau
fino e roliço, preso a uma sacola de fina gaze cor-de-rosa.
Homem de meia-idade, de fisionomia vulgar e balorda, era o camarada,
e, pelos modos e impaciência com que fustigava o animal de carga, indicava não
estar afeito ao gênero de vida que exercia.
Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro
carregado na frente, logo atrás o inábil recoveiro, em seguida fechando a
marcha, o viajante encarrapitado na magra cavalgadura.
Houve momento em que, depois de algumas pautadas de incitamento,
pareceu querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fora de hora
recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.
Provocou a relutância, porem, uma chuva de verdadeiras cacetadas que
ecoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.
—Burro do diabo! berrava ele. Mil raios te partam, bicho danado!
Arrebenta de uma vez!... Vá para os infernos! Entrega a carcaça aos urubus!
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Durante uns bons minutos, o cavaleiro, que fizera parar o seu animal,
esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azêmola se desse
afinal por convencida e avançasse, ou então estourasse.
—Juque, disse ele de repente com acento fortemente gutural e que
denunciava a origem teutônica, se porretada chove assim no seu lombo, você
gosta?
O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com
arrebatamento:
—Ora, Mochu, isto é um perverso sem-vergonha, que deve morrer
debaixo do pau. Esta vida não me serve!...
—Mas, Juque, replicou o alemão com inalterável calma, quem sabe se a
cangalha não esta ferindo a pobre criatura?
—Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este
infame, este...
E, levantando o varapau, descarregou tal paulada no traseiro do animal
que lhe fez soltar surdo gemido de dor.
—Juque, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente há
pau caído ou pedra, que não deixe ele ir para diante?
—Pedra, Mochu, e pau na cabeça até rachá-la, é que precisa este ladrão...
—Vê, Juque, insistiu o alemão.
—Ora, Mochu...
—Vê, sempre...
Saiu resmungando o camarada de detrás do borrego e deu a volta.
Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio
da estrada para desviar os acompanhadores de Cirino.
—Uê! Uê! exclamou com muita surpresa, aqui esteve alguém e pôs este
sinal para que neo se passasse...
.—Eu não disse a vóce, replicou o cavaleiro com voz ate certo ponto
triunfante. Asno tem razão: para diante há alguma coisa.
—Mas na vila, contestou José, nos disseram que o caminho vai sempre
direitinho sem atrapalhação nenhuma...
—Na vila disseram isso, confirmou o outro.
—E então?
E então? repetiu o alemão.
Houve uns segundos de silêncio.
37
Depois o cavaleiro acrescentou com a mesma imperturbável serenidade,
e como que achando explicação muitíssimo natural:
—Na vila muita gente não sabe caminho. à:...
—Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenético, levem
o gosto desandar por esses matos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem disse
a Mochu, ninguém viaja assim. Isto é uma calamidade. . .
— que, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adianta estar a berrar
como um danado?... Olhe, antes, se por ai vóce não vê algum caminho do lado.
Obedeceu o outro e sem dificuldade achou a entrada da picada que
levava a morada de Pereira.
—Esta aqui, Mochu, está aqui! anunciou ele com alegria. ,: um trilho que
corta a estrada e vai dar nalguma casa pertinho ..
Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha:
—Contanto que ate lá não haja alguma légua de beiço..
—Ah! eu não lhe disse, respondeu o alemão. Agora toque barro
devagarinho; ele anda que nem vento.
Pareceu o animal compreender, o alcance moral da vitória que acabara
de colher e prestes enveredou pela trilha com alento novo e até desusada
celeridade.
A razão é que também daí a pouco sorvia ele, teimoso e marralheiro
bicho, como soem ser os da sua espécie, a bela água do ribeirão, em que se
haviam refrescado as cavalgaduras de Cirino e de Pereira.
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Vlll—OS HÓSPEDES DA MEIA-NOITE
Sei, sim, sei que é noite!
(Xavier de Maistre, Viagem ao Redor
do Meu Quarto).
Não tardou muito que os dois noturnos viajantes começassem a ouvir os
latidos furiosos dos cães que, no terreiro de Pereira, denunciavam aproximação
de gente suspeita junto à casa entregue a sua vigilante guarda.
—Por aqui perto fica algum rancho, Mochu, avisou o camarada;
havemos enfim de descansar hoje .. Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São
capazes de nos engolir antes que venha alguém saber se somos cristãos ou não...
Safa! Que canzoada!... Ó Mochu, o Sr. deve ir na frente... rompendo a marcha...
— Vóce, respondeu o alemão, bate neles com cacete...
—Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está
montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!
Depois de resmonear algum tempo, exclamou:
— Ah! espere, já me lembrei de uma coisa.. . O filho do velho é mitrado.
. .
E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro,
que, ao sentir aquele inesperado acréscimo de peso, parou por instantes e com
surdo ronco procurou lavrar um protesto.
— Juque, observou o alemão sem a menor alteração na voz, assim burro
quebra cadeira. Depois morre... e vóce tem de levar as cargas dele às costas...
Quis o camarada encetar nova discussão, mas a esse tempo chegavam ao
terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva de José, o
qual entrou, todo encolhido atrás das cargas, a gritar como um possesso:
—0 de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!
Aumentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de
Cirino, pousados no rancho próximo, acordaram e bradaram juntos:
—Que diabo é isto? Temos matinada de lobisomens?
Abriu-se nesse momento a porta da casa e apareceu Cirino na frente de
Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da brisa
noturna.
—Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.
—Camarada e viajante, respondeu com voz forte e simpática o alemão,
achegando-se à luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono desta
casa?
39
—Está aqui ele, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça
para dar mais claridade em torno de si.
—Muito bem, replicou o recém-chegado. Desejo agasalho para mim e
para o meu criado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.
Aproximara-se também o José, cuidando logo, no meio de muxoxos e
pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma
vara fincada no chão.
—Mas, observou Cirino, que faz o Sr. por estas horas mortas a viajar? . .
.
—Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acomodar-se com o que
achar... Pois, meu senhor, desapeie. Bem-vindo seja quem procura teto que é
meu.
—Obrigado, obrigado, exclamou com efusão o estrangeiro.
E, apresentando a larga mão, apertou com tal forca as de Cirino e Pereira
que lhes fez estalar os dedos.
Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objetos que
trazia a tiracolo, colocando-os cuidadosa e metodicamente em cima da mesa, no
meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam rodeando.
Na verdade, digna de reparo era aquela figura à luz da bruxuleante vela
de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e cabelos quase
brancos, de tão louros que eram.
—Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cirino a Pereira.
—Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito,
tão bem limpo!
Entrara José com uma canastra ao ombro e, descarregando-a no canto
menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e
importância da pessoa que lhe servia de amo.
—O Sr. aqui 6 doutor, disse ele apontando para o alemão e dirigindo-se
para Cirino...
—Doutor?! exclamou este com despeito.
— Sim, mas doutor que não cura doenças. É alamão lá da estranja, e vem
desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro caçando anicetos e picando
borboletas...
— Borboletas? interrompeu com admiração Pereira.
— Acui cui! Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem...
aquele saco que ele traz...
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—O meu camarada, avisou com toda a tranqüilidade e pausa o
naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciência... Ande, Juque, deixe
de tagarelar! ...
—Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem
se lida... Então o Sr. vem matando anicetos? mas para que, Virgem Santíssima! .
. .
—Para quê? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O
patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá para as
terras dele...
—Depois o pais fica sem borboletas, respondeu Cirino, num assomo de
despeitado patriotismo.
—Mas, como é que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para
o alemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes e
sombrios lepidópteros, da espécie dos esfinges.
—Juque, disse ele sem lhe importar a interpelação e acenando para o
camarada, depressa... um alfinete, dos grandes... dos maiores: . .
—Temos história, avisou José, fazendo expressivo sinal a Cirino, o Sr.
vai ver...
O naturalista, de posse de um comprido acúleo, fincou-o com segura e
adestrada mão bem no meio do inseto, o qual começou a bater convulsamente as
asas e girar em torno do centro a que estava preso.
—A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, Juque,
Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde ia estavam
enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.
— É uma satúrnia .. e não comum, murmurou o alemão fisgando num
pedaço de pita o novo espécime, sobre o qual derramou algumas gotas de
clorofórmio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da sobrecasaca.
—O Sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cirino, depois que viu
terminada a operação.
O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:
— Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante
naturalista, sim senhor! Eu vejo que o Sr. e muito instruído... Muito bem, muito
bem! Muita instrução!
E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.
—Ah! este também e doutor, disse Pereira com certo orgulho por
hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.
—Oh, doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que curra ?
41
—Sim, senhor, respondeu com gravidade o próprio Cirino.
— Ah! . . . Ah! muito bem.
Pereira, porém, voltara à carga.
—Mas, como é que o Sr. se chama?
—Meyer, respondeu o alemão, para o servir.
—Mala ? perguntou o mineiro.
— Não, senhor, Meyer; sou da Saxônia, da Alemanha.
—Isto deve ser o mesmo que Mala na terra dele, observou Pereira,
abaixando um pouco a voz.
O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e
canastras e sem-cerimônia alguma intrometeu-se na conversação.
—Este Mochu, disse, vem de muito longe só por causa destas historias
de barboletas, e com o negócio ganha coco grosso... Quanto a mim
— Juque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animais no pasto.
—Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia, roerão o que
acharem; há por aí muito resto de milho nos sabugos...
—Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou
carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe
acompanhando este alamão, que é um homem muito de bem.
— É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.
Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sinal gutural
que ecoou em toda a sala.
—Ele o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo,
sempre: Mochu, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira à-toa... Qual!
pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Também a gente anda por estas
estradas afora como se fosse alma do outro mundo a penar... algum currupira...
ou boitatá ... Cruzes!
—Pois, Sr. Mala, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta
que é sua... Se quiser uma rede...
—Muito obrigado, muito obrigado! . minha cama é canastra. Não se
incomode...
—Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira, esfregando as mãos
de contente.
Prometia-lhe na verdade a companhia boas ocasiões de dar largas à
volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Corte do Rio de Janeiro e,
pelo que parecia, tagarela de grande força.
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—Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.
E abriu a porta para se retirar.
—Ui! exclamou ele olhando para o céu. Doutor, já passa muito da
meia-noite... Com a breca, o Cruzeiro está virando de uma vez. . .
Cirino, que tornara a deitar-se, com presteza calçou as botas e tomou uns
papeizinhos que de antemão preparara e pusera a um canto da mesa.
—Não faz mal, disse, já estou com tudo pronto e em tempo havemos de
dar o remédio. Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde sua filha,
caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.
Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cirino, deu volta à
casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.
Ficaram, pois, o alemão e seu criado em completa escuridão; ambos,
porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras tendo por
travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do
aposento.
—O Mochu, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já
ferrado?
—Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?
—Pergunto se já pegou no sono?
—Pois, Juque, se eu falo, como é que posso estar dormindo?
—Então não quer petiscar?
—Comer, não é?
—Esta visto.
—Oh! Se tivesse!... Pensava agora nisso...
—Pois eu estou manducando... Quer um bocadinho?
—Que é que vóce me da?
—Rapadura com farinha de milho... Está deveras de patente!... Gostoso
como tudo...
—Então, Juque, passe-me um pouco.
Levantou-se o ofertante com toda a boa vontade e às apalpadelas
começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter
esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.
Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga
de rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança mais que
sóbria, que foi devorada com satisfação pelo bom do saxônio.
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IX — O MEDICAMENTO
Não tendes que labutar com doente muito grave, e eis o serviço que de
vós esporo...
(Hoffmann, A Porta Entaipada).
Quem me poderá dizer por que me parece tão duro o leito?.. Por que
passei esta noite que se me figurou tão longa, sem gozar um momento de
sossego?... Surge a verdade: em meu seio penetraram as agudas setas do amor.
(Ovídio, Elegia n).
Quando Cirino entrou no quarto de Inocência, já estava ela acordada.
Sentara-se o pai à cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico, o anuo,
sobre uma grande pele de onça.
—Então, perguntou o médico tomando o pulso à mimosa doente, como
se sente?
—Melhor, respondeu ela.
—Suou bastante?
—Ensopei três camisas.
—Muito bem... Agora a senhora esta com a pele fresquinha que mete
gosto. Isto de sezões, não e nada, se a gente acode a tempo e o sangue não tem
maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo com elas pode.
Que é do café? pediu ele em seguida a Pereira.
—Já vem já... Homem, vou eu mesmo buscá-lo, lá à cozinha. A Maria
Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para
Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cirino, a quem fez sentar
antes de sair.
Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse
de chapa a luz colocada numa prateleira da parede, pôs-se a contemplá-la com
enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe deitava olhares inquietos e
algo sombrios.
Pousara Inocência a cabeça no travesseiro e, para ocultar a perturbação
de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo menos tinha as grandes
pálpebras cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe apressado o peito e, de vez
em quando, fugaz rubor lhe tingia as faces descoradas.
Pereira tardava; e Cirino com os olhos fixos, a fisionomia meditativa e
um pouco de palidez, que denunciava a intima comoção, não se fartava de
admirar a beleza da gentil doente.
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Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou
com o do mancebo, olhar rápido, instantâneo, mas que lhe repercutiu direito ao
coração e lhe fez estremecer o corpo todo.
Sem saber por que, batia-lhe o queixo e um arrepio de frio lhe circulava
nas velas.
—Sente mais febre? perguntou Cirino muito baixinho.
—Não sei, foi a resposta, e resposta demorada.
—Deixe-me ver o seu pulso.
E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a,
apesar dos ligeiros esforços que para a retrair, empregou ela por vezes.
Nisto, entrou Pereira. Inocência fechou com presteza os olhos e Cirino
voltou-se rapidamente, levando um dedo aos lábios para recomendar silêncio.
—Está dormindo, avisou com voz sumida.
—Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a
cafeteira, de maneiras que precisei fazer outra porção. Demorei muito?
—Não, respondeu Cirino com toda a sinceridade.
—Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha.
—Não há outro remédio.
Chegou-se o pai à cama e, com todo o carinho, chamou: Nocência!
Nocência!
E como não a visse despertar logo, sacudiu-a com brandura ate que ela
abrisse uns olhos espantados.
—Apre! Que sono! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá
dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mezinha.
Deitara Cirino sulfato de quinina no café e diluía-o vagarosamente.
—Olhe, dona, aconselhou ele, beba de um só trago e chupe, logo depois,
uns gomos de limão-doce.
—Então é muito mau? choramingou a doente.
—É amargo; mas num gole mecê toma isto.
—Papai, recalcitrou a moça, não quero... eu não quero.
—Ora, filhinha do meu coração, não se canhe; e preciso... Amanhã há de
você sentir-se boa; não é doutor?
—Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cirino.
—Depois, quando eu u lá à vila, hei de trazer para você uma coisa
bonita... uns lavrados, Ouviu?
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—Nhor-sim.
—Ande, Tico, acrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vai
depressa buscar limão-doce; na cozinha há um meio cascado.
—Tome, dona, implorou por seu turno Cirino, aproximando o pires da
boca da formosa medicanda.
Levantou uns olhos súplices e, agarrando resolutamerte o remédio,
bebeu-o todo de um jacto.
Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os lábios entreabertos, à
espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do medicamento.
—Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a coisa em si! Você
tomou a dose numa relancina.
—Amanhã de manhã, ou melhor, hoje de madrugada, temos que engolir
outra dose,. declarou Cirino. Depois, a dona, poderá levantar-se.
—Ainda outra? protestou Inocência com gesto de amuo.
—Nhã-sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso médico,
modificando pela suavidade da voz a dureza das prescrições.
—Decerto, corroborou também Pereira.
—Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, ervas, ovos ou
farinha de milho por um mês inteiro, e de provar leite por muito tempo. Há de
sustentar-se só de carne-de-sol bem seca, com arroz quase sem sal e por cima
tomará café com muito pouco doce.
—Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o rejume .
—Agora, durma bem e não se assuste de lhe aparecer zoeira nos ouvidos
e ate de se sentir mouca. Isto é da mezinha; pelo contrário, é muito bom sinal.
—Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira, dando ligeiro estalo
com a língua.
Não se descuidou Cirino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso
e, à conta de procurar a artéria, assentou toda a mão no punho da donzela,
envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.
Saiu-se mal de tudo isso; porque, se tratava da cura de alguém, para si
arranjava enfermidade e bem grave.
Com efeito, de volta à sala dos hóspedes, não pode mais conciliar o sono
e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanso, viu ralar a
aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chamas a subirem-lhe às faces,
abrasando-lhe o pensamento.
Aquele venusto rosto que contemplara a sós; aqueles formosos olhos,
cujo brilho a furto percebera, aquele colo alabastrino que a medo se descobrira,
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aquelas indecisas curvas de um corpo adorável, todo aquele conjunto
harmonioso e encantador que vira à luz de frouxa vela, fatalmente o lançavam
nesse pélago semeado de tormentos que se chama paixão!
Efeitos de tão temível mal já ia o mísero sentindo. Inquieto se revolvia
(fato virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração isocrônica e ruidosa do
companheiro de hospedagem, o alemão Meyer, respondia ao sonoro ressonar do
gárrulo José Pinho.
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X—A CARTA DE RECOMENDAÇÃO
Aquele bom velho, cuja benévola hospitalidade não tinha limites, Julgara
do seu dever tratar do melhor modo possível a Waverley, tosse ele o último
camponês saxônio... Mas o título de amigo de Fergus fê-lo considerar como
precioso depósito, merecedor de toda a sua solicitude e da mal" atenta
obsequiosidade.
(Walter Scott, Waverley)
Quando Meyer abriu os olhos, já achou Cirino de pé, arranjando uma
canastrinha.
—Oh! exclamou ele em tom de louvor, o Sr. madruga muito.
—É verdade, replicou o outro, um tanto melancólico.
—E Juque ainda dorme!... Este Juque parece mais um tatu do que um
homem... Todo o dia o estou acordando...
E juntando o feito ao dito, foi o pachorrento amo sacudir o criado.
Depois de se espreguiçar à vontade, sentou-se este no couro em que dormira, e
pôs-se a esfregar com todo o vagar os olhos papudos ainda cheios de sono.
—Deus esteja com vossuncês, disse ele entre dois bocejos. Ora, Mochu,
o Sr. acordou-me no melhor do sono. Estava sonhando que voltara para o Rio de
Janeiro e ia acompanhando uma música pelo Largo do Rocio afora. Conhece o
Largo do Rocio? perguntou a Cirino.
—Não, respondeu-lhe este.
—Xi! Que largo! Hem, Mochu?
E novo bocejo cortou-lhes a descrição da louvada praça.
—Juque, exclamou Meyer coçando a barba com ar alegre, o dia hoje está
claro e bonito. Havemos de apanhar pelo menos umas doze borboletas novas.
—E quanto me dá Mochu, se eu agarro vinte e cinco?
—Vinte e cinco? repetiu o alemão com alguma dúvida.
—Sim, vinte e cinco... e até mais, vinte e seis. Diga, quanto me dá?
—Oh! eu dou a vóce dois mil-réis.
—Está dito, fecho o negócio. Eu cá sou assim, pão pão, queijo queijo;
tão certo como chamar-me José Pinho, seu criado, carioca de nascimento e
batizado na Freguesia da Lagoa, lá para as bandas do Broco, e...
—Agora, interrompeu Meyer, vá buscar água para lavar a cara, e tire
sabão e pente na canastra.
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—Olhe, Sr. doutor, continuou o camarada sentado sempre e voltando-se
para o lado de Cirino, esta minha vida é levada de seiscentos mil diabos. Nós
saímos do Rio já há mais de dois anos; não é, Mochu?
—Vinte e três meses, retificou Meyer.
—Pois bem; desde esse tempo estamos a viajar como se fosse penitencia
de confissão. E não é só isso, não, senhor. Todos os dias ando pelo menos nove
léguas correndo aqui e acolá, dando voltas, caindo, atrás dos bichos voadores...
— Juque! tentou atalhar Meyer, olhe...
—Pois é o que lhe digo, prosseguiu José Pinho. Tenho hoje uma raiva
daquelas porcarias todas... Nem sei por que, Nosso Senhor Jesus Cristo foi criar
esta súcia de criaturas sem préstimo... Enfim, Ele é quem sabe. . . Quanto a mim,
se pudesse, atacava fogo em todas as lagartas, porque da lagarta é que nascem
esses anicetos, que estão enchendo mundos... Mas, veja, Sr. doutor, lá na terra
deste homem,— (coitado, é bem bonzinho e me estima muito) ! — valem esses
bichos mais do que ouro em pó... Também, se o Mochu não gostasse de mim,
havéra de ser muito ingrato... Outro como eu não encontra mais, não, senhor...
Tenha a santa paciência .. não, senhor, isto é o que lhe posso afiançar.
No meio desse fluxo de palavras, Meyer fora em pessoa procurar na
canastra o pente e o sabão.
Mostrando os objetos ao falador, ordenou com energia:
—Cale a boca, Juque, cale a boca, tagarela! Vá buscar água já; senão...
não levo vóce ao mato hoje.
Levantou-se de pronto José Pinho e meio a resmungar saiu, tomando
uma das canastras.
—Esse camarada, disse Meyer depois de algum silêncio e para explicar o
seu procedimento, é uma pessoa muito boa... fiel e inteligente. Mas... fala
demais. É-me precioso, porque apanha borboletas com muito talento e jeito.
Entrando José Pinho e ouvindo o final do elogio, depôs, com ar de grave
importância, a bacia no chão.
Diante dela, e depois de tirar do nariz os óculos, colocou-se logo Meyer,
ou antes acocorou-se e, em relação ao tronco, tão compridas eram as suas
pernas, que, inclinado por sobre a água, lhe ficava a cabeça à altura dos joelhos.
Levou a ablução uns largos minutos e foi com os cabelos grudados ao
casco e escorrendo água que ele se levantou, justamente quando entrava Pereira.
Nesse momento, assumira o tipo daquele homem proporções do mais
pasmoso grotesco; entretanto, tão vária 6 a apreciação de cada um, tão
caprichoso o julgamento individual, que o mineiro, acercando-se de Cirino,
disse baixinho:
49
— Vosmecê já reparou, amigo, como este estranja é figura bonita? Tão
arco! e que olhos que tem!... As mulheres hão de perder a cachola por causa
deste bicharrão... Então, Sr. Mala, continuou interpelando em voz alta o seu
espécime de beleza masculina, que tal, passou aqui a noite?
—Oh! Sr. Pereira!... Desculpe, se o não vi... Estava sem óculos. Já lhe
respondo... espere um bocadinho.
E ainda todo molhado, correu a tomar os óculos, que assentou em cima
dos salientes lúzios.
—Agora, muito bem... Dormi, meu bom amigo, como quem não tem
pecados...
—Então, observou Cirino, quase mau grado seu, tenho-os eu; porque, da
meia-noite para cá, não pude mais pregar olho...
—Isto e volta de algum namoro, replicou Pereira, batendo-lhe com força
no ombro e rindo-se.
Cirino descorou ligeiramente.
— Sim, vosmecê é moço... deixou lá por Minas algum rabicho, e de vez
em quando o coração lhe comicha... Está na idade...
—Pode muito bem ser, apoiou Meyer com gravidade.
—Não é? insistiu Pereira. Ora, confesse... não lhe fica mal... Isso 6 volta
de enguiço...
—Juro-lhes, balbuciou Cirino.
—Oh! se é, confirmou José Pinho, que julgou dever meter o bedelho na
conversa, eu no Rio de Janeiro... Negócio de salas, é de por um homem tonto.
Não lhes conto nada, mas uma vez...
Voltou-se o alemão para ele com calma, e, interrompendo-o:
—Juque, vá ver onde estão burrinhos e não bote sua colher, quando
gente branca está falando com o seu patrão.
E, como o camarada quisesse retorquir:
—Ande, ande, verberou sempre sereno, discussão nunca serviu para
nada.
Deu José meia dúzia de muxoxos abafados e foi embora, praguejando
entre dentes.
Novamente supôs Meyer dever desculpá-lo.
—Bom homem, disse, bom homem... porém fala terrivelmente!
50
—Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria
certificar-se de coisa posta muito em dúvida, deveras o senhor anda palmeando
estes sertões para fisgar anicetos?
—Pois não, respondeu Meyer com algum entusiasmo; na minha terra
valem muito dinheiro para estudos, museus e coleções. Estou viajando por conta
de meu governo, e já mandei bastantes caixas todas cheias... E muito precioso!
—Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem havéra de dizer que até com
isso se pode bichar! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo atrás
de vaga-lumes e voadores do mato, como menino às voltas com cigarras! Muito
se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa? Se eu não tivesse
família, era capaz de ir com vosmecê por esses fundões afora, porque sempre
gostei de lidar com pessoas de qualidade e instrução... Eu sou assim... Quem me
conhece, bem sabe. Homem de repentes... Vem-me cá uma idéia muito
estrambótica às vezes, mas embirro e acabou-se; porque, se há alguém esturrado
e teimoso, é este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse
no tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa bicharada
dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua terra... Não me olhe
pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que tivesse de passar canseiras como
ninguém... O caso era meter-se-me a tenção nos cascos... Dito e feito;
acabou-se.. Fossem buscar o remédio onde quisessem... mas duvido que o
achassem.
—Como vai a doente? perguntou distraidamente Cirino, cortando aquela
catadupa de palavras.
—Ora estou muito contente. Já tomou nova dose, e parece quase boa.
Está com outra feição. O Sr. fez um milagre...
—Abaixo de Deus e da Virgem puríssima, concordou Cirino com toda a
modéstia.
—O Sr. não cura? perguntou Pereira a Meyer.
—No senhor. Sou doutor em filosofia pela universidade de Iena, onde...
—Isso é nome de bicho? atalhou o mineiro.
—No senhor. É uma cidade.
—Ninguém diria... Pois, Sr. Mata, continuou Pereira apontando para
Cirino, ali está um com quem moléstias não brincam.
—Ah! rouquejou o alemão abrindo ainda mais os olhos. Estimo muito
conhecê-lo como notabilidade... Nestes lugares aqui 6 muito raro...
—Se é.! exclamou Pereira. Felizmente passou por cá nem de propósito,
para pôr de pé a menina... uma filha minha... Caiu-me a talho de foice e...
51
Não pôde Cirino furtar-se a um movimento de vanglória. Com ar grave
interrompeu:
—Não fale nisso, Sr. Pereira; o caso era simples. Febre das enchentes...
não vale quase nada. Vi logo o que era de urgência; um simples suador, duas ou
três doses de sulfato de quinina... e ficou tudo sanado... E simplicíssimo... O
estômago não estava sujo... não havia necessidade de vomitório...
Ouvira Meyer estas indicações terapêuticas com os olhos muito fitos em
quem as dava: depois, voltando-se para Pereira, disse com um aprobatório aceno
de cabeça:
—Pom médico! Com médico!
Desse momento em diante, votou Cirino ao alemão a mais decidida da
simpatia; e Pereira, presenciando o congraçamento daqueles dois homens, de si
pára si ilustres e incontestáveis sabichões, sentiu-se feliz por abrigá-los a um
tempo em sua humilde vivenda.
—Então, disse o mineiro voltando à questão das borboletas, com o que
seu governo paga-lhe bem, não Sr. Maia?
—Suficientemente... demais, todas as autoridades deste belo pais muito
me ajudam. Tenho muitos ofícios... cartas de recomendação. Olhe, quer ver?
Juque, Juque! chamou Meyer, sem reparar que o criado há muito se fora do
quarto, dê-me... É verdade, foi levar os burrinhos à água. .. Não faz mal...
Mostro-lhe já tudo...
—E, procurando entre as cargas uma malinha coberta de pano
impermeável, abriu-a e tirou um maço de cartas cuidadosamente numeradas,
com fitas de diversas cores.
—Isto é para Miranda, em Mato Grosso. Isto para Coxim, Cuiabá... para
Poconé, Diamantina... isto são cartas cujos donos não encontrei, e que hão de
voltar para as pessoas que as escreveram.
—E são muitas? perguntou Pereira.
— Três ou quatro. Vejamos... uma é para o Sr. João Manuel Quaresma,
no Pitangui; esta, para o Sr. Martinho dos Santos Perreira, em Piumi...
—Que é? perguntou o mineiro levantando-se de um pulo e mostrando
muita admiração. Leia outra vez... leia por favor...
Meyer obedeceu.
—Mas este nome é o meu! exclamou Pereira. Esta carta então é para
mim...
—Hu, hu! gaguejou o alemão boquiaberto. É muito currioso isto!
52
—Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro abrindo os diques à
volubilidade. Está claro, claríssimo!... Quando me escreveram, pensavam que eu
ainda morava lá em Piumi. Pois, se nunca contei a ninguém em que buraqueira
me vim meter... Abra a carta sem susto... Oh! Senhora Sant'Ana, que dia hoje!
Quem diria? Uma carta! Uma carta nestas alturas! Pode ler, Sr. Maia... Estou
doido por saber quem se deu ao trabalho de me escrever... Martinho dos Santos
Pereira, de Piumi... sou eu! Que dúvida: não há dois. Veja só o nome... pelo
amor de Deus, o nome de quem me direge a carta.
Rompeu o alemão com alguma dúvida e escrúpulo o selo; correndo com
os olhos a lauda escrita, procurou a assinatura e pausadamente leu "Francisco
dos Santos Pereira".
—Gentes! bradou o mineiro no auge da alegria, meu irmão... o
Chiquinho!... E eu que o fazia morto e enterrado!... Nosso Senhor o conserve
por muitos anos!... O Chiquinho!... Já se viu coisa ansim?... Como se anda neste
mundo, hem, Sr. Cirino? Quem havéra de dizer que este homem, que aqui
chegou ontem por acaso e alta noite, havia de trazer na canastra uma carta de um
irmão que não vejo há mais de quarenta anos?!... Ora esta!... São voltas deste
mundo... As pedras se encontram... Foi em 1819... não, em 20... Mas depressa...
leia a carta.. vamos ver o que me diz o Chiquinho... Da família passava por ser o
de mais juízo; também era o mais velho de todos nós... O Roberto, o caçula...
Seja o senhor muito bem-vindo nesta casa... Depois de tantos anos, trazer-me
noticias da minha gente!
Cortou Meyer aquele movimento de efusão que prometia ir longe,
começando a ler com todo o vagar ou, melhor, a soletrar a carta, cujos
garranchos, que não letras, por vezes se viu obrigado a encostar aos olhos para
poder decifrar.
"Martinho, dizia a despretensiosa epístola, dirijo-te estas mal traçadas
linhas só para saber da tua saúde e dizer que o portador desta um senhor de
muita leitura e vai para os sertões brutos, viajando e estudando países e povos.
Veio-me do Rio de Janeiro muito recomendado. Peço que o agasalhes, não como
a um transuente qualquer, mas como se fosse eu em pessoa, teu irmão mais
velho e chefe da nossa família ... "
—Pobre mano! exclamou Pereira meio choroso.
"E homem, continuou Meyer, de bastante criação. Adeus, Martinho. Eu
estou estabelecido na Mata do Rio, numa fazendola. Tenho cinco filhos, três
machos e duas famílias, estas casadas, e que me deram netos; já faz bastante
tempo. Não estou muito quebrado de forças. H§ mais de oito anos que não tenho
notícias tuas. Soube que o Roberto tinha morrido no Paranan..."
—Roberto?... Coitado do Roberto! atalhou Pereira com voz angustiosa.
53
E repentinamente, representando-lhe a memória os tempos da infância,
arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas.
"Sem mais aquela concluiu Meyer, adeus. Felicidade e saúde. Teu irmão,
Francisco dos Santos Pereira".
—Deveras, disse o mineiro depois de breve silêncio, adiantando-se para
o alemão e apresentando-lhe a destra aberta, o Sr. me deu um fartão de alegria.
Toque nesta mão e, quando ela se levantar para bulir num só cabelo de sua
cabeça ou de alguém da sua família qualquer que seja o agravo que me possam
fazer, seja ela logo cortada por Deus, que nos está ouvindo.
—Obrigado, Sr. Pereira, respondeu com animação o outro, retribuindo o
aperto de mão e corroborando-o com um concerto de garganta.
—Sim, senhor, continuou o mineiro. Esta carta vale, para mim, mais que
uma letra do Imperador que governa o Brasil. É o que lhe digo, Sr. Maia...
—Meyer, corrigiu o alemão apoiando com força na última sílaba, Meyer.
—Ah! é verdade. É preciso traduzir Meyer, Meyer. Agora já atinei com a
coisa. Mas como ia lhe dizendo, esta casa é sua. Meu irmão, o meu irmão mais
velho deu-me ordem que eu o recebesse como se fosse ele mesmo em pessoa, o
Chico;... acabou-se.
O Sr. é como se fosse dos meus. Não há que ver, 6 o que ele quer.
Entendi logo; o mais 6 ser multo bronco e, com o favor de Deus, não me tenho
nesta conta. O Sr. ponha e disponha de mim, da minha tulha, das minhas terras,
meus escravos, gado... tudo o que aqui achar. Parta e reparta.. Quem está falando
aqui, não 6 mais dono de coisa nenhuma;... é o Sr.... Meu irmão me escreveu, 6
escusado pensar que não sei respeitar a vontade de meus superiores e parentes. É
como se recebesse uma ordem do punho do Sr. D. Pedro n, filho de D. Pedro I,
que pinchou os emboabas para fora desta terra do Brasil e levantou o Império
nos campos do Ipiranga, lá para os lados de São Paulo de Piratininga, onde
houve em seu tempo colégio de padres e fradaria grossa, e donde os mamalucos
saiam para ir por esses mundos afora bater índios brabos e caçar onças, botando
bandeiras até na costa do Paraguai e no Salto do Paraná, tanto assim que deram
nas reduções e trouxeram de lá uma imundície de gente amarrada, por sinal que
muitos amolaram a canela em caminho, e só chegaram uns cento e tantos, tão
magros que...
Enfiava Pereira todas estas frases com surpreendedora rapidez, ao passo
que Meyer o contemplava extático, à espera que a torrente de palavras lhe desse
tempo e ocasião de exprimir algum vocábulo de agradecimento.
Só, porem, minutos depois, e a custo, 6 que ele pronunciou um áspero e
retumbante:
—Obrigado!
54
E acrescentou em seguida:
—Mas o senhor fala que nem cachoeira. E não cansa?
—Qual! replicou o mineiro com ufania. A gente da minha terra é de seu
natural calada; eu, não; mesmo porque fui criado em povoados de muita
civilidade...
Tomando esse novo tema, começou novamente a discorrer, mostrando
visível contentamento por achar na estimável pessoa do Sr. Guilherme Tembel
Meyer um ouvinte de força, incapaz de pestanejar e cuja fixidez de olhos era
prova evidente de que tomava interesse por todos os assuntos possíveis de
conversação.
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XI—O ALMOÇO
Comam e bebam: nada de cerimônias comigo. Minhas casa e franca; eu
também. Façam provisão de alegria e de mim disponham sem constrangimento.
(Plauto. Miles Gloriosus).
Levantou-se de repente Cirino da marquesa em que se sentara.
—Tenho vontade de amanhã seguir viagem...
—Quê, doutor? protestou Pereira. Partir já? isso nunca... Vosmecê ainda
não curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os prejuízos da sua estada aqui...
se for preciso.
—Oh! Sr. Pereira, reclamou por seu turno o jovem, isso quase me
ofende...
—Desculpe-me, e muito; mas, antes de duas semanas, não o deixo sair
daqui.
—Porém...
—Doentes não lhe hão de faltar. A minha rancharia vai ser visitada como
se fosse casa de presepe, e o Sr. não poderá dar vazão aos que o vierem
procurar. Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui a pouco está ele cá,
rente como pão quente. Atrás do primeiro, virá uma chusma dos meus pecados...
Então quer deixar Nocência como ainda esta?...
—Verdade é, balbuciou Cirino.
—Pois então? Nem pensar nisso é bom. Deixe tudo por minha conta;
vosmecê há de aqui arranjar os seus negócios.
—Já que o senhor o diz... Eu tinha receio de vexá-lo. Uma vez que até cá
venham doentes...
—Hão de vir, esteja sossegado...
—Ficarei, decidiu Cirino, quanto tempo for do seu agrado.
—Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando as mãos com
sincera satisfação, estou como quero. Quanto ao Sr. Maia.., Meyer, quero dizer,
este há de criar raízes nesta casa...
—Isso também não: tenho tempo marcado pelo meu governo...
—Bem, bem; mas em todo caso, fará uma boa temporada conosco. É
pena que o Manecão não chegue, porque apressávamos o casório, e
arranjávamos uma festança como nunca se viu nestes matarrões... Mas estou
aqui a dar com a língua nos dentes, sem pensar que os nossos estômagos ainda
esperam sua matula. O almoço não pode tardar; é um pulo só... Se consentem
vou ver 1á dentro.
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Ao dizer estas palavras, saiu da sala, voltando pouco depois
acompanhado de Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa e a
competente cuia de farinha.
— Á mesa! gritou Pereira. Almoço hoje com vosmecês. Sr. Meyer, o
senhor comerá dora em diante comigo e com a menina, lá no interior da casa;
ouviu?
E, voltou-se para Cirino.
—Bem sabe, explicou logo, como se fosse o Chiquinho.
Depois de pronta a mesa, sentaram-se os três alegremente.
—Olhe, Sr. Meyer, disse o mineiro servindo o alemão, isto e
feijão-cavalo e do melhor. Misture-o com arroz e ervas; deite-lhe uns salpicos de
farinha...
Começou o naturalista a mastigar com a lentidão de um animal
ruminante, interrompendo de vez em quando o moroso exercício para exclamar:
—Delicioso, com efeito! Muito delicioso.
Comia Cirino pouco e em silêncio.
—Na Alemanha, observou Meyer contemplando um grão de feijão, a
maior fava não chega a este tamanho. Aqui a fava de lá teria polegada e meia
pelo menos. Um almoço, assim, havia de custar na Saxônia dois táleres, ou pelo
câmbio que deixei no Rio de Janeiro, dois mil e quinhentos réis...
Interrompeu-o Pereira com gesto cômico.
—Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como é que se chama?
— Sac-sônia, respondeu o alemão com gravidade.
—Saco-sonha! exclamou Pereira. Não conheço... Mas, então lá muita
gente há de andar a morrer de fome...
—Pelos últimos cálculos, replicou Meyer com várias pausas durante as
quais introduzia enormes colheradas da mistura que lhe aconselhara o anfitrião,
6 sabido que em Londres morrem no inverno oito pessoas à míngua, em Berlim
cinco, em Viena quatro, em Pequim dose, em Iedo sete, em...
—Salta! atalhou Pereira exultando de prazer, então viva cá o nosso
Brasil! Nele ninguém se lembra até de ter fome. Quando nada se tenha que
comer, vai-se no mato, e fura-se mel de jataí e manduri, ou chupa-se miolo de
macaubeira. Isto é cá por estas bandas; porque nas cidades, basta estender a
mão, logo chovem esmolas... Assim é que entendo uma terra... o mais é desgraça
e consumição . . .
57
—Decerto! corroborou o alemão, o Brasil é um país muito fértil e muito
rico. Dá café para meio inundo beber e ainda há de dar para todo o globo,
quando tiver mais gente... mais população...
—Bem eu sempre digo, acudiu Pereira tocando no ombro de Cirino e
deitando-lhe uns olhos de triunfo. Lá fora é que nos conhecem, nos fazem
justiça... Não acha, patrício? Homem, agora reparo ...vosmecê está tão calado!...
meio casmurro, que é isso? sempre aquele negócio?
De fato, Cirino, depois que ouvirá o convite a Meyer para conviver no
interior da casa de Pereira, tornara-se sombrio, inquieto, meditabundo. O corpo
ali estava, mas a sua imaginação vigiava zelosa o quartinho onde repousava
aquela menina febricitante, tão bela na sua fraqueza e palidez enferma.
—Se são mulheres, ponderou Pereira, deixe-se disso; não há maior
asneira... É fazenda que não falta.
No meio dos exercícios mandibulares, julgou Meyer que o seu
hospedeiro considerava o sexo feminino do ponto de vista meramente estatístico
e acreditou conveniente assentar melhor a idéia, um tanto vagamente aventada.
—Na raça eslava, disse dogmaticamente, a proporção 6 de duas
mulheres para um homem; na germânica, há aproximadamente número
equivalente, na latina de dois homens para uma mulher. Na França, a proporção
para o lado masculino é de...
—Mas o senhor contou? interrompeu Pereira. Deixe-lhe dizer uma coisa:
eu cá não engulo araras...
—Ni eu, afirmou Meyer com alguma surpresa e energia, nem sei como o
senhor me vem falar nessas aves agora. . . Se as considera como caça, deve
saber que os trepadores têm a carne dura, preta e...
Riu-se Pereira do equívoco e, explicando-o, continuou a discutir com o
seu interlocutor, que não discrepava uma linha dos seus princípios de método e
escrupulosa polidez.
—Pode o senhor falar um ano inteiro, disse o mineiro para concluir; mas
quanto a mim, não entendo patavina das suas contas e jigajogas. Quem me tira
da tabuada, bota-me no mato... E agora, vamos agradecer a Deus Nosso Senhor
Jesus Cristo o ter-nos dado esta comida, ainda que insuficiente e mal temperada.
E, unindo o exemplo à palavra, levantou-se e, de mãos postas ao peito,
orou em voz baixa com unção, no que foi imitado pelos dois hóspedes.
—Esteja convosco o Senhor, disse ao terminar, em voz alta, persignando
- se.
—Amém, responderam Cirino e Meyer.
58
—Agora, anunciou o mineiro saindo da mesa, vou dar um giro pela
minha roga, onde estão na capina três negros cangueiros, um dos quais é o meu
fazendeiro; depois, hei de visitar uns conhecidos meus, avisando-os da sua
chegada, doutor. Ah! acrescentou todo desfeito em amável sorriso, falta-lhe
mostrar minha filha, Sr. Meyer.
—Sua filha! exclamou o alemão. Então tem filhos?
—Sim, senhor. Não se lembra que o seu vulto é o do mano Chiquinho?
Pois então? Que maior prova lhe posso dar de confiança e amizade?... Não é
verdade, Sr. Cirino?
—Sem dúvida, balbuciou a custo o mancebo.
—Minha filha chama-se Nocência e só hoje é que se levantou da cama...
Esteve doentinha... Assim mesmo, não sei se as maleitas a deixaram... O corpo é
às vezes caroável dessas malditas e...
—Isto está ao meu cuidado, atalhou Cirino com alguma pressa. Ainda ao
meio-dia há de tomar quina...
—Vosmecê faça o que for melhor... Quer vir, Sr. Meyer?
—Pois não! pois não! respondeu amavelmente o alemão.
— É a única pessoa da família que tenho aqui, além de um marmanjão
que está agora na carreira por essas estradas, agenciando a vida . . . Então,
vamos! Venha também, continuou ele voltando-se para Cirino, um cirurgião é
quase de casa.
Saíram, pois, os três. Pereira na frente, seguiu o oitão da direita, e,
abrindo uma tranqueira do cercado dos fundos, entrou pela cozinha, onde a
velha preta Conga estava lavando pratos e arrumando louça numa prateleira.
59
XII — A APRESENTAÇÃO
Quem, porém, mostrava mais surpresa o admiração era Sancho Pança.
Nunca, em dias de sua vida, vira perfeição Igual.
(Cervantes, Dom Quixote, CXXIX)
Ao bálsamo, fazem as moscas. que nele morrem, perder a suavidade do
perfume. Uma parvoíce, ainda que pequena e de pouca dura, da motivo a não se
ter em conta nem sabedoria nem glória
(Eclesiástes, X).
Depois de atravessarem um quarto bastante escuro, chegaram os
visitantes a sala de jantar, vasto aposento ladrilhado, mas sem forro, a um canto
do qual estava a filha do mineiro, mais deitada do que sentada numa espécie de
canapé de taquara.
Tinha os pés sobre uma bonita pele de tamanduá-bandeira, onde se
acocorara, conforme o hábito, o anão a quem Pereira chamara Tico.
Ao ver chegar tanta gente, abriu a formosa menina uns grandes olhos de
espanto; quis toda enleada erguer-se, mas não pôde e, corando ligeiramente, teve
como que um delíquio de fraqueza.
Aproximara-se logo Cirino com vivacidade.
—A dona, disse ele para Pereira, esta tão fraca que mete do.
Chegou-se o pai juntamente com Meyer e, tomando as mãos da filha,
perguntou-lhe com voz meiga e inquieta:
—Sente-se pior, meu benzinho?
—Nhor-não, respondeu ela.
—Pois então!... t: preciso não entregar o corpo à moleza... Abra os
olhos... Olhe... esta aqui este homem (e apontou para Meyer) que é alamão e
trouxe uma carta do tio de mecê, o Chico, lá da Mata do Rio. Quero mostrar que,
para mim, vale tanto como se fosse esse próprio parente tão a nós chegado. Por
isso é que venho apresentá-lo...
Ela nada articulou.
—Vamos, diga... Tenho muito gosto em lhe conhecer... diga.
Com vagar e acanhamento, repetiu Inocência estas palavras, ao passo
que Meyer lhe estendia a mão direita, larga como uma barbatana de cetáceo, e
franca como o seu coração.
60
—Gosto, muito gosto tenho eu, disse ele com três ou quatro sonoros
arrancos de garganta. Só o que sinto é vê-la doente... Mas o doutor não nos
deixará ficar mal; não é, Sr. Cirino?...
E apoiou esta pergunta com um hem? que ecoou por toda a sala.
—A senhora, respondeu o interpelado, precisaria tomar por alguns dias
um pouco de bom vinho do Porto, em que se pusesse casca de quina do campo...
Mas, onde achar agora vinho? Só na Vila de Sant'Ana . . .
—Vinho? perguntou Meyer.
—Sim.
—Vinho do Porto?
—Melhor ainda.
—Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho uma garrafa do mais
superfino e com a maior satisfação a ofereço à filha do meu pom amigo o Sr.
Pereira.
—Oh! Sr. Meyer, agradeceu este com efusão, não sabe quanto lhe f ico .
. .
—Qual! não tem obrigação, não, senhor. Além do mais, sua filha é muito
bonita, muito bonita, e parece boa deveras... H§ de ter umas cores tão lindas, que
eu daria tudo para vê-la com saúde...
Que moça! . . . Muito bela!
Estas palavras que o inocente saxônio pronunciara ex abundantia cordis
produziram extraordinário abalo nas pessoas que as ouviram.
Tornou-se Pereira pálido, franzindo os sobrolhos e olhando de esguelha
para quem tão imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a beleza de sua
filha; Inocência enrubesceu que nem uma romã; Cirino sentiu um movimento
impetuoso, misturado de estranheza e desespero, e, lá da sua pele de
tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão.
Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade prosseguiu:
—Aqui, no sertão do Brasil, há o mau costume de esconder as mulheres.
Viajante não sabe de todo se são bonitas, se feias, e nada pode contar nos livros
para o conhecimento dos que lêem. Mas, palavra de honra, Sr. Pereira, se todas
se parecem com esta sua filha, é coisa muito e muito digna de ser vista e escrita!
Eu...
—O Sr. não quer retirar-se? interrompeu Pereira com modo áspero.
—Pois não! replicou o alemão.
E como despedida acrescentou, dirigindo-se para Inocência:
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—Chamo-me Guilherme Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo
muito conhecê-la por ser a senhora filha de um amigo meu e prender a gente
com o seu lindo rosto...
Estendeu então a mão, fez um movimento de cabeça, e acompanhou ao
mineiro que já ia saindo, branco de cólera concentrada.—E que me diz o Sr.
deste homem? perguntou a Cirino a meia voz e puxando-o de parte.
—Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o outro no mesmo tom.
—Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva... Que presente me
mandou o Chico!... É uma peste, este diabo melado... Vê uma rapariguinha e
enche logo as bochechas para lhe dizer meia dúzia de pachouchadas e graçolas...
Não está má esta!... 1!: um perdido. Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de
olho nele. . .
—Faz muito bem, apoiou Cirino.
—Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar
Meyer distanciar-se, em boas me fui eu meter! . . . Se não fosse a tal carta do
mano, o cujo dançava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma mulher que daqui a
dois dias esta para receber marido... Deus nos livre que o Manecão o ouvisse...
Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas... Vejam só, hem?... Sempre 6
gente de outras terras... Cruz! Também vi logo... um latagão bonito. .. todo
faceiro... havéra por força de ser rufião.
Ouvia-o Cirino em silêncio.
—E mulher, prosseguiu o mineiro com raivosa volubilidade, 6 gente tão
levada da breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e requebros desta
súcia de embromadores. Com elas, digo eu sempre, não há que fiar... Má hora
me trouxe este alamão... Mil raios o rachem!... E logo o Chico... Tenho agora
que ficar de alcatéia... meter-me em tocaia e fazer fojos para que o bracaiá não
me entre no galinheiro. Ora que tal!
—Também, breve se vai ele embora, lembrou Cirino a modo de consolo.
—Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira. Já estou todo
enfernizado com o tal homem...
Neste momento, como que de propósito, voltava-se Meyer para os dois:
—Sr. Pereira, disse ele, ficarei em sua casa talvez umas duas semanas.
Os burrinhos vão engordar no seu pasto e eu hei de fazer compridas viagens
nesta sua fazenda, apanhando tudo o que nela encontrar... Ouviu?
Reprimiu o interpelado um gesto de viva contrariedade e, levado pelo
instinto e dever de hospitalidade, de pronto respondeu, embora secamente:
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—Fique duas semanas, ou dois meses ou dois anos. Já lho disse: a casa é
sua, e palavra de mineiro não volta atrás. Quem esta aqui, não é o Sr., é meu
irmão mais velho.
Agarrando então com força na mão de Cirino, acrescentou em voz surda
e angustiada:
—Olhe, doutor; veja só isto! Que lhe dizia eu?... Ah! meu Meyer, quer
se engraçar comigo, não é? Mas cá fico... e, uma vez avisado, nem dois, nem
três me botam poeira nos olhos... Não é com essa! Nocência nasceu filha de
pobre, mas, graças a Maria Santíssima, tem ainda pai com braço forte e muito
sangue nas veias para defendê-la dos garimpeiros e cruzadores de estrada... Ele
que não brinque com o Manecão; é homem de cabelinho na venta e se lhe bota a
mão em cima, esfarela-lhe os ossos, como se fora veadinho do campo enroscado
por sucuri...
Ia, contudo, Meyer, de todo ponto alheio ao temporal provocado por suas
inconsideradas palavras e, sem dúvida, estimulada em suas reminiscências pela
vista da menina que acabava de admirar, cantarolava entredentes uma velha
valsa alemã, dançada talvez com alguma loura patrícia em épocas remotas e de
menos rigorismo científico.
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XIII—DESCONFIANÇAS
Muitas vezes, somos iludidos pela confiança: mas a desconfiança faz que
sejamos por nós mesmos enganados.
(Príncipe de Ligne)
Quando o nosso saxônio entrou na sala em que estavam as suas cargas,
vinha tão contente do agasalho recebido, da firmeza do tempo, das futuras
caçadas de borboletas, que despertou a atenção do seu camarada José.
Estava este encostado a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida
em punho, a planta dos pés, verificando se alguma pedrinha da estrada não se
havia incrustado na grossa e já insensível sola.
—Homem, disse ele com familiaridade, Mochu está hoje muito alegre . .
. Viu passarinho verde ?
—Passarinho verde? perguntou Meyer. Que é isso? Não vi passarinho
nenhum... Vi uma moça muito bonita...
—Olé... melhor ainda... Conte-me isso... e quem é ela.
—E a filha cá do Sr. Pereira.
—Parabéns! parabéns! exclamou José com toda a indiscrição. Moça
bonita é fruta rara por estas matarias e brenhas do inferno... Quanto a mim, ainda
não botei o olho senão em velhas corcorócas e serpentões... Outra coisa é no
Rio... Não se lembra Mochu, da procissão de São Jorge?... Aí é que sai à rua
uma tafularia de deixar a gente tonta de uma vez, de queixo caído. Umas tão
alvas!... Outras cor de café com leite... crioulas chibantes.
—Juque, repreendeu o alemão revestindo-se de ar severo, não tome
confiança com gente que não 6 da sua classe...
—Mas eu não disse nada de mau, Mochu, desculpou-se o criado
recolhendo-se meio enfiado ao silencio e voltando ao exame dos pés.
Quem estava em cima de um braseiro, era Pereira. Decididamente,
aquele hóspede o punha a perder, proclamando assim com a trombeta da fama
que vira Inocência e com ela conversara, que a achava do seu gosto... uma
rapariga já noiva! Quantas incongruências, que perigos, ó Santos do Paraíso!
Tornava-se caso de muita prudência. Qualquer passo menos pensado
acarretaria conseqüências irremediáveis,
Necessário e penetrar-se a força dos sentimentos que sobressaltavam o
mineiro, para bem aquilatar os transes por que passava e achar natural que
seguisse uma linha de proceder toda de duvida e vacilações.
Se, de um lado, criava involuntária admiração por Meyer e, rodeando-o,
em sua imaginação, do prestigio de uma beleza irresistível, via aumentar o seu
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receio em abrigar tão perigoso sedutor; do outro, sentia as mãos presas pelas
obrigações imperiosas da hospitalidade, a qual, com a recomendação expressa
de seu irmão mais velho, assumia caráter quase sagrado. Juntem-se a isto os
preconceitos sobre o recato doméstico, a responsabilidade de vedar o santuário
da família aos olhos de todos, o amor extremoso à filha, em quem não
depositava, contudo, como mulher que era, confiança alguma, as suposições
logo ideadas acerca da impressão que naturalmente aquele estrangeiro produzira
no coração da sua Inocência, já quase pertencendo ela a outrem, e as colisões
que previu para manter inabalável a sua palavra de honra, palavra dada em dois
sentidos agora antagônicos—um mundo enfim de cogitações e de terrores. E
tudo isto revolvendo-se na cabeça de Pereira, refletia-se com sombrios traços de
inquietação em seu rosto habitualmente tão jovial.
—Por que razão é, perguntou ele a José Pinho para desviar aquela
conversa que tanto o magoava, que vosmecê chama Mochu ao Sr. Meyer?
Sorriu-se o carioca com ar de superioridade e respondeu
desembaraçadamente:
—Ah! E um modo de falar...
—Como assim?
—Já lhe ponho tudo em pratos limpos... Vosmecê não lhe chama Sr.?
—Chamo.
—Pois, então?... Eu também lhe chamo assim... mas falo em francês,
Mochu quer dizer senhor, nessa língua.
—Ah! replicou Pereira dando-se por convencido, então e isso? Pensei
que fosse outra coisa...
—Juque; avisou Meyer que estava a remexer nas canastras, prepare tudo;
nós vamos ao mato agora mesmo...
—Venha comigo, propôs o mineiro com voz insinuante. Eu lhe apontarei
lugares onde há dessa bicharia miúda, coisa nunca vista.
—Com muito gosto, concordou o alemão.
E voltando-se para o camarada:
—Ande, Juque, ordenou ele, bote a pita para fora, caixas de
folha-de-flandres, clorofórmio, rede pronta... Depressa homem, depressa!
José Pinho, instigado por estas palavras, entrou a voltear de um lado para
o outro, como que atarantado com o excesso de serviço.
—Minhas lentes, pediu o naturalista, o saco para os bichos de casca
grossa... Depressa... Vou ajudá-lo.
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E, por seu turno, começou a tirar das canastras os objetos de que
necessitava, enfiando a tiracolo dois ou três talabartes finos que sustentavam
umas caixinhas encouradas. Numa delas, havia um copo de prata com a
competente corrente noutra, um faqueiro de peças dobradiças e de metal do
príncipe. Também assentou ao flanco uma frasqueira defendida de choques
externos por fino trançado de vime e que continha aguardente, comprada de
fresco na Vila de Sant'Ana do Paranaíba.
Não contente com o peso de todos esses apêndices à sua pessoa, fingiu
largo talim com uma espécie de patrona de folha-de-flandres e que sustentava
um grande facão inglês, um revólver e uma espada de caça.
Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si cada uma destas peças
com grande espanto de Pereira e até de Cirino, substituiu Meyer os óculos
habituais por outros, de vidros afumados, multo grandes e convexos, destinados
a proteger-lhe amplamente os olhos dos ardores do Sol. Muniu-se, além disso,
de outro singular meio de preservação: uma rodela ampla de pano branco
forrado de verde que aumentava as abas do chapéu-do-chile, descansando em
parte sobre elas.
Com esse trajo ficou decerto a mais estapafúrdia figura que algum
cristão encontrar poderia naquelas trezentas léguas em derredor; entretanto,
Pereira, ofendido com aqueles cuidados de prevenção meramente científica, que
lá no seu bestunto qualificava de faceirice feminil:
—Veja só, disse ele para Cirino, como este maricas gosta de se
enfeitar!... Você não me engana, não, Sr. alamão das dúzias...
Mirava-se nesse momento o naturalista, para verificar se lhe faltava
alguma coisa.
—Estou pronto, exclamou afinal, e muito desejoso de entrar no mato.
—Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou Pereira.
—Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... Juque, procure na canastra nº 2,
à esquerda, no segundo canto.
Sacou o camarada umas grandes lavas de lã, brancas, muito largas, já
usadas e sujas, nas quais o alemão enfiou de um jacto as mãos espalmadas.
—Agora, sim! anunciou ele com satisfação.
E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar
borboletas.
Depois, levando um dedo à testa:
—Ah! exclamou, e o vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua
filha, Sr. Pereira, sua linda filha.
Encolheu o mineiro com furor os ombros e disse em parte a Cirino:
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—Fez-se de esquecido só para falar na menina... Veja bem. Este calunga
não me bota areia nos olhos.
E acrescentou alto, recebendo a garrafa que o camarada José Pinho tirara
de uma das canastras:
—Agradeço o seu presente, Sr. Meyer, mas se... lhe faz a menor falta .. a
menina há de curar-se sem isto...
— Não, não, não, não, respondeu o saxônio com uma série de negativas
que pareciam não dever ter fim.
—Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que para ser ouvido,
ninguém mete prego sem estopa; mas com sertanejos... não se brinca.
Cirino tomara a garrafa.
—Isto, afirmou ele, acaba com certeza a cura.
E, esquivando-se de pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem
estava tratando:
—Ela há de ter hoje algum apetite e poderá levantar-se um pouco, pois já
tomou o seu caldinho.
—Então, ao meio-dia, recomendou Pereira muito baixinho a Cirino,
vosmecê mande chamar a nossa doente e dê-lhe a mezinha. Ouviu? Já avisei lá
dentro...
Cirino abanou a cabeça, tomando ar misterioso.
—Eu por mim estarei de olho vivo no bichão... Parece-me suçuarana à
espreita de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum feitiço?
Contestou o outro com energia tal possibilidade.
—Eu sei lá, insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita
coisa... Nunca ouviu contar histórias de pirlas e beberagens.. hem? diga-me,
nunca?
—Sossegue, Sr. Pereira, acudiu Cirino, hei de examinar o liquido... tenho
certeza de que não haverá novidade.
—Muito que bem .. Então, ao meio-dia em ponto... chame a Maria
Conga ou o Tico. Nocência há de arrastar-se até cá... e o doutor lhe dará a dose...
—Ela sair já? objetou Cirino com admiração. Não, senhor; em tal não
consinto... Irei dar-lhe o remédio... Não me custa nada...
Pereira ficara meio perplexo.
—Não sei...
E com súbita resolução:
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—Pois bem, virei da roga até cá... Se eu não aparecer, então o Sr. dê um
pulo e faça-lhe tomar a poção... Quanto a este alamão melado, levo-o para longe
e não o trago senão bem tarde e tão moído do passeio que só há de pensar em
dormir.
Com Pereira se dava um fato natural e comezinho nas singularidades do
mundo moral.
A medida que as suspeitas sobre as intenções do inocente Meyer iam
tomando vulto exagerado, nascia ilimitada confiança naquele outro homem que
lhe era também desconhecido e que a princípio lhe causara tanta prevenção
quanto o segundo.
E que as dificuldades e colisões da vida, quando se agravam, tão fundo
nos incutem a necessidade do apoio, das simpatias e dos conselhos de outrem,
que qualquer aliado nos serve, embora de muito mais proveito fora bem pensada
reserva e menos confiança em auxiliares de ocasião.
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XIV—REALIDADE
Cordélia.—Há de o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta
hipocrisia.
(Shakespeare, O Rei Lear, Ato I).
Depois que Cirino viu sumir-se Pereira com os dois companheiros além
do laranjal da casa, seguindo em direção à roça por uma vereda pedregosa e
cheia de seixos rolados, nos quais iam as patas dos animais batendo; depois que
teve certeza de que ficara só naquela vivenda, entrou em grande agitação.
Ora, passeava pelo quarto rápida e inquietantemente; ora, media-o com
passo lento em muitas direções; ora, enfim, saia para o terreiro e ali, com a
cabeça descoberta, ficava a olhar atentamente para diversos lados, abrigando
com a mão aberta os olhos, dos vivíssimos raios do sol.
Prometia o dia ser muito cálido. Por toda a parte chiavam as estrídulas
cigarras, e ao longe se ouvia o metálico cacarejar das seriemas nos campos.
Às vezes, encarava Cirino o Sol; depois tapava os olhos deslumbrados e,
tomado de vertigem, voltava para a sala, onde recomeçava os seus passeios.
Por que, porém, não descansava o mancebo?
Entrando familiarmente pela sala adentro, os bacorinhos se haviam
abrigado dos ardores do dia e, deitados debaixo de uns jiraus, ressonavam, presa
de gostoso sono.
Tudo quanto vivia apetecia a sombra e o repouso. Fora, o Sol
reverberava violento em seus fulgores, e as sombras das arvores iam cada vez
mais diminuindo. Até uma égua com o esguio e peludo poldrinho deixara o
distante pasto e viera abrigar-se, à proteção da casa, junto à qual parara já meio a
cochilar.
A enervadora ação do calor estival, juntavam sua influência as
monótonas modulações de umas chulas e modinhas, cantadas ao som da viola de
três cordas pelos camaradas de Cirino, acomodados no rancho junto ao paiol de
milho.
A tudo, entretanto, resistia o jovem, e com ascendente desassossego
consultava o seu relógio de prata, tirando-o cada instante do bolso.
Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal soltou ele um suspiro de
alivio:
—Meio-dia!,.. Cuidei que nunca havia de chegar!...
Saindo todo animado para o terreiro, chamou com voz forte:
—Maria... O Maria Conga!...
Ninguém lhe respondeu. Só do lado da cozinha ladraram uns cães.
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Depois de esperar algum tempo, rodeou Cirino toda a casa, como fizera
com Pereira e, encostando-se à cerca que impedia a aproximação do lanço dos
fundos, tornou a chamar:
—Ó Maria?... Maria!... Está dormindo, minha velha?
Vendo que os gritos ficavam sem resposta, saltou então o cercado e foi
caminhando para a porta da cozinha, devagar, porém, e como que a medo.
—Ó Maria?!... Minha tia!... Olá! Ó de casa! chamava ele.
Afinal apareceu não a velha escrava, mas o anão Tiro, que pareceu, com
imperioso movimento de cabeça, indagar a causa daquele intempestivo alarma.
—Que é da Maria Conga? perguntou Cirino chegando-se a ele.
Por meio de moderada gesticulação, mas muito expressivamente, deu
Tico a entender que a preta fora ao córrego lavar roupa.
—E não há mais ninguém em casa? inquiriu o outro.
Mostrou o anão, com singular expressão de orgulho e despeito, que ali
estava . ele e deitou um olhar de cólera para o imprudente curioso.
—Bem, replicou Cirino sorrindo-se, vá você então dizer à sinhá dona,
que já chegou a hora de tomar o remédio. Trago o vinho, e é preciso quanto
antes preparar café.
Desapareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado medico para que
esperasse fora.
—Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao
Sol?... Não está má esta!. .. E tal o mestre nanica?. . .
Sem mais cerimônia entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que
ficava entre a cozinha, teatro da atividade de Maria Conga e a sala de jantar,
onde se dera a apresentação de Meyer a Inocência.
Daí a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se
Inocência embrulhada em uma grande manta de algodão de Minas, de
variegadas cores, e com os longos e formosos cabelos caídos e puxados todos
para trás. Os grandes e aveludados olhos orlados de fundas olheiras, e o
quebrantamento do semblante, muita fraqueza denunciavam ainda; entretanto, as
cetinosas faces como que se apressavam a tomar cores, à semelhança de rosas
impacientes de desabrochar e expandir-se vivazes e alegres. Ao chegar à porta,
não a tranpôs; mas encostando-se à grossa trave que fazia de umbral, ali ficou
parada, indecisa, com o olhar turbado e esquivo.
— Ao vê-la, deu Cirino com timidez alguns passos ao seu encontro;
depois, por seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e
sólido traste trazido por Pereira da sua casa de Piumi.
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Após longa pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares
perguntou com esforço:
—Então... minha senhora... como está?... Sente-se melhor?
—Melhor, obrigada, respondeu Inocência com voz aflautada e muito
trêmula.
—Comeu já alguma coisa?
—Nhor-sim... uma asa de frango, mas com... bastante vontade.
—Sente o corpo abatido?
— A canseira está passando... ontem muito mais...
A pouco e pouco, fora Cirino recuperando o sangue frio e se
aproximando da moça, que mais se apegou à umbreira, como que a procurar
abrigo e proteção.
De um lado da porta ficou ela: do outro Cirino, ambos tão enleados e
cheios de sobressalto que davam razão às olhadas de espanto com que os
encarava Tico, empertigado bem defronte dos dois em suas encurvadas
perninhas.
—Pois chegou a hora de tomar o remédio...
—Já, seu doutor? implorou Inocência.
—Nhã-sim.
—Eu não tenho mais nada...
—É para cortar de uma vez as sezões... Olhe, se elas voltassem... era um
grande desgosto para mim...
—Mas é tão mau, objetou ela.
— Não é bom deveras... mas bem melhor é voltar à saúde...
Com um bocadinho de coragem, a gente engole tudo sem muito custo...
Já que lhe amarga tanto... beberei também um pouco...
—Oh! não! protestou Inocência.
—É: para lhe mostrar... que quero sentir... o que mecê sente.
Fez-se a menina da cor da pitanga, levantou uns olhos surpresos e voltou
logo o rosto para fugir dos olhares ardentes de Cirino.
—A mezinha? pediu ela por fim toda comovida.
—Ah! é verdade! exclamou Cirino. Ande, Tico: vá buscar café a
cozinha. Lave bem um pires... percebeu?
O anão fitou o moço com altivez e não se mexeu.
71
—Você é surdo?
—Não, respondeu Inocência. Tico, às vezes, por manha é que se faz
ansim de mouco.
Voltando-se então para o homúnculo, insistiu com voz meiga e
carinhosa:
—Vai, Tico; é para mim, ouviu?
Transformou-se repentinamente a fisionomia do anão. Pairou-lhe nos
lábios inefável sorriso, meneou a cabeça duas ou três vezes com a força de uma
afirmação, mas, colérico, enrugou a testa e moveu olhos inquietos e duvidosos.
Inocência teve que repetir o recado.
—Já lhe disse, Tico: vai buscar o café.
A esta quase ordem não ousou ele resistir mas saiu devagarzinho,
voltando-se várias vezes antes de entrar na cozinha, onde muito pouco se
demorou.
Neste entrementes tomara Cirino o pulso de Inocência e, sem pensar no
que fazia, quebrando a débil resistência da menina, cobrira-lhe de beijos o braço
e a mãozinha que havia segurado.
—Meu Deus! balbuciou ela, que é isto?... Olhe, aí vem Tico.
Recuou então o mancebo e, para melhor disfarçar a comoção adiantou-se
para o anão que vinha trazendo na mão direita uma vasilha de folha-de-flandres,
e na outra um pires com colher.
—Muito bem, disse ele, ponha tudo em cima da mesa.
E preparando rapidamente o medicamento apresentou-o a Inocência. que
sem hesitação o sorveu todo.
—Deixe-me um pouco, exorou com ternura Cirino, um pouco só... Se é
tão mau... sofra eu também.
—Não, respondeu ela com alguma energia, por que havéra de mecê
sofrer?
E, ou por efeito do inexprimível e desconhecido abalo que experimentara
no estado de debilidade a que chegara, ou por ser aquela a hora em que
costumava a febre salteá-la, o certo é que teve de encostar-se ou melhor,
agarrar-se ao umbral para não cair a fio comprido no chão.
—Oh! exclamou com angústia Cirino, a senhora vai desmaiar.
Transpondo então o limiar da porta, tomou nos braços a pálida donzela,
sem relutância encostou a desfalecida cabeça ao seu ombro e, com o hálito
ofegante, aos poucos lhe foi fazendo voltar às faces o precioso sangue.
72
—Estou melhor, balbuciou ela procurando afastar a cabeça de Cirino.
—Não faça de forte à toa, acudiu este. Vamos ate aquela cadeira.
E, com toda a lentidão e cuidado, foi levando a convalescente até
sentá-la, desembaraçando-a, depois, dos muitos cabelos que, todos revoltos, lhe
haviam invadido o colo e se esparziam sobre o rosto.
—Quanto cabelo! exclamou Cirino meio risonho.
Com muita atenção seguira Tico as peripécias de toda aquela cena. Ao
ver Inocência perder quase os sentidos, soltou um grito surdo de desespero;
depois, foi seguindo-a até a cadeira e, ajoelhado diante dela, contemplou-a com
inquietação.
Cirino quis aproveitar a ocasião para um. congraçamento.
—Então está com cuidado, Sr. Tico?... Não é nada... sua ama fica boa
logo... Não é o que você quer?
Ao ouvir esta interpelação, levantou-se o anão e correspondeu ao
simpático anúncio do moço com um olhar de desprezo e pouco caso, como que a
dizer:
—Não se meta comigo, que não quero graças com você, médico de
arribação!
—Agora, disse Cirino voltando-se para Inocência, vai mecê beber dois
goles deste vinho .. Vera logo, que sustância há de sentir dentro do corpo.
Desarrolhou então, com a ponta da comprida faca que tirou do cinto, a
garrafa de vinho oferecida por Meyer, e num caneco de lousa branca apresentou
à moça um pouco do ruborante líquido.
Molhou a doentinha os lábios e gratificou o obsequioso mancebo com
um sorriso encantador.
Decididamente lhe agradava aquele medico: curava do seu corpo
enfermo e entendia-lhe com a alma. Raros homens que não seu pai e Manecão,
além de pretos velhos, tinha até então visto; mas a ela, tão ignorante das coisas e
do mundo, parecia-lhe que ente algum nem de longe poderia ser comparado em
elegância e beleza a esse que lhe ficava agora em frente. Depois, que cadela
misteriosa de simpatia a ia prendendo àquele estranho, simples viajante que via
hoje, para, sem duvida, nunca mais tornar a vê-lo?
Quem sabe se a meiguice e bondade que lhe dispensava Cirino não eram
a causa única desse sentimento novo, desconhecido, que de chofre nascia em seu
peito, como depois da chuva brota a florzinha do campo?
A muito obriga a gratidão.
73
Rápidos correram esses pensamentos pela mente de Inocência, ao passo
que as suas pupilas se iam erguendo até se fixarem em Cirino, límpidas, grandes,
abertas, como que dando entrada para ele ler claro o que se lhe passava na alma.
—Sinto-me tão bem, disse ela com metal de voz muito suave, tão leve de
corpo, que parece nunca mais hei de ficar mofina.
—Não, não, decerto! exclamou Cirino, nunca mais. Além disso, aqui
estou e...
Com a sua chegada, interrompeu Maria Conga, a velha negra, aquele
começo de diálogo. Vinha da fonte com volumosa trouxa de roupa que entrou a
estender em compridos bambus, assentes horizontalmente sobre forquilhas
fincadas no chão.
Despedindo-se, então, Cirino de Inocência:
—Agora, lhe disse ele risonho e pegando-lhe na mão, sossegue um
pouco: depois tome um caldo e... queira-me bem.
—Gentes! Por que lhe não havéra de querer? perguntou ela com
ingenuidade. Mecê nunca me fez mal...
—Eu, retrucou Cirino com fogo, fazer-lhe mal? Antes morrer...
Sim...dona... da minha alma, eu...
E, sem concluir, disse repentinamente:
—Adeus!
Depois, com passo lento, foi se retirando e passou diante da janela junto
à qual ficara Inocência sentada.
—Olhe! recomendou ele recostando-se ao peitoril, cuidado com 0
sereno...
—Nhor-sim...
—Não beba leite...
—Mecê já disse.
—Coma só carne-de-sol...
—Já sei...
—Então, adeus... adeus, menina bonita!
E, a custo, despegou-se daquele lugar, onde quisera ficar, ate que de
velhice lhe fraqueassem as pernas.
74
XV — HISTÓRIAS DE MEYER
Grande felicidade é ter um filho prudente e instruído; mas, quanto e
filhas, e par. todo o pai carga bom pesada.
(Menandro, Os Primos).
Com a tarde voltaram Meyer, José Pinho e Pereira e, pouco depois pois
deles, três avelhantados escravos; estes dos trabalhos agrícolas, aqueles de
grandes excursões entomológicas.
Vinha o mineiro meio risonho e em altos gritos acordou Cirino, que,
deitando-se a dormir, sonhara todo o tempo com a graciosa doente.
—Olá, amigo! olá, doutor! chamou Pereira com voz retumbante, isso e
que é vida, hem? Enquanto nós trabalhamos, eu e o Mochu do José, você está
nessa cama de veludo!...
—É verdade, concordou o moço, apenas os Srs. se foram, estendi as
pernas e até agora enfiei um sono só...
—E o remédio da menina? perguntou Pereira abaixando a voz.
—Ora, Sr., e eu que me esqueci!... Não faz mal... se ela não teve febre...
Ah! espere... agora me lembro!... Eu lho dei... estou ainda tonto de sono.
Riu-se Pereira.
—Estes doutores matam a gente, como se tosse cachorro sem dono...
Num momento, lhes passa da cachola se deram ou não mezinhas e venenos a
cristãos. ..
Vendo que Meyer saíra da sala, mudou repentinamente de tom
prosseguindo em voz baixa e muito rapidamente:
—Então, sabe que o tal alamão levou todo o dia, só querendo puxar
conversa sobre a menina?
—Deveras?
—É o que lhe digo... E... eu com as mãos atadas por aquele oferecimento
de levá-lo a comer lá dentro!... Nada, nem que desconfie e se arrenegue dos
meus modos... não me pisa em quarto de família. . . Deus te livre! . . .
Com efeito, à hora da ceia, Meyer manifestou surpresa de comer na
mesma sala; não que tivesse motivo para desejar outro qualquer local; mas,
metódico como era, gravara na mente a promessa de Pereira e, por delicadeza,
supunha dever lembrar-lha.
As desculpas que o mineiro apresentou foram arranjadas de momento e
ajudadas vitoriosamente por Cirino, carregando este com a responsabilidade de
haver recomendado à enferma muito sossego, quase completa solidão.
75
De modo muito expansivo se manifestou também o reconhecimento de
Pereira.
—Estou conhecendo, disse ele em aparte e apertando a mão de Cirino,
que o doutor é homem sério e com quem se pode contar... Deixe estar... o
Manecão há de ser amigo seu... Isso há de sê-lo... Pessoas de bem devem
conhecer-se e estimar-se... Ora, veja o tal cujo... que temível, hem?... Não faz
mal, há de ter o pago.
Se Pereira se mostrava contrariado e inquieto, muito pelo contrário
parecia o naturalista nadar em mar de rosas.
—Sr. doutor, declarou ele a Cirino à mesa da ceia, por muitos motivos
estou em extremo contente com a minha estada aqui... Hoje achei mais
bichinhos curiosos do que em todas as zonas por que tenho andado.
—Vosmecê nem imagina, interrompeu Pereira dirigindo-se para Cirino,
o que faz este senhor quando está dentro do mato. Ainda há de quebrar o
pescoço nalgum barranco a que se atire, pois caminha com as ventas para o ar...
Não sei como não tem ambos os olhos furados... não repara em galhos nem em
nada... só o que quer e agarrar anicetos... Já o avisei umas poucas de vezes;
agora, sua alma, sua palma...
Judiciosas eram as advertências do mineiro e bem cabidas; tanto assim
que numa das tardes seguintes voltou Meyer todo arranhado e com um gilvaz
tão grande, que imediatamente deu nas vistas de Cirino.
—Que foi isso, Sr. Meyer? perguntou ele com admiração. O Sr. andou
por ai afora aos trambolhões com alguma onça?
—Oh! não é nada, respondeu fleumaticamente o alemão.
—E a sua roupa vem suja de barro... toda rota...
Desatou Pereira a rir.
—Isto são histórias deste homem... Bem lhe dizia eu que mais dia menos
dia isso havia de acontecer. Meu amigo não sabe do ditado: ...Fia-te na Virgem e
não corras, veras o tombo que levas!... Também foi um dia em que me ri a mais
não poder. Tomei um fartão... Imagine vosmecê que o tal Sr. Meyer, como já lhe
contei, anda pulando dentro da mata como se fosse veado mateiro... O José
Pinho, que é mitrado, vai sempre pela estrada limpa...
—Preguiçoso, atalhou Meyer a modo de observação.
—Juízo tem ele, prosseguiu o mineiro: mas, como ia dizendo cá, o Sr.
com seus arrancos e saltos parece anta disparada. Em aparecendo bichinho
voador, zás-trás que darás lá vai ele logo sem olhar para os paus, podendo pisar
em cobras e espinhos, com aquela rede na mão, e tanto faz que engalfinha
sempre algum animalejo... Hoje fui para a roça, e o homem furou o mato,
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enquanto José buscava uma sombrinha e entrou logo a roncar como um
perdido...
—Eu, não senhor, protestou José Pinho, que queria ouvir a historia.
—Vóce sim, corroborou Meyer com severidade, preguiçoso!... Ande...
dê cá a pita.
—Pois bem, continuou Pereira, daí a duas horas voltou Mochu neste
estado pouco mais ou menos; mas trazia uma caixa cheia de bichos do mato...
—Oh! perguntou Cirino, e são bonitos?
—Não há mais nada, suspirou Meyer com tom dolente, o trabalho ficou
perdido!... Eu tinha apanhado cinco espécies novas... Uma queda...
—Deixe-me contar o caso, atalhou Pereira. Oh! eu ri-me... ri -me.
E, para confirmar a asserção, pôs-se novamente a dar
gargalhadas, que foram acompanhadas por José Pinho e até por Meyer, da parte
deste com menos expansão, contudo.
—Apareceu-me o Mochu muito contente com a sua caixa, como se
tivesse o rei na barriga. Era uma imundície de besouros, cascudos e cigarras, que
o Sr. nem pode imaginar... Havia de tudo; depois, quando voltamos da roça,
enxergou ele num pau podre um aniceto vermelho e foi correndo a apanhá-lo.
Eu bradei-lhe: — Olhe, que ai tem barranco: a árvore é podre e oca, e vosmecê
rola pelo despenhadeiro, que nem a sua alma se salva. — Qual! O homem é
teimoso, como um cargueiro empacador... Eu gritava-lhe: —Tome tento,
Mochu!—Sem atender a nada, começou a caminhar em cima da cipoada que
cobria a boca de um percipício, fundo como tudo neste mundo... Quando ia
botar a mão no tal bicho encarnado, encostou-se ao pau e... zás!... afundou-se,
dando um grito esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se
aos cipós e ia ficou entre a vida e a morte, chamando Juque, Juque!... Eu,
quando vi isso, mandei a toda pressa buscar à roça uma vara comprida e, se ela
não chega logo, o Sr. Meyer e toda a sua bicharada rolavam de uma vez por
aqueles fundões.
—Não, retificou o alemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se foi no
fundão...
—Pois bem, o Mochu segurou-se com unhas e dentes ao pau e nos
puxamos devagarinho, devagarinho, com um medo, um medo!... Maria
Santíssima! . . .
Fazendo breve pausa:
—0 mais engraçado ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê
vai tomar uma boa data de riso. Quando o Mochu ganhou pé em terra, pôs-se a
pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo e mais pulo, e gritando
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como se o estivessem esfolando... Estava .. ah! meu Deus!... estava cheio de
formigas novatas!
— Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de pau podre!... mein
Gott ... Eu rasgo a roupa... eu pulo... eu gemo... fico nu como quando minha mãe
me botou no mundo!... Horrível Formiga do diabo! . . . Faz calombo em todo o
meu corpo. . . Muita dor!
Com reiteradas e estrondosas gargalhadas acolheram Pereira, Cirino e
José Pinho essas enérgicas imprecações.
—Poderá isso, observou o mineiro, curá-lo da mania de não ouvir os
outros que conhecem as coisas.
E voltando-se para Cirino:
—Verdade é que o corpo dele... Que corpo, Sr. doutor, tão arvo!... ficou
todo empolado que foi preciso esfregá-lo com folhas de fumo. Depois, tomou
um banho no ribeirão...
—Tudo estava muito bem, observou Meyer, se caixa não abre e atira no
buraco meu trabalho...
—Ora, ficará para amanhã, consolou filosoficamente o camarada.
Pereira, acalmado o frouxo de riso, aproximara-se de Cirino e lhe falava
a meia voz:
—Ah! doutor, tive uma vontade de deixar este alamão sumir-se no
socavão!...
Se não fosse meu hóspede, enfim, e recomendado de meu mano, palavra
de honra pinchava-o de uma vez no inferno...
Não sou nenhum pinóia...
—Mas por quê? indagou Cirino simulando admiração...
—O Sr. ainda me pergunta?... Porque o homem não me faz senão falar
em Nocência... Outra vez me disse que ela era muito bonita e mil coisas..
perguntou se estava casada, se não; que era preciso casar as mulheres para bem
delas. Eu lá sei o que mais?... Isto é um bruto perdido... um namorador!...
—Qual, Sr. Pereira!...
—É o que lhe digo!... Por acaso sou cobra de duas cabeças(4) que não
veja?... Ah! que peso uma filha! Ah! E então uma menina que já está
apalavrada... Isto é uma anarquia! Que diria meu genro, o Manecão?...
—Não poderá dizer nada, retrucou o moço. E que diga, não faltará quem
queira sua filha...
—Louvado Deus, não decerto! Eu é que não quero que ela ande de mão
em mão... Ou casa com o Doca ou...
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— Ou... o quê? perguntou Cirino com inquietação, mas fingindo pouca
curiosidade.
—Ou mato a quem lhe vier transtornar a cabeça .. Comigo ninguém há
de tirar farofa!... E não hei de ter mil cuidados quando vejo este estranja estar
com suas macaquices a dar no fraco das mulheres ?
—Por ora, nada fez ele...
—Por ora .. só leva a falar na pobre menina, que a Srª Sant'Ana guarde
de todo o mal!... Pudesse eu adivinhar, e macacos me mordam, se punha os
olhos em cima de Nocência. Nem que viesse com cartas e ordens do Sr. D.
Pedro II .
Chamei o José Pinho, prosseguiu ele em voz baixa e dei-lhe uns toques.
— Então, disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres, hem? Ele, que é muito
ladino, respondeu-me logo. —Nhor-não. —Assuntei a embromação.—Qual,
você, carioca, tem levado areia nos olhos. — Eu?... não é capaz.— Então você
não tem visto o que faz seu amo? — Tem sido um santo, retrucou o espertalhão.
No Rio, sim. —Na Corte?—Nhor-sim, na Corte. Ia todas as noites a uma casa de
bebidas, assim uma espécie de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas
petiscando e conversando com senhoras muito bonitas, bem limpas... algumas
com o pescoço e os braços todos à mostra...
—Contou-lhe isso? atalhou Cirino com alguma dúvida e sobressalto.
— Contou, afirmou Pereira com furor.
Vejam só que homem, hem? É um mequetrefe!... Esta noite e dora em
diante, venho dormir nesta sala a ver se ele se mexe da cama. Ah! se eu
pudesse!... caia-lhe de calaboca em cima, que lhe deixava as costelas em. lascas.
Acabavam as imprudentes histórias de José Pinho de pôr a ultima pedra
no edifício da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação de Pereira em
desconceito de Meyer. O que nelas havia de verdade, eram apenas algumas
horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de Janeiro, pelo naturalista
ao consumo de grandes copázios de cerveja no café Stadt Coblenz, e nas quais
entretivera risonhos, bem que inocentes colóquios, com pessoas do sexo amável,
freqüentadoras daquele estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.
79
XVI—O EMPALAMADO
Ao homem não faltam importunações quanto à vossa capacidade, bem a
conhecemos.
(Molière, O Médico A Força).
Conforme o prometido, trouxe Pereira a rede para a sala dos li hóspedes
e, encetando um modo de vigilância muito especial ainda que perfeitamente
inútil em relação à pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do valente
peito à ruidosa respiração de Meyer.
Se, contudo, não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor,
se o sono não os acometesse sempre com tamanha imposição,, decerto em breve
houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cirino e que este não podia
mais encobrir.
Na verdade, o modo por que o infeliz mancebo passava as noites era de
fazer nascer suspeitas no espírito mais indiferente e desprevenido. Ou se
revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então saia para o terreiro,
onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após outros, até que os
galos, alcandorados na cumeeira da casa e nas árvores mais próximas,
anunciassem as primeiras barras do dia.
Desabrida paixão enchia o peito daquele malsinado; dessas paixões
repentinas. explosivas. irresistíveis, que se apoderam de uma alma, a enleiam
por toda a parte, prendem-na de mil modos e a sufocam como as serpentes de
Netuno a Laocoonte. Conhecedor como era, dos hábitos do sertão, do jugo
absoluto dos preconceitos, do respeito fatal à palavra dada, antevia tantas
dificuldades, tamanhos obstáculos diante de si, que, se de um lado desanimava,
do outro mais sentia revoltado o nascente e já tão violento afeto.
—Deus me ajudará, pensava consigo mesmo: o que só quero e a amizade
de Inocência Há dias que não a vejo... se não puder mais vê-la... dou cabo da
vida...
Sublevava-se o seu coração, girava-lhe o sangue com vertiginosa rapidez
nas velas e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro calor ao descorado
rosto.
—Nossa Senhora da Abadia, implorava ele puxando os cabelos com
desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dai-me pelo menos
esperanças de que aquela menina poderá um dia querer-me bem.., Nada mais
desejo... Possa o fogo que me consome abrasar também o seu peito...
Costumava a fervorosa prece dirigida à santa da especial devoção de
toda a Província de Goiás acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de
forças pegava no sono para, instantes depois, acordar sobressaltado e cada vez
mais abatido.
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Também estava sempre de pé quando Pereira costumava saltar da rede.
—Oh! observou ele da primeira vez, isto 6 que se chama madrugar.
—Pois é contra o meu costume, replicou Cirino, todas estas noites tenho
passado mal...
—Na verdade vosmecê não está com boa cara...
—Creio que me entraram no corpo as maleitas.
—Essa é que é boa! Então o doutor foi emprestar(') da doente a
moléstia?...
Olhe, é preciso por-se forte, porque hoje mesmo há de lhe chegar uma
boa maquina de doentes...
—Melhor...
—Já está tudo espalhado por ai da sua chegada e a romaria não há de
tardar.
—Cá a espero...
—Naturalmente virá primeiro o Coelho... t: boa ocasião de pagar a sua
divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...
—Daqui mesmo pretendo despachar um próprio para me ver livre dessa
obrigação...
—Isso mostra que o Sr.é pessoa de brio... Não 6 como certa gente que
conheço...
Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplá-lo
atentamente.
Estava na verdade o alemão digno de exame, posto ainda de parte outro
qualquer motivo que não o de simples curiosidade.
Dormia com as pernas e braços abertos e caldos para fora do estreito
leito das canastras: tinha o queixo muito levantado pela posição incômoda da
cabeça, deixando a boca meio aberta ver uma fieira de magníficos dentes.
—Está roncando, hem? murmurou o mineiro. Cavouqueiro... a mim você
não engana..., mas é o mesmo!
Iam as prevenções de Pereira tomando proporções de idéia fixa, e Meyer,
na simplicidade da ignorância, como que de propósito ministrava elementos para
que elas mais e mais se fossem arraigando.
Assim, ao almoço, lembrou-se de perguntar entre duas enormes
colheradas de feijão:
—Sua filha, Sr. Pereira? Como vai? É melhor?
—É melhor o quê, Mochu? exclamou o pai com modo esquivo.
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—A saúde dela é melhor?
—Está melhor; está, está, respondeu Pereira muito secamente. Está boa...
vai fazer uma viagem...
—Viagem, para onde?... Até a vila?
—Homem; Mochu, observou o mineiro um tanto desabrido, vosmecê
está que nem mulher velha, tudo quer saber...
Meyer, nessa repreensão, que lhe causou vexame e alguma admiração, só
enxergou censura justa a sua curiosidade, falta que confessou com toda a
nobreza, embora agravando a situação.
—É verdade, Sr. Pereira, concordou ele. A boa educação não manda o
que eu fiz .. mereço, porém, desculpa, mereço... Sua filha é tão interessante...
que me lembro sempre dela... Tenho comigo uns presentezinhos...
—Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexão num acesso de tosse.
E para evitar o prosseguimento de semelhante assunto, deu por finda a
refeição, levantando-se da mesa.
— Aí vem o Coelho, doutor, exclamou ele olhando para fora. Xi! como
esta amarelo!... Há tempos que o não via... já parece alma do outro mundo... É
do tal em quem falamos... Aperte-o, porque é mofino como tudo...
E, interpelando a quem chegava gritou:
—Bons olhos o vejam!... Se não fosse, amigo Sr. Coelho, ter médico em
casa, nunca havéra de vê-lo por cá; não é verdade?
—Ora, respondeu o outro com um gemido, ando sempre tão doente.
Nem faz gosto viver assim... Mas qu'é dele, o homem?
—Está aqui...
—Já me disseram que faz milagres. Deixou nome para lá das Parnaíbas...
Sabia?
— Lá que tivesse deixado nome, não: mas que 6 cirurgião de patente,
tenho certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me pôs de pé uma pessoa cá
de casa.
—Se ele me curar... não sei mesmo como lhe agradecer.
—É pagar-lhe, concluiu Pereira, tratando logo de advogar os interesses
do hóspede.
—Sim, hei de... pagar-lhe, confirmou o outro com alguma hesitação.
—Em todo caso, desça do animal.
Pouco depois, entrava na sala e cumprimentava a Cirino e a Meyer a
pessoa a quem o mineiro chamara Coelho. Era homem já de idade, muito mais
82
quebrantado por enfermidades que pelos anos; tinha a testa enrugada, as
bochechas meio inchadas e balofas, os lábios quase brancos e os olhos
empapuçados.
—Qual dos senhores é o doutor? perguntou ele.
—Sou eu, respondeu Cirino, revestindo-se de convicto ar de
importância, enquanto Meyer apontava para ele, cedendo direitos que talvez
pudesse contestar.
Interveio Pereira com amabilidade:
—Sente-se, Sr. Coelho, sente-se. Não se ponha logo a falar de
moléstias... Isto não vai de afogadilho... Descanse um pouco... Olhe, já
almoçou?
—O pouco que como, retrucou o outro, já está comido.
—Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois então, converse com o
doutor... Diga-me: que há de novo pela vila?
—Que eu saiba, nada... Também há mais de ano que de lá nenhuma
noticia tenho... já não se me dá do que vai pelo mundo... Quem não goza saúde,
perde o gosto de tudo... E mesmo uma calamidade . . .
Enquanto Coelho, em toada monótona, desfiava outras queixas no
mesmo sentido, tirara Cirino da canastra o seu Chernoviz e algumas ervas secas
que depôs em cima da mesa.
—O senhor, declarou ele voltando-se para o doente, está empalamado..
—É verdade, Sr. doutor.
— Eu, que não sou físico, observou Pereira, diria logo isso...
—Xi, compadre! atalhou Coelho com impaciência e pedindo silêncio.
—O senhor, continuou Cirino com entono, teve maleitas muitos anos
afios depois começou a sentir fastio e o estômago embrulhado; inchou todo e em
seguida definhou... Aos poucos, foi perdendo a sustância e o talento.
—Tal qual! murmurou Coelho seguindo com cautelosa atenção a marcha
do diagnóstico.
—Agora, o Sr. não pode comer que não sinta afrontação, não 6?
—Muita, Sr. doutor.
—Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros . . .
—Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o Sr. anda, dão-lhe uns suores e
tremuras por todo o corpo... O baço está ingurgitado e o fígado também... De
noite fica o Sr. sem poder tomar respiração, mais sentado que deitado... As vezes
tosse muito, uma tosse sem escarrar, como quem tem um pigarro seco...
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—Tal qual! repetiu o enfermo com unção e quase entusiasmo.
—Pois bem, terminou Cirino, como já lhe disse, o Sr. está empalamado.
—E não há cura? perguntou Coelho meio duvidoso.
—Há, mas o remédio 6 forte
—Contanto que faça bem...
—Muita gente, replicou Cirino, tenho já curado em estado pior que o Sr.;
mas, repito, o remédio 6 violento...
—Tomarei tudo, afirmou Coelho: há anos que faço um horror de
mezinhas e de nenhuma delas tiro proveito. Vamos ver.
Cirino neste porto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:
—O Sr. sabe, observou ele que o meu modo de vida 6 este...
Com um movimento de cabeça aplaudiu o mineiro aquela entrada em
matéria.
O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:
—Ah!... Estou pronto... Sou pobre, muito pobre...
Piscou Pereira um olho com malícia.
—Costumo, continuou Cirino, receber o pagamento em duas ametades. .
.
Depois acrescentou, um tanto vexado:
—Se falo nisto agora com esta pressa, 6 porque também tenho precisão
urgente de dinheiro. . Não acha, Sr. Meyer?
—Pois não, pois não, concordou o alemão: tem todo o direito.
—Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo;
tem que ganhar honradamente a vida.
—Então, como lhe dizia, prosseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o
senhor pagar-me-á no principio da aplicação e no fim. Assim, não há enganos...
Serve-lhe?
—Que remédio! suspirou Coelho. Eu lhe darei... até trinta mil-réis... ou...
quarenta...
—Qual! retorquiu Cirino. O meu preço 6 um só.
—E a quanto monta?
—A cem mil-réis.
—Cem mim réis! exclamou Coelho aterrado.
—Cinqüenta no principio, cinqüenta no fim.
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Gemeu o doente lá consigo.
—Ora o que 6 isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho de
milho para quem tem tulhas cheias a valer!...
—Nem tanto, nem tanto assim, objetou Coelho.
—Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse bons
patacos, eu diria logo ao nosso amigo:—Olhe que este 6 dos nossos, não tem
onde cair morto — e ele havéra de curar de graça... não é?
—Decerto, decerto, declarou Cirino com muita prontidão.
—Mas com vosmecê o caso 6 defronte! Doutra maneira, por que razão
havia um cirurgião de andar por estes socavões? Também quer bichar um
pouco...
— É muito justo...
—Cinqüenta... mil... réis, balbuciava Coelho; assim de pancada. . .
—Se o médico o cura, disse Meyer intrometendo-se, 6 negócio da China.
Nada dizia Cirino por dignidade própria. Estava folheando o Chernoviz,
cujas páginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de notas
e observações à margem.
Assim no artigo opilação ou hipoemia intertropical havia ele escrito ao
lado: "E o que se chama no sertão moléstia de empalamado". E, no fim abrira
grande chave para encerrar esta ousada e peremptória sentença: "Todos estes
remédios de nada servem. Sei de um muito violento, mas seguro. Foi-me, há
anos, ensinado por Matias Pedroso, curandeiro da Vila do Prata, no sertão da
Farinha Podre, velho de muita prática e que conhecia todas as raízes e ervas do
campo".
—Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negócio
fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mezinhas, e as visitas
hão de ser feitas em minha casa...
—Não há duvida, concordou Cirino; irei à sua fazenda todos os dias...
Não é longe daqui?
—Nhor-não... duas léguas pequenas, pela estrada.
—Bem. O senhor, em voltando a casa, meta-se logo na cama.
Coelho fez sinal que sim.
—Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou
mostrando. Divida isto em duas porções; há de fazer-lhe muito efeito; depois
descanse dois ou três dias, se acaso se sentir muito fraco; em seguida:
E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:
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—O Sr. quer mesmo curar-se?
—Oh! se quero!
—E tem confiança em mim?
—Abaixo de Deus só mecê pode salvar-me.
—Então, tomará às cegas o que eu lhe receitar?
—Até carvão em brasa.
—Olhe bem o que diz . . Não gosto de começar a tratar para depois
parar...
—Não tenha esse medo comigo...
Viver como vivo, antes morrer...
—Então, continuou Cirino com pausa, acabados os dias de sossego, há
de o senhor engolir uma boa data de leite de jaracatiá.
— Jaracatiá?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.
—Jarracatiá ?! gaguejou por seu turno Meyer, arregalando os olhos, que
6 jarracatiá?
—Mas isso vai queimar as tripas do homem, observou o mineiro.
Cirino replicou um tanto ofendido:
—Não sou nenhum criançola, Sr. Pereira. Sei bem o que estou dizendo.
Este remédio 6 segredo meu, muito forte, muito daninho; mas não é nem uma,
nem duas vezes, que com ele tenho curado empalamados. A coisa está no modo
de dar o leite e na quantidade: por isso, é que não faço mistério, avisando
contudo que com uma porçãozinha mais do que o preciso, o doente está na
cova...
—Salta! atalhou Pereira, tal mezinha não quero eu... antes ficar
empalamado.
—Que é jarracatia? tornou a perguntar Meyer.
Coelho abaixou a cabeça e parecia estar refletindo na resolução que
havia de abraçar.
Depois, com voz melancólica:
—O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora,
quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá??
—Em tempo lhe direi, replicou Cirino. Fazem-se três cortes no pé da
árvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o que for
bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem sabe, ninguém
em negócio de doença, mais do que outro qualquer, pode nunca dizer: isto há de
ser assim ou assado... Todos estamos nas mãos de Deus. Só Ele pode saber se a
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moléstia nos sairá do corpo ou nos há de atirar à sepultura. Todo o bom cristão
conhece isto e deve conformar-se com a vontade divina... O que o médico faz 6
ajudar a natureza e dar a mão ao corpo quando ele pode ainda levantar-se...
—Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um
formoso coleóptero.
—Assim também é que eu entendo, disse o mineiro.
—Mas, o que é jarracatiá, Sr. Pereira? insistiu o alemão.
Voltou-se o interpelado com impaciência:
—E uma árvore, Sr Meyer, árvore grande, de folhas cortadas, que dá
umas espécies de mamõezinhos. Deitam leite muito grosso e queimam os beiços
quando a gente não tem cuidado. E uma árvore, ouviu? Uma árvore!
—Ah! exclamou o alemão concertando a garganta.
Nesta ocasião sacou Cirino da canastra outros remédios e passou-os a
Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de usar
deles.
—Tem muito enjôo, quando come? perguntou o curandeiro.
—Muito, Sr. doutor.
—Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a
apetência. Nos primeiros tempos, o senhor só há de beber claras de ovos bem
batidas. Depois, ira a pouco e pouco tomando mais alimento.
—Deus o onça...
Levantou-se Pereira e, chegando-se à porta, anunciou:
—Ai vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem
dúvida e algum pobre engorovinhado de doença. Isto de moléstias, não faltam
no mundo. Também há tanta maldade, que não pudera ser por menos.
Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e
aborrecimento.
—Hi meu Deus!... Nossa Senhora nos socorra... Sabem quem vem
chegando?... É o Garcia; está com o mal! há mais de dois anos e não quer crer na
desgraça... Pobre coitado, sem dúvida vem comprar o desengano... Tenho muita
pena dessa gente... mas, deveras, não a quero ver em minha casa... Vamos, Sr.
doutor, despache o Garcia depressa. Com lázaros não se brinca. A Senhora
Sant'Ana de tal nos livre! Nem olhar 6 bom.
E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:
—Não deixe o homem desapear, doutor: ficava-me depois o desgosto de
ter que lhe fazer alguma má-criação. Pelo amor de Deus vá lá fora... Veja o que
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ele quer... e dê-lhe boas tardes da nossa parte... Olhe, esta chamando... Sala,
doutor, saia!
Ouvia-se, com efeito, uma voz perguntar se estava em casa o Sr. Pereira.
Este, vendo que Cirino não se apressava à medida dos seus desejos, ou
temendo que o recém-chegado lhe entrasse na sala, sem demora apareceu à
soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde cumprimento
de chapéu e à meiga saudação que lhe era dirigida.
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XVII—O MORFÉTICO
O leproso. — Interesse? Ah! nunca inspirei senão compaixão...
O militar — Quão feliz fora eu se pudesse dar-vos algum consolo!...
( Xavier de Maistre, O Leproso de Aosta).
Não devo ter sociedade senão comigo mesmo, nenhum amigo, senão
Deus.
Generoso estrangeiro, adeus, se feliz. Adeus para sempre!
(Idem).
A pessoa que chegara, bem que tivesse descavalgado, não se adiantou ao
encontro do dono da casa. Pelo contrário como que recuou, conservando-se
depois imóvel, encostado a um burrinho, cujas rédeas segurava.
De seu lugar, perguntou-lhe Pereira com expressão não muito
prazenteiro:
—Então, como vai, Sr. Garcia?
— Como hei de ir, respondeu o interpelado. Mal... ou melhor, como
sempre.
—Pois esteja na certeza de que muito sinto.
—Está ai o cirurgião? indagou Garcia.
—Não tarda a vir vê-lo ai fora... Olhe, é um instantezinho.
Palavras tão cruéis não pareceram fazer mossa ao desgraçado.
— Esperá-lo-ei com toda a paciência, replicou melancólico.
—Já sei que volta hoje para casa, afirmou Pereira.
—Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.
—E verdade: lá há uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do
outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal-assombrado.
—Eu? exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quisesse um
defunto vir gracejar um pouco comigo, e de agradecido lhe beijava os dedos
roídos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto alta e
agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar em sua casa; não,
no seu caso havia de fazer o mesmo.
Oh! Sr. Garcia! quis protestar Pereira.
—Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha família sempre tivemos
nojo de lázaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi muitos anos meio
desconfiado... A ninguém contei o caso... De repente, arrebentou o mal fora. Já
89
não era mais possível enganar nem a um cego... Ah! meu Deus, quanto tenho
sofrido!...
—Permita Ele, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor
tenha algum remédio... Bem vê... às vezes...
—Curar a morféia? replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo.
Não há esse pintado... que em tal pense...
—Então para que quer ver o médico?
— Só para uma coisa... Saber pelos livros que ele tem lido e pelo
conhecimento das moléstias, se isto pega... É só o que quero... Porque então fujo
de minha casa. Desapareço desta terra... e vou-me arrastando até tombar nalgum
canto por ai... Dizem uns que pega... outros que não... que 6 só do sangue... Eu
não sei...
É, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco selim.
Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:
—Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus Cristo houver
determinado!... Se o médico me desenganar, não quero que a minha gente fique
toda... marcada... Irei para São Paulo...
Pereira cortou este doloroso diálogo:
—Está bem, patrício Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem. . .
espere um pouco. . .
E, entrando, reiterou o pedido a Cirino, que se demorara a receitar a
Coelho umas beberagens de velame e pés-de-perdiz, plantas muito abundantes
naquelas paragens, de grandes virtudes diuréticas e que deveriam ser
empregadas um mês depois da aplicação do leite de jaracatiá.
—Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fora ver o coitado do outro e
despache-o depressa. Estou todo enfernizado por vê-lo no meu terreiro.
Cirino saiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos do
mal-aventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contraiu enquanto tirava o
chapéu com submissão e receio.
Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepúsculo irradiava por toda a
parte, tão melancólica e suave que, sem saber por que, a alma de Cirino de
repente se confrangeu.
Com assombro o encarava o lázaro. Diante dele se erguera quem lhe ia
apontar o caminho da eterna proscrição. Dos seus lábios ia cair a sentença
última, irremediável, fatal!
Quanta angústia no olhar daquele homem! Que pensamentos sinistros!
Quanta dor!
90
Também ficara ali atônito, boquiaberto, à espera que a palavra de Cirino
lhe quebrasse o horroroso enleio.
—Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor? —
Doutor, balbuciou Garcia... primeiro que tudo quero... pagar-lhe;... trouxe
algum... dinheiro... mas, talvez... seja... pouco.
Interrompeu-o Cirino:
—Não recebo dinheiro para tratar... da sua moléstia.
—Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ela não tem
cura... Eu bem sabia, mas. . é tão duro ouvir sempre isso!. . Olhe, o meu mal 6
de pouco . . . está em principio. Quem sabe... se o Sr. não conhecerá alguma
erva?...
— Infelizmente, respondeu Cirino, nem eu, nem ninguém conhece essa
planta...
—Enfim!
E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças,
continuou:
—Ah! doutor, eu sou um pobre homem... velho já cansado... Por que não
me velo a morte em lugar desta podridão que me esta comendo as carnes?...
Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, até ao dia em que minha neta... a
filha do meu coração.. a Jacinta. . . ela mesma, mostrou certo receio de me
abraçar . . Ah! senhor, quanto se sofre nesta vida!
E Garcia parou ofegante, empalidecendo muito.
—Dê-me água, exclamou ele, água... pelo amor de Deus!... Pudesse
agora... ser o meu dia... A minha garganta... está que nem fogo! . . .
E agarrou-se aos arreios para não cair no chão.
Cirino correu a buscar água.
—Onde há de ser? perguntou Pereira.
—Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquele cristão
está sofrendo...
—Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...
Com sofreguidão tomou o lázaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu
melhorar.
—Foi um vagado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe
contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e vou-me de
partida. Esse mal... pega, doutor?
91
—Pega, afirmou Cirino com tristeza.
—E que me resta fazer?
—Pedir à Senhora Sant'Ana paciência e a Nosso Senhor Jesus Cristo. .
Garcia abanava a cabeça acabrunhado.
...que o proteja na sua vida de desgraças.
—Meu Deus, balbuciou o morfético a meia voz, dai-me forças...
coragem para que eu faça o que devo fazer.
E, com súbita resolução:
—Cumpra-se a vontade do Altíssimo! exclamou, enfim. Doutor,
obrigado! O pobre lázaro há de pedir ao Todo-Poderoso que neste mundo e no
outro lhe pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para
as terras de São Paulo... Talvez me junte à gente da minha espécie Adeus...
E, a custo montando a cavalo, voltou-se para as pessoas que tinham de
longe vindo assistir à consulta.
— Adeus, disse ele acenando com o chapéu, gente e patrícios. Sr.
Pereira, Sr. Coelho, mais senhores, adeus! Eu me boto de uma feita para lá das
Parnaíbas. . . Este sertão não me vê mais nunca!,
Acolheu o silêncio essas palavras de eterna despedida.
Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a
passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho,
quando já vinha a noite estendendo o seu lúgubre manto.
92
XVIII—IDÍLIO
Mas, que luz e essa que ali aparece naquela janela? A janela é o Oriente
e Julieta o Sol. Sobe, belo astro, sobe e mata de inveja a pálida lua.
(Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato II).
Entretanto, desde algum tempo, sentia-se Virgínia agitada de mal
desconhecido... Em sua fronte, não pousava mais a serenidade, nem o sorriso lhe
pairava nos lábios... Pensa ela na noite, na solidão, e logo devorador a abrasa
toda.
(B. de Saint-Pierre, Paulo e Virgínia).
Decorreram sem novidade dias e dias uns após outros; Cirino
diagnosticando e curando ou melhor, receitando; Meyer aumentando cada vez
mais a sua bela coleção entomológica, sempre feitorizado por Pereira, que
cautelosamente tratava de mantê-lo no suspeito círculo da sua apertada
vigilância.
Confidente de todos os infundados e mal empregados receios era Cirino.
—O alamão, dizia o mineiro, não me deixa pôr pé em ramo verde, mas
também trago-o vigiado que é um gosto... Se desconfiasse, teria medo até da sua
sombra... Estou em brasas... Não sei por que não chega o Manecão Doca...
Quero arriar a carga no chão... Agora, mais do que nunca, devo casar
Nocência... Estas mulheres botam sal na moleira de um homem. Salta! E ainda
isto tudo não 6 nada.
—Então espera muito breve o Manecão? perguntou o outro com
ansiedade.
—Não pode tardar... por estes dois ou três dias quando muito... Vem de
Uberaba e sem dúvida por lá arranjou todos os papéis... Dei a certidão do meu
casamento... a do batismo da pequena... e adiantei dinheiro para as despesas...
bem que ele refugasse meio vexado.
— Então está tudo decidido? perguntou Cirino com vivacidade.
—Boa dúvida!... Já lhe tenho dito mais de uma vez. Hoje é coisa de
pedra e cal... Se até trato o Manecão de filho... A honra desta casa 6 também
honra dele.
—Mas sua filha?
— Que tem?
—Gosta dele?
—Ora se!. . Um homenzarrão... desempenado. E, quando não gostasse, é
vontade minha, e está acabado. Para felicidade dela e, como boa filha que 6, não
93
tem que piar... Estou, porém, certíssimo de que o noivo lhe faz bater o coração...
tomara ver o cujo chegado!
Já nesse tempo, como dissemos, Inocência de todo se restabelecera,
ainda que Cirino tivesse feito quanto possível render a enfermidade. Mas,
quando o rubor da saúde voltou à acetinada cútis da sertaneja e 0 vigor ao
esbelto corpo, não houve pretexto a que se apegar, e as entrevistas curtas e
graves de médico foram cortadas, até mesmo para não desviar a atenção de
Pereira da pessoa de Meyer.
Com o coração, pois, partido de dor, declarou que os e eus cuidados e
presença se tornavam completamente desnecessários.
Seguiram-se então semanas inteiras, sem que pudesse por os ansiosos
olhos na formosa namorada, e por tal modo se exacerbou a sua paixão que, para
encobri-la c disfarçar a excitação nervosa, a falta de apetite e palidez extrema,
teve que recorrer a desculpas de moléstia; caiu realmente doente.
A incerteza em que se via, sem, pelo menos, saber se o seu afeto era ou
não correspondido, dava-lhe acessos de violenta angústia, que a desoras tocava
às ratas da exasperação.
Uma noite, em que havia luar embaciado por ligeira bruma, tomou a sua
aflição tal violência que ele decidiu fugir daquele local de sofrimentos e
incertezas, logo na manhã seguinte.
Assente uma vez nesta resolução, ergueu-se do leito em que jazia
prostrado pelo mais cruel desalento e, com algum custo, saiu para o terreiro,
abrindo cautelosamente a porta da casa, a fim de não acordar os companheiros
de quarto. Uma vez fora, sentou-se num tronco de madeiro e ali ao ar fresco e
acariciador da madrugada, entrou com mais tranqüilidade a pensar no caso.
Seria uma hora depois de meia-noite.
Estavam os espaços como que iluminados por essa luz serena e fixa que
irradia de um globo despolido; luz fosca, branda, sem intermitências no brilho,
sem cintilações, e difundida igualmente por toda a atmosfera.
Haviam j á os galos cantado uma vez, e, ao longe, muito ao longe, de vez
em quando, se ouvia o clamor das anhumapocas.
Levantou-se de repente Cirino.
Depois de alguma vacilação, deu uma volta por toda a habitação,
pulando os cercados, e tomou o ramo do frondoso laranjal, a cuja espessa
sombra se abrigou por algum tempo. Achegou-se, em seguida, à cerca dos
fundos da casa e parou no meio do pátio, olhando com assombro para uma
janela aberta.
Um vulto ali estava!... Era o dela; Inocência.. Não havia duvidar.
94
A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi
retirando e aos poucos fechou o postigo.
Cirino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas
pancadas na tábua da janela.
—Inocência!... Inocência!... chamou com voz sumida, mas ardente e
cheia de súplica.
Ninguém lhe respondeu.
—Inocência, implorou o moço, olhe... abra, tenha pena de mim... Eu
morro por sua causa...
Depois de breve tempo, que para Cirino pareceu um século, descerrou-se
a medo a janela, e apareceu a moça toda assustada, sem saber por que razão ali
estava nem explicar tudo aquilo.
Parecia-lhe um sonho.
Quis, entretanto, dar qualquer desculpa à situação e, fingindo-se
admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:
—Que vem... mecê... fazer aqui?... já... estou boa.
Da parte de fora, agarrou-lhe Cirino nas mãos.
—Oh! disse ele com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou
morrer... porque você me enfeitiçou, e não acho remédio para o meu mal.
—Eu... não, protestou Inocência.
—Sim... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me
queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo... o que só quero 6 vê-la...
6 amá-la, não conheço mais o que seja sono e, nesta semana, fiquei mais velho
do que em muitos anos havia de ficar... E tudo, por quê, Inocência?
—Eu não sei, não, respondeu a pobrezinha com ingenuidade. —Porque
eu amo... amo-a, e sofro como um louco... como um perdido.
—Ué, exclamou ela, pois amor 6 sofrimento?
—Amor é sofrimento, quando a gente não sabe se a paixão é aceita,
quando se não vê quem se adora; amor é céu, quando se está como eu agora
estou,
—E quando a gente está longe, perguntou ela, que se sente?... —Sente-se
uma dor, cá dentro, que parece que se vai morrer.. Tudo causa desgosto: só se
pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas do dia e da noite no sono, na
reza, quando se pede a Nossa Senhora, sempre ela, ela, ela!... o bem amado... e...
—Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo... —Você?
indagou Cirino sofregamente.
95
—Se é como... mecê diz...
—É é... eu lhe juro!...
—Então... eu amo, confirmou Inocência.
—E a quem?... Diga: a quem?
Houve uma pausa, e a custo retrucou ela ladeando a questão:
—A quem me ama.
—Ah! exclamou o jovem, então 6 a mim... é a mim, com certeza, porque
ninguém neste mundo, ninguém, ouviu? é capaz de amá-la como eu... Nem seu
pai... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu coração... Se quer ver-me
fora deste mundo... diga que não sou eu, diga!...
—E como ia mecê morrer? atalhou ela com receio.
—Não falta pau para me enforcar, nem água para me afogar.
—Deus nos livre! não fale nisso... Mas, por que 6 que mecê gosta tanto
de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem conhecido
sequer... Eu lhe vi apenas pouco tempo... e tanto se agradou de mim?
—E com você... não sucede o mesmo? perguntou Cirino.
—Comigo?
—Sim, com você... Por que 6 que está acordada a estas horas? Por que é
que não pode dormir?... que a cama lhe parece um braseiro, como a mim
também parece?... Por que pensa em alguém a todo o instante? Entretanto, esse
alguém não 6 primo seu, longe que seja, nem conhecido sequer?...
—É verdade, confessou Inocência com doce candura.
Depois quis emendar a mão:
—Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?
—Inocência, implorou o moço, não queira negar, vejo que sou amado . .
.
—Sempre amar! observou ela, mais para si do que para quem a ouvia.
No ano que já passou e por ocasião da Sra. Sant'Ana, aqui vieram umas parentas
minhas e caçoaram comigo, porque eu não as entendia: tanto assim que uma
delas, a Nhã Tuca, me disse: "Deveras, mecê ainda não gostou de nenhum
moço? E eu respondi: Não assunto o que mecês estão a prosear". Aquilo era
certo, e tão verdade como estar nosso Deus no paraíso... Hoje...
—E hoje?
—Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter
nunca gostado de ninguém?
—Isso não está na gente. . . É ordem lá de cima. . .
96
—Enfim, se for destino, que se cumpra.
Conservava-se Inocência ainda um pouco arredada da janela, de modo
que Cirino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de dentro.
Segurava as mãos da namorada e puxava-a com doce violência, quando
mostrava querer afastar-se.
Era o ardente colóquio dos dois cortado de freqüentes pausas, durante as
quais se embebiam recíprocos os olhares carregados de paixão.
—Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cirino a Inocência Para mim, é
muito mais belo que a Lua e tem mais brilho que o Sol.
E, apesar de alguma resistência, fraca embora, mas conscienciosa, que
lhe foi oposta, conseguiu que a formosa rapariga se recostasse ao peitoril da
janela.
—Amar, observou ela, deve ser coisa bem feia.
—Por quê?
—Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!... Cá dentro me diz um
palpite que é pecado mortal que faço...
—Você tão pura! contestou Cirino.
— Se alguém viesse agora e nos visse, eu morria de vergonha. Sr.
Cirino, deixe-me . . . vá-se embora! . . . o Sr. me atirou algum quebranto...
aquela sua mezinha tinha alguma erva para mim tomar... e me virar o juízo...
— Não, atalhou o mancebo com força, eu lhe juro! Pela alma de rainha
mãe... o remédio não tinha nada!
—Então por que fiquei... ansim, que me não conheço mais?... Se papai
aparecesse... não tinha o direito de me matar?...
Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e sumiu-se num golfão de
lágrimas.
Atirou-se Cirino de joelhos diante dela.
—Inocência, exclamou, pela salvação de minha alma lhe dou juramento,
nada de mau fiz para prender o seu coração.. Se você me quer, e porque Deus
assim mandou... Sou um rapaz de bons costumes . Ate hoje nunca tinha amado
mulher alguma... mas não sei como deixar de amar uma moça como você...
Perdoe-me; se você sofre... eu também padeço muito... perdoe-me...
Alçara o mancebo um pouco a voz.
De repente Inocência estremeceu.
—Não ouviu ruido? perguntou ela com terror.
—Não, respondeu Cirino.
97
—Alguém acordou lá dentro...
—Pois... então vá ver... o que é... e se não for nada, volte... Aqui a
espero, escondido à sombra da parede...
Minutos depois, reapareceu a moça.
—Não vi nada, disse.
— Então foi abusão.
—É melhor que o Sr. se vá embora.
—Não, Inocência tenha pena de mim... Eu não poderei vê-la tão cedo e...
preciso conversar... mesmo para arranjo da nossa vida. . O Manecão não tarda...
—Ah! exclamou ela com sobressalto, então mecê sabe...
—Sei; e desgraçadamente, breve está ele batendo aqui...
—Eu bem dizia que o Sr. me havéra de perder... Antes de o ter visto...
casar com aquele homem, me agradava até... Era uma novidade... porque ele me
disse que me levava para a vila... Mas agora esta idéia me mete horror! Por que
6 que mecê mexeu comigo? Sou uma pobre menina, que não tem mãe desde
criancinha... Não há tanta moça nas cidades... nos povoados?... Por que veio tirar
o sono... a vontade de viver a quem era .. tão alegre... que até hoje não pensou
em maldade... e nunca fez dano a ninguém?
—E eu? replicou com energia Cirino, pensa então que sou feliz?... Olhe
bem uma coisa Inocência: Digo-lhe isto diante de Deus: ou hei de casar com
você... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim... foi o meu
caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquele homem, que odeio, que
quisera matar... nada impediria que eu fosse hoje o ente mais feliz do mundo!...
Mais feliz aqui neste sertão, do que o Imperador nos seus paços lá na corte do
Rio de Janeiro! Eu já lhe disse... culpa não tive...
—Não há nada que nos possa salvar, atalhou a moça.
—Nada?... Talvez...
Soou nesse momento, e repentinamente, do lado do laranjal um assobio
prolongado, agudíssimo, e uma pedra, arremessada por mão misteriosa e com
muita força, sibilou nos ares e veio bater na parede com surda pancada,
passando rente à cabeça de Cirino.
Deu Inocência abafado grito de terror e fechou rapidamente a janela, ao
passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra, resoluto
correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.
Não viu ninguém.
Por toda a parte, o ruído misterioso e peculiar a uma noite calma de
verão.
98
Percorreu em todos os sentidos o pomar, e só ouviu a bulha dos seus
passos.
Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente se dirigiu para o
terreiro da frente.
Quando lá chegou, parou atônito.
O mesmo assobio, prolongado e finíssimo, desta feita talvez mais
estridente, feriu-lhe os ouvidos.
99
XIX—CÁLCULOS E ESPERANÇAS
Apesar, porém, de jovem, apesar da violência do amor que a prendia a
Julião, sabia ela conter 06 movimentos do coração e desconfiar de si mesma.
(Walter Scott, Peveril do Pico)
Lisa. — Contento que tenhas bastante resolução...Lucinda.— Que queres
que eu faça contra autoridade de um pai?Se ele for inexorável aos meus
pedidos?...
(Molière, 0 Amor Medico).
Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quais não tinham
limites nem vizinhos dali a muitas léguas, aumentou Meyer a sua interessante
coleção com extraordinária variedade de bichinhos e sobretudo borboletas.
Tal era a alegria de que se possuíra por esse fausto motivo, que a cada
momento a manifestava num tom de franqueza capaz de por si 80 convencer o
mais descrente dos homens em questão de sinceridade.
—Sr. Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do
Brasil estive ainda tão bem como em sua casa.
—Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.
—Deveras!... Só o que sinto 6 que sua filha não nos aparecesse mais...
Sinto muito, na verdade...
Sorriu-se Pereira com riso amarelo e replicou, apertando os punhos de
raiva:
—Mochu sabe. isto são costumes cá da terra. As mulheres não são feitas
para...
— Para quê? perguntou Meyer com pausa.
— Para prosearem com qualquer um...
—Que é prosearem?
—É conversar, dar de língua, explicou Cirino.
— Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquela
indicação filológica que foi imediatamente enriquecer o seu caderno de notas.
Prosear e conversar. Muito bem!. . Pois é pena, Sr. Pereira, porque sua filha é
uma bonita senhora!
—Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei de toda a vida andar com
olho em ti, murmurava o mineiro.
—E pena, confirmava Meyer duas e três vezes .. é pena...
Por certo não era esta a linguagem mais própria para desvanecer as
prevenções e receios de Pereira; ao invés, mais e mais recrescia a sua vigilância
100
sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a liberdade de que
carecia para tornar a ver o mal guardado tesouro.
Não foi todavia sem custo a nova conferência.
Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira
entrevista, que, por alguns dias, mal saia do quarto.
Escrever-lhe Cirino, era de todo inútil, por isso que ela nunca aprendera
a ler; e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar às mãos qualquer papel ou
recado?
Sobravam, portanto, razões para que o jovem se ralasse de impaciência e
quase desesperasse da sorte.
Passava as noites em claro, metido no laranjal e procurando uma solução
a tanta dificuldade; atordoavam-no ainda aqueles dois assobios que não podia
explicar e sobretudo aquela pedrada tão bem dirigida, que por pouco talvez o
houvesse estendido por terra.
Numa dessas noites de ansiedade, viu afinal reabrir-se a janela de
Inocência
A pobrezinha, abrasada também de amor, queria respirar o ar da noite e
beber na viração do sertão um pouco de tranqüilidade para sua alma não afeita
ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe? verificar se por ai
não andava rondando aquele que no seio lhe inoculara tamanho desassossego,
ímpetos tão desconhecidos e violentos, superiores a todas as suas tentativas de
resistência.
Cirino, rápido como uma seta, rápido como aquela pedra arrojada tão
vigorosamente, achou-se ao pé da janela e cobriu de beijos as mãos da sua
amada.
—O grito? balbuciou ela. Dois gritos... e a pedrada... Que foi?
—Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cirino; foi ver no
laranjal... era um macauã O que pareceu pedrada era um noitibó que frechou
para mim e veio dar com a cabeça na parede.
—Deveras? perguntou ela incrédula.
—Deveras. A principio tomei também um grande susto. Depois,
verifiquei que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê
maravilhas... Para mim, a única que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...
Com este madrigal encetou Cirino uma conversação como a da primeira
noite, como a que balbuciam duas cândidas almas na eterna e sempre nova
declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram. a sombra das
maravilhosas árvores do Éden.
101
Mostrou-se o moço receoso da rivalidade de Meyer. Riu-se ela e
gracejou, com espírito e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a
confiança, chegou a idear planos de risonho futuro:
—Agora, que sei o que é amar, direi a meu pai que já não quero o
Manecão, ..
— E se ele insistir?
— Hei de chorar .. chorar muito...
— Lágrimas, muitas vezes, de nada servem.
—Mas tenho cá comigo outro recurso...
— Qual é ? perguntou Cirino.
— Morrer! . . .
—Não! Há outros... hei de dizer-lhe...
Tomou Inocência ar grave e meio ofendido.
—Escute, Cirino, observou ela, nestes dias tenho aprendido muita coisa.
Andava neste mundo e dele não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho
por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a
enxergar melhor... Ninguém me disse nada; mas parece que a minha alma
acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter
medo de mecê porque pode botar-me a perder... Não formo juízo como, mas á
minha honra e a de toda a minha família estão nas suas mãos...
Inocência quis interromper Cirino.
—Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois
ficarei sossegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados, nunca li em
livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o magoar, desculpe,
será sem querer... Lembra-me que, há já um tempão, pararam aqui umas
mulheres com uns homens e eu perguntei a papal por que é que ele não as
mandava entrar cá para dentro, como é de costume com famílias... O pai me
respondeu: —Não, Nocência,, são mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei
muito assombrada.—Mas, então, melhor, se são alegres hão de divertir-me.—
Aquilo 6 gente airada, sem-vergonha, secundou ele. —Tive tanto dó delas que
mecê não imagina. Depois fui espiar.. caíam tontas no chão... pitavam e
cantavam muito alto com modos tão feios, que me fizeram corar por elas! E são
os homens que fazem ficar ansim as coitadas!... Antes morrer... Parece-me que
Nossa Senhora há de ter pena dos que amam... mas desampara com certeza os
que erram... & não houver outro remédio, temos que nos lembrar que as almas,
quando se acaba tudo neste mundo, vão, pelos céus cheios de estrelas, passeando
como num jardim... Se eu me finasse e mecê também, punha-se a minha alma a
correr pelos ares, procurando a de mecê procurando, procurando, e então nós
dois juntinhos íamos viajando ora para aqui, ora para ali, às vezes pelo carreiro
102
de São Tiago, as vezes baixando a este ermo a ver onde é que botaram os nossos
corpos... Não era tão bom?
Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se
Inocência com exaltamento e sem reserva a força da paixão. E essa natureza
pudica e delicada a tal ponto dominava a Cirino que invencível acanhamento o
prendia ante a débil donzela, alheia a todos os mistérios da existência.
Por isso, ao inflamado mancebo não acudia a idéia de saltar por aquela
janela e menos a de praticar qualquer ação desrespeitoso. Consumia o tempo em
beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de amor, protestos, juras e ilusões
de futuro.
—Amanhã, dizia Cirino, hei de, com cuidado, assuntar a seu pai..
falando no seu casamento... depois... hei de virar a conversa para mim...
—Papai, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um
medo dele! Tem um gênio meu Deus!...
—Quanto a mim... hei de falar bem claro e explícito... O que quero, é
que você me seja constante.
Mas do sentimento de temor, que sobressaltava Inocência, também
participava Cirino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na melindrosa
questão, bem que as continuas queixas de Pereira contra
87
Meyer lhe dessem ensejo mais ou menos favorável para
desembaraçadamente encetá-la. Com gosto adiava o momento decisivo e
esperava perplexo qualquer incidente, que melhor servisse a seus planos,
Entretanto, apesar de se acumularem os dias sem que trouxessem
modificações naquele estado de coisas, doce esperança pairava no fundo do seu
coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e feliz desenlace às dúvidas
e sofrimentos em que vivia.
103
XX—NOVAS HISTÓRIAS DE MEYER
Disse-me Sancho:Cada qual abra bem o olho e fique alerta, porque o
diabo entrou na dança e se lhe deram ensejo, ver-se-ão maravilhas. Virai-vos em
mel, e as moscas vos comerão
(Cervantes, D. Quixote, Cap. XLIX).
Uma ocasião, de volta do trabalho diário, atingiu a habitual irritação
Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara cabisbaixo, sorumbático e fez
gesto a Cirino de que precisava falar-lhe a sós. Dali a pouco, saindo ambos,
caminharam silenciosos pela estrada ate a um regato que ficava a meio quarto de
légua da casa.
—Que terá este homem hoje? dizia Cirino consigo mesmo. Talvez vá
chegando o momento de tratar do assunto.
Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada, prorrompeu em
exclamações:
—Sabe, doutor, que não posso mais aturar esse alamão?... Aquilo é um
mandingueiro, uma suçuarana, vinda do inferno para me botar a perder!... Meu
irmão... meu irmão, que presente me fez você! . . .
—Mas, que houve? perguntou Cirino.
—Olhe... se não fosse aquela carta, e a palavra que dei ao maldito... mil
raios o partam, surucucu do diabo! potro melado!... já um bom balázio lhe teria
varado os miolos.
—Que novidades há então, Sr. Pereira? tornou a inquirir Cirino.
—Vim mesmo ate aqui para tirar este peso do coração...
—Mas...
—Sabe o senhor que aquele Mochu é pior que um tigre preto?... Parece
homem à-toa, um punga, incapaz de matar uma pulga, não é?... Pois aquilo é
uma alma danada... um sedutor...
—Sempre as suas desconfianças! observou Cirino.
—Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem
todo o dia... estar a lembrar-se da menina..- Procurar trazê-la a conversa?—
Como está sua filha? pergunta-me ele sempre. —Esta boa, de uma vez para
todas. E ele, toda a vida a insistir... Isto me põe o sangue a ferver, mas vou-lhe
respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de seus cuidados e disse-me
como quem toma leite com farinha de milho: —Sua filha vai casar?—Vai,
respondi-lhe todo trombudo. — Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da
tua conta, seu bisbilhoteiro, seu biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é
meu hóspede, secundei-lhe enfarruscado: com um homem do sertão que há de
amolar a faca na pele da barriga do mariola que vier mexer com a mulher dele.
104
O alamão não se deu por achado e, com todo o sem-vergonhismo, me retrucou:
Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa e deveria casar com alguém
da cidade.—Então, perdi a paciência: Mochu, lhe disse, cada um manda em sua
casa como entende: eu na minha, não quero ser anarquizado; ele, quando me viu
fulo de raiva, pediu-me mil desculpas, contou-me muitas histórias, isto, aquilo,
aquilo outro, et coetera e tal, que era para bem de minha filha e não sei mais o
que, numa língua que pouco entendi...
— Não fez bem, atalhou Cirino.
—Boa dúvida! Aquilo é uma alma danada... boa para as caldeiras de
Pedro Botelho, um judeu... enfim, um caçador de anicetos: está dito tudo! . . .
Mas ainda não lhe contei o mais. . . Parece que hoje estava mesmo com o diabo
no corpo... Meteu-se no mato perto da minha roca, onde eu trabalhava com os
meus cativos, e lá fazia um barulhão a quebrar galhos e romper o cipoal como se
fosse anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o
camarada José Pinho a berrar como dois minhocões. Corri a ver o que era e os
achei muito contentes a olhar para uma barboleta grande já fincada num pau de
pita. 0 alamão pôs-se a pular como um cabrito.
—É novo, me disse ele, é novo! —Novo o que, Mochu?—Este bicho,
ninguém o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe
o nome de sua filha!...
Quando ouvi aquilo, fiquei tão passado, que não pude engolir o cuspo da
boca... Vejam só... o nome de Nocência numa bicharada!. Até parece
mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos
desabafar... Não posso meter uma bala naquele patife como bem merecia... mas
também e demais tê-lo em casa... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente,
sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrário
como mulher que é, havéra de me dar que fazer... Também não sei por que é que
o Manecão não chega... só ele é quem havia de me livrar destes apuros... Uma
vez que o tal alamão visse a rapariga com o noivo, deixava-a sossegada... Não
acha? Olhe, palavra de honra, isto ansim não é viver! Fui feito para dizer o que
penso, tratar bem a todos. .. mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe
quanto me custam... Até o meu serviço vai sofrendo, porque muitas vezes largo
a roga e ponho-me a correr atrás dos bichinhos, só para não deixar de olho o tal
marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu fazendeiro é um
diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão, que carga você me pôs em cima das
costas! Eu então, que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...
E Pereira, de tão atribulado que trazia o espírito deixou-se cair num
cômoro de terra.
Cirino, defronte dele, ficara de pé e pensativo.
105
Afinal, depois de breve dúvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave
questão que lhe importava a felicidade.
—Sr. Pereira, disse bastante comovido, acho que o alemão faz mal em
andar batendo língua em pessoa da sua família e dou razão às suas
inquietações...
—Ah! vosmecê é homem de confiança.
—Mas, continuou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que
num ponto tem ele alguma razão... É quando... lhe deu... conselho... que o
senhor não casasse sua filha... assim... sem perguntar a ela... se... enfim não sei...
mas talvez o Manecão lhe não agrade...
Ergueu-se Pereira de um pulo e, aproximando a face, repentinamente
incendida de cólera, junto ao rosto de Cirino:
—O quê? exclamou com voz de trovão, eu... consultar minha filha?
Pedir-lhe licença... para casá-la?... O senhor está doido?... Ou está mangando
comigo... Ai... que também...
E vago lampejo de desconfiança lhe iluminou a chamejante pupila.
Compreendeu logo Cirino a perigosa situação e, sem demora, tratou de
desfazer a má impressão que produzira.
—Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da cidade...
aqui, no sertão, há outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr. Pereira, este
Meyer é que está a contundir-me todas as idéias. Pois eu julgo... já que pede a
minha opinião, que o senhor deve continuar a ter olho no estrangeiro... e eu hei
de ajudá-lo, quanto estiver nas minhas forças.
—Também agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não há de ser
por muito tempo... Há mais de um mês que ele aqui pára e já me... contou que
breve segue viagem para Camapuã....Desenganou-se afinal... O tal meco não
chegará ate lá... mas é o mesmo. Um destes dias, leva por ai algum tiro para lhe
botar juízo na cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas a mostra... Nem
sempre há de ter cartas de irmão para sair-se bem da rascada... O diabo o leve
para longe!... Voltemos, Sr. Cirino... Já demais temos deixado o bicharoco
sozinho,
E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cirino. Ia este
desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as esperanças que o
haviam animado na tentativa de oposição ao projetado casamento da amada com
o terrível e fatal Manecão.
Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe
peremptoriamente:
106
—Deveras, Sr. Cirino, aquelas suas palavras me buliram com o sangue
todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que idéias estúrdias!... Que lembrança!
Ah... a tal vida das cidades... cruzes!
107
XXI—PAPILIO INNOCENTIA
Considerai a arte da composição das asas da borboleta: a regularidade da
escamas, cobrindo-as como se fosse penas; a variedade das cambiantes cores: a
tromba enrolada, com que suga o alimento no seio das flores : as antenas, órgãos
delicados do tato, que lhe coroam a cabeça, cercada de uma rede admirável de
mais de mil e duzentos olhos...
(Bernadin de Saint-Pierre. de Saint-Pierre, Harmonias d. Natureza).
Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas
encolhidas, ergueu-se precipitadamente ao avistar Cirino e correu ao seu
encontro.
Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triunfo.
—Oh! Sr. doutor, exclamou. todo risonho, venha, venha ver uma
preciosidade. .. uma descoberta. .. espécie nova. :. não há em parte alguma...
Ouviu? Coisa assim vale um tesouro... E fui eu que o descobri!... Nem sequer
Juque me ajudou... pois estava deitado e dormindo... Não é verdade, Sr. Pereira?
—Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz ele com o tal aniceto...
Ao menos, se fosse um animal grande!
—E uma espécie... nova... completamente nova! Mas já tem nome...
Batizei-a logo... Vou-lhe mostrar... Espere um instante...
E, entrando na sara, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de
folha-de-flandres, que trazia com toda a reverencia e cujo tampo abriu
cuidadosamente.
Da própria garganta saiu um grito de admiração, que Cirino
acompanhou, embora com menos entusiasmo.
Pregada em larga tábua de pita, via-se formosa e grande borboleta, com
asas meio abertas, como que disposta a tomar vôo.
Eram essas asas de maravilhoso colorido; as superiores, do branco mais
puro e luzidio; as de baixo, de um azul metálico de brilho vivíssimo.
Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais belos lepidópteros das
matas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adônis, estes, azuis como cerúleo
cantinho do céu, aqueles, alvinitentes como pétalas de magnólia
recém-desabrochada.
Era sem contestação lindíssimo espécime, verdadeiro capricho da
esplêndida natureza daqueles paramos. Também Meyer não tinha mão em si de
contente.
—Este inseto, prelecionou ele como se o ouvissem dois profissionais na
matéria, pertence à falange das Helicônicas. Denominei-a logo, Papilio
Innocentia, em honra à filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão bom
108
tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sábio Linneu —e Meyer levou a
mão ao chápeu—mas mas a sua classificação já está um pouco velha. A classe
e, pois, Diurna; a falange, Helicônia; o gênero Papilio e a espécie, Innocentia,
espécie minha e cuja glória ninguém mais me pode tirar... Daqui vou, hoje
mesmo, oficiar ao secretário perpétuo da Sociedade Entomológica de
Magdeburgo, participando-lhe fato tão importante para mim e para a sábia
Germânia.
Dizia Meyer tudo isto com legítima ufania e lentidão dogmática.
Depois, com mais volubilidade, e apesar de tropeçar amiudadas vezes
em palavras, o que, para comodidade dos leitores, temos quase sempre deixado
de indicar, continuou:
—Reparem, meus senhores, neste lepidóptero com os olhos cuidadosos
da ciência. Tem quatro pés caminhantes: as antenas de terminação comprida e
oval, cavada em forma de colher; os palpares maiores do que a cabeça e
escamosos; tromba toda branca e lábio quase nulo. Não perdi nem sequer um
pouco do seu pó, porque o pó, um só grão de pó, vale tanto como uma pena de
pássaro, e a comparação é perfeita, visto como cada uma destas escamas, à
semelhança das penas, é atravessada por uma traquéia, por onde circula o ar.
Oh! que achado! prosseguiu ele. Que triunfo para mim! A Sociedade
Entomológica de Magdeburgo há de ficar muito orgulhosa... Sem dúvida alguma
farão uma sessão solene, extraordinária. Mein Gott!... Estou que não posso de
alegria... Também, daqui a três ou quatro dias, vou-me embora desta casa...
ainda que cheio de saudades. . .
Deveras? atalhou Pereira, vai partir?
—Sim, senhor. O meu itinerário é para Camapuã; depois. vou a Miranda
e talvez Niac... Hei de subir até ao Coxim e ai, ou embarco para Cuiabá no Rio
Taquari, ou sigo por terra pelo Pequiri.
—E o senhor volta para sua pátria?
—Boa dúvida!... Daqui a ano e meio, pretendo apresentar a minha
coleção toda arranjada à Sociedade Entomológica...
—Homem, observou Pereira com intenção que seu hóspede não podia
nem de leve perceber, eu quisera já estar nesse dia. Daqui a ano e meio, que
voltas terá dado o mundo?...
—Terá percorrido, respondeu Meyer gravemente, dezoito signos do
Zodíaco
—Pois bem, eu queria ver isso... Já me tarda esse dia.
—Quando ele chegar, continuou o alemão com sinceridade e um tanto
comovido, hei de lembrar-me com gratidão do tratamento que recebi... nos
109
sertões do Império... e hei de dizer... bem alto... que os brasileiros:.. são felizes
porque são morigerados e têm muito boa Índole hospitaleiros como ninguém.
—Acrescente, interrompeu Pereira com algum azedume, que zelam com
todo o cuidado a honra de suas famílias.
Obedeceu docilmente Meyer e repetiu palavra por palavra.
—E zelam com todo o cuidado a honra de suas famílias.
—Multo bem, replicou o mineiro, diga isso, e o Sr. terá dito uma
verdade.
110
XXII — MEYER PARTE
Adeus, pois amigos bela companhia! Aos lares distantes cada qual de
nós, por caminhos diversos. deve um dia chegar.
(Catulo, Epigrama XLVI)
Não haviam descontinuado as visitas feitas a Cirino por enfermos de
muitas léguas em torno. Tão freqüentes e teimosos eram os casos de sezões ou
maleitas que a porção de sulfato de quinina que trouxera em suas canastras
estava toda esgotada, pelo que se vira levado a substituir esse medicamento sem
tanta confiança, porém, por plantas verdes do campo ou ervas secas, fornecidas
por uns bolivianos que encontrara em Minas, vindos de Santa Cruz de ia Sierra
em peregrinarão pelo interior do Brasil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz
em punho, nem aqueles resquícios de conhecimentos terapêuticos que ostentava
o nosso doutor.
Entre os enfermos que o vinham diariamente procurar, alguns acusavam
moléstias cujas qualificações eram complicadas e estrambóticas; assim
declaravam-se salteados de engasgue, espinhela caída, mal de encalhe, tosse de
cachorro, feridas brabas, almorreimas, eripelas, até assombração e mau-olhado.
Quem se queixava de engasgues era o capataz de uma fazenda minada
do Vau, distante umas boas cinqüenta léguas.
—Sr. doutor, disse c enfermo, a minha vida é um continuo lidar de
sofrimentos. Estou com este mal vai fazer cinco anos no São João por sinal que
me veio com uma grande dor na boca do estómbago. Vezes há que não posso
engolir nada, sem beber muitos galos de água, de maneira que me encharco todo
e fico que mal me mexo de um lugar para outro.
—E a dor, perguntou Cirino, ainda a sente?
— Toda a vida, respondeu o capataz... O que me aflege mais é que há
comidas então que não me passam a goela... É um fastio dos meus pecados...
Boto uns pedacinhos no bucho e parece-me que dentro tenho um bolo que me
está a subir e descer pela garganta...
Receitou o médico umas doses de erva-de-marinheiro como emético, e
fez mais algumas prescrições que o enfermo ouviu com toda a religiosidade.
No estado de perturbação moral em que se achava o jovem facultativo,
natural e que fosse uma coisa por outra; mais importante porém, era a fé que
suas indicações incutiam a fé, essa alavanca poderosa da medicina, esse
contingente precioso que o espírito ministra aos ingentes esforços da natureza na
sua constante lota contra os princípios mórbidos.
O doente de espinhela caída acusava um peso muito forte e perene no
peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas a mesma altura.
111
Prescreveu-lhe Cirino amargo do campo, genciana e quina, e
ordenou-lhe certas cautelas firmadas na voz geral, mas com. algum fundo de
razão; verbi c rata. engolir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois
de comer.
O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que
ninguém precisava de quem nele cuidasse, pelo menos da alma.
Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em véspera
de deixá-lo a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano em que
havia laborado, como também a clínica quase esgotada, aconselhando-lhe a
conveniência de transportar-se para outro ponto e continuar a interrompida
jornada.
Tudo isto, e o amor a aumentar, a tirar-lhe todo o sossego, a consumi-lo
a fogo lento...
Meyer, na realidade, desde o achado da sua magnífica borboleta. não
pensava senão em partir
—Oh! dizia ele, eu quisera estar já em Magdeburgo... Quantas léguas,
Mein Gott!... Papilio Innocentia... a minha glória! Que diz, Sr. Cirino?...
—E verdade... mas quem sabe se o senhor não deveria ficar mais tempo
aqui?... Talvez achasse outra borboleta nova...
—Não, é impossível... Era felicidade demais... Além disso, o dinheiro
não me havia de chegar.
—Oh! posso emprestar-lhe....
—Muito obrigado... mas é de todo Impossível a minha estada aqui...
Veja o senhor: tenho ainda que ir a Camapuã, a Miranda, a Cuiabá para então
voltar... E só me restam poucos meses... A Sociedade Entomológica de
Magdeburgo conta comigo na primavera do ano que vem...
Metida uma vez essa idéia na cabeça, Meyer não deixou mais de falar na
sua viagem um só instante e, para que a execução correspondesse ao prometido,
mandou na tarde seguinte, José Pinho, o camarada, alçar cargas às costas do
burro, depois de as ter, ele próprio, arranjado e revistado com toda a cautela.
Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um protesto:
—Mochu, disse ele, vai recomeçar com o seu modo de andar por essas
estradas à noite.. Afinal havemos todos de cair nalguma buraqueira, eu, o
senhor, o barro de carga e os bichos; e não chegaremos, nem eu ao Rio de
Janeiro, nem eles e o senhor à sua terra. Enfim, já estou cansado de o avisar.
No momento da partida, apresentava o naturalista aquele mesmo aspecto
da célebre noite da chegada; eram aquelas mesmas frasqueiras a tiracolo, aquele
112
mesmo ar tranqüilo e bonachão com que viera, fora de horas, pedir pousada a
casa de Pereira.
Este, ao ver o hóspede a cavalo e prestes a deixar para sempre a sua
morada, sentiu-se possuído de alegria, mesclada, sem saber por que, com
surpresa repentina e intima, de tal ou qual comoção. No fundo, achou de si para
si as desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela simpatia que em
todos incutia o caráter naturalmente inofensivo e meigo do saxônio.
—Chegou, declarou Meyer, a hora da minha despedida.
E, sacudindo com força a mão e o braço do mineiro:
—Sr. Pereira, meu amigo, adeus!... nunca mais nos havemos de ver...
mas hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na minha
pátria, daqui a miihares e milhares de léguas... pelo pensamento recordarei os
dias felizes... que aqui passei.
—Oh! Sr. Meyer, balbuciou Pereira.
—Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentidão, felizes porque
correram... sem eu perceber que o tempo estava caminhando... De todo o Brasil
fica em mim a lembrança... mas desta sua casa... essa lembrança é mais viva e
mais forte.
Acompanhara o alemão o seu pensamento com acentuado gesto,
acenando com o punho fechado para mostrar a lealdade daquelas impressões.
Voltando-se para Cirino, acrescentou:
—Sr. doutor, as suas receitas estão todas marcadas no meu caderno... O
senhor pode enganar-se às vezes... mas as suas intenções são sempre boas... e
isso basta para desculpá-lo... Eu...
Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cirino e
Pereira, que estavam igualmente silenciosos, e uma lágrima comprida
deslizou-se-lhe pela face, sem que a fisionomia mostrasse a menor alteração.
—Adeus! concluiu ele de repente.
—Boa viagem, Sr. Meyer, boa viagem, disse Pereira ajudando-o a
montar a cavalo.
—Adeus! adeus... repetiu ele...
E interpelando o camarada:
—Juque, vá na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é
daqui a meia légua...
Deu Meyer então de rédeas e caminhou a passo, logo após de José Pinho,
este munido de cabeçudo cacete, evidentemente hostil as costas do cargueiro
entregue aos seus cuidados.
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—Lá vai o homem, exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. E
um alivio... Ele, coitado, não era mau... mas não tinha modos... Safa, hei de me
lembrar para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma campanha.. Ué... Olhe, Sr.
Cirino... não está ele de volta?... Teria esquecido alguma bugigangas
Com efeito reaparecia a trote o alemão em carne e osso, como quem
vinha procurar ou dizer coisa de importância.
—Então que tem? perguntou Pereira adiantando-se e alçando a voz.
Deixou algum trem? Daqui a pouco é escurão.
Meyer, no entanto, ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a
rasão da volta:
—Não deixei coisa alguma, Sr. Pereira. Tão-somente faltei a um dever.
—Qual é? indagou o mineiro.
—Não me despedi de sua filha...
—Ah! replicou Pereira com vivacidade... não era preciso... tanto mais
que ela... está dormindo... meio adoentado... Há pouco tinha muito peso na
cabeça... Eu lhe hei de dizer... Não se incomode . . .
—Pois então, observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem
em mim um criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para sempre
na ciência e a estima em que a tenho é grande... E uma moça muito bela... digna
de ser vista na Europa...
—Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem susto...
—Sim, eu me vou, adeus!
—Vá indo... olhe que o Sol dobra de repente aquele mato e a noite cai
logo...
—Sim, sim, adeus, disse ele despedindo-se de uma vez.
E na estrada areenta, à luz do astro que descambava, foi-se tornando
comprida a mais e mais a sombra do bom Meyer, à medida que ele marchava
atrás do seu camarada, do cargueiro e da coleção entomológica.
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XXIII — A ÚLTIMA ENTREVISTA
Está a máscara da noite sobre meu rosto: a não ser ela, verias as minhas
faces tintas do rubor virginal.
(Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato 11).
Mais cresce a luz, mais aumentam as trevas das nossas desgraças.
(Idem. Ato IV).
Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no sistema de viver
daquela vivenda, onde se agitava um dos problemas mais comezinhos da
natureza moral, mas que ali apresentava cores algum tanto carregadas, senão já
sombrias.
Fora Pereira dormir no interior da casa, passando ali a maior parte do
tempo. Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo
impossíveis, e, não tendo mais a atenção do mineiro o alvo que sempre colimara
durante a estada do alemão, começava como era de prever, a voltar-se para
Cirino, a quem confessou ter tratado Meyer com injusta prevenção.
— Hoje, dizia o mineiro, dói-me a consciência do modo por que
desconfiei daquele homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão
cá da cachola? Sr. Cirino, quando a gente entra a dar volta ao miolo.. é que vê
que todos têm queda para malucos... Sim senhor!... Hoje estou convencido que o
tal alamão era bom e sincero... Olhou para a menina... achou-a bonitinha... e
disse aquele despotismo de asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda
o que pensa, é que os outros se podem fiar... Às vezes o perigo vem donde nunca
se esperou... Enfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz... Receei e
tomei tento...
Amiudando-se estes e outros dizeres iguais, deram que refletir a Cirino.
De uma hora para outra compreendeu que as vistas inquisitoriais poderiam
tornar a sua posição insustentável.
Por enquanto tratou de encontrar-se com Inocência. Grandes eram as
dificuldades; o meio único, tentar novamente as entrevistas noturnas; pelo que
do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras, ficando ali com os olhos
presos à janela da querida do coração.
Certa madrugada, viu afinal a sombra de Inocência.
Achou-se, num ápice, o mancebo junto dela e agarrou-lhe com violência
nas mãos.
—Enfim, exclamou ele, eu a vejo.
—Meu pai, murmurou a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, pode
acordar...
115
— Não importa, replicou Cirino desabrido, descubra-se tudo... não posso
mais viver assim,..
—Xi! observou ela, cuidado! Se ele nos acha aqui, mata-nos logo...
Olhe, vá-me esperar junto ao corguinho para lá do laranjal... daqui a nada vou
ter com mecê... A porta esta só encostada . . .
O moço fez sinal que obedecia e sumiu-se incontinenti na escuridão do
pomar.
Aquela hora dava a Lua de minguante alguma claridade à terra;
entretanto, como que se pressentia outra luz a preparar-se no céu para irradiar
com súbito esplendor e infundir animação e alegria à natureza adormecida. Nos
galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de pássaros prestes a despertar, um
gorjeio intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabia mais
madrugador desfiava melodias que o silêncio harmoniosamente repercutia.
Riscava-se o oriente de dúbias linhas vermelhas, prenúncio mal percebível da
manhã; nos espaços pestanejavam as estrelas com brilho bastante amortecido, ao
passo que fina e amarelada névoa empalecia o tênue segmento iluminado do
argênteo astro.
Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.
Tão comovido se sentia Cirino, que teve de sentar-se, enquanto esperava
por Inocência.
Esta não tardou: vinha vestida de uma sala de algodão grosseiro e, à
cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda, cujas dobras as suas mãos
prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que pisava o chão
coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o hábito lhe havia endurecido a
planta dos pés, sem lhes alterar, contudo, a primitiva elegância e pequenez.
Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam
lágrimas a fio.
O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.
—Inocência, exclamou ele notando um gesto de dúvida, nada receie de
mim... Hei de respeitá-la, como se fora uma santa... Não confia então em
mim?...
—Sim! disse ela apressadamente. Por isso é que vim até cá... Entretanto,
estou com a cara ardendo... de vergonha...
E levando uma das mãos de Cirino às suas faces:
—Veja, Cirino, como tenho o rosto em brasa...
Por que é que mecê veio bulir comigo? Eu era uma moça sossegada...
agora, se mecê não gostasse mais de mim... eu morria...
— Deveras?
116
—Eu lhe juro... t: mais fácil apagarem-se de repente estas estrelas todas,
do que eu deixar de amá-la...
—E Manecão? perguntou ela com terror.
—Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...
—Há de ser meu marido...
—Isso nunca, Inocência... É impossível!... E se fugíssemos?... Olhe,
amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui dois bons animais...
Você monta num, eu noutro... batemos para Sant'Ana e, a galope sempre,
havemos de chegar a Uberaba... onde acharemos um padre que nos case...
Vamos, ouviu?
—E mecê havia de me estimar toda a vida?
—Sempre... Diga, sim... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos. . .
diga! . . .
— E meu pai, Cirino? Que havéra de ser? .. Atirava-me a maldição... eu
ficava perdida... uma mulher de má vida... sem a bênção de meu pai... Não...
mecê está me tentanto... Não quero fugir... Antes a desgraça para toda a
existência... mas fique eu sendo o que meu nome diz que sou... Já muito peco,
fazendo o que faço.. Mecê é moço da cidade; não lhe custa enganar uma criatura
como eu... Até...
—Pois bem, interrompeu Cirino, você não quer?... não falemos mais
nisso .. Não hei de querer, senso aquilo que achar bom... E se eu, por fim, me
decidir a falar a seu pai?
—Deus nos livre! retorquiu ela aterrada. Pensei a principio que pudera
ser, mas depois vi que era pior... Mecê não conhece o que é palavra de mineiro...
ferro quebra, ela não... Manecão? há de ser genro dele...
—Quem sabe, Inocência? Hei de falar tanto... pedir com tanta
humildade.
—Ché, que esperança!... de nada serviria...
—Então, que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Por que é
que o céu nos quer tanto mal?
E ocultando a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente.
Inocência, por seu lado, encostou a fronte ao ombro do amante, e ambos, unidos,
choraram como duas crianças que eram.
Foi ela quem primeiro rompeu o silêncio
—Ah! meu Deus, se o padrinho quisesse!...
— Seu padrinho? perguntou Cirino. Quem é?... quem é ele?
—Um homem que mora para lá das Parnaíbas, já nos terrenos Gerais.
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—Onde?... É longe?...
—Meio longe, meio perto. .. Mecê não conhece o Pauda ?
—Conheço... A 16 léguas do Rio Paranaíba...
—Pois é aí que padrinho pára... A esquerda da fazenda do Pauda, numas
terras de sesmaria...
—E como se chama ele?
—Antônio Cesário... Papai lhe deve favores de dinheiro e faz tudo
quanto ele manda... Se dissesse uma palavra, Manecão? havéra de ficar
atrapalhado...
—Oh! exclamou Cirino com confiança, estamos salvos então!,.. Amanhã
mesmo, monto a cavalo e toco para lá... Daqui à vila são sete léguas... Até lá,
umas dezessete... f: um passeio... Chego... conto-lhe tudo... ponho-me de rastos
aos seus pés... e...
—Mas, interrompeu Inocência, não lhe fale em mim, ouviu? Não lhe
diga que tratou comigo... que comigo mapiou... Estava tudo perdido... Invente
umas histórias... faça-se de rico... nem de leve deixe assuntar que foi por meu
juízo que mecê bateu à porta dele... Hi! com gente desconfiada, 6 preciso saber
negacear ..
—Oh! meu Deus, disse Cirino no auge da alegria, estamos salvos!... Não
há dúvida... Vejo agora como há de tudo acontecer... Depois de um dia ou dois
de parada na casa, desembucho o negócio. O velho escreve uma carta a seu pai
e, pelo menos, se não se arredar logo o Manecão? .. ganha-se tempo... Eu já
quisera estar montado na minha besta tordilha queimada, a bater a estrada por ai
afora... Dois dias para ir, dois para voltar, dois ou três de pousada... Com pouco
mais de uma semana, estou de volta, trazendo ou a felicidade ou a caipora de
uma vez. Não! Tenho fé em Nossa Senhora da Abadia... Ela nos ajudará... e
juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...
—Que permessa foi? perguntou Inocência com curiosidade.
—Irmos nós daqui até a vila a pé, botar duas velas bentas no altar de
Nossa Senhora.
—Sim, confirmou a moça com fogo, eu juro... Fosse até ao fim do
mundo! . . .
—Oh! minha santa do Paraíso, exclamou o moço apertando-a de
encontro ao peito, quanto você me ama!!
E assim abraçados, quedaram eles inconscientes, enquanto a aurora
vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos como que
a sondarem a profundidade das trevas; enquanto os pássaros chilreavam à
surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto, enquanto o orvalho
118
subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas das grandes árvores e
suspendendo, às das rasteiras plantinhas, gotas que cintilavam já como
diamantes.
Ao longe, à beira de algum rio, as aracuãs levantavam a sonora grita, e o
macauã atirava aos ares os pios prolongados da áspera garganta.
—É dia, observou Inocência desprendendo-se dos braços de Cirino.
—Já! exclamou este amuado.
—Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa... vou-me embora...
—Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.
—Sim...
—E na semana que vem, estou de volta...
—Pois bem... Leve com mecê esta certeza; a minha vida ou a minha
morte depende do padrinho...
—A minha também, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de
Inocência...
—Deixe-me... deixe-me, implorou ela. Adeus, estou com um medo!...
Felizmente ninguém me viu...
Nesse momento e, como que para responder à asseveração, de dentro do
pomar partiu aquele fino assobio que tanto assombrara os amantes na primeira
das suas entrevistas.
Inocência quase caiu por terra.
—Meu Deus! balbuciou ela, que agouro!... Quem sabe se não 6 gente?
Ao assobio seguiu-se uma espécie de gargalhada, que gelou o sangue nas
veias dos dois míseros.
Agarrou-se a menina a Cirino.
—É alma do outro mundo, murmurou ela persignando-se.
Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o
sinal-da-cruz na direção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu a moça
em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi depô-la junto à porta
da casa, porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.
Quase desmaiara Inocência entretanto, reunindo as forças pôde entrar, e
cautelosa correu o ferrolho interior.
Mais sossegado a esse respeito, voltou Cirino ao laranjal e, como da
primeira vez, pôs-se a percorrê-lo em todos os sentidos, indagando, à nascente
claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem dele parecia fazer
joguete.
119
No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada,
viu de repente certa massa informe cair-lhe quase na cabeça e no meio de folhas
e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angústia.
—Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.
E, como uma visão, passou-lhe por perto uma criaturinha, desaparecendo
logo entre os troncos das árvores.
Ali esteve Cirino com os cabelos eriçados, os olhos fixos, os braços
hirtos de terror, os lábios secos a tartamudear um exorcismo, e as pernas a
tremer.
Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.
Era Pereira; com a mão encostada a boca, interpelava a um dos seus
escravos.
—Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala
não pega... Se for gente, melhor.
E um tiro troou.
Sibilou uma bala aos ouvidos de Cirino, indo cravar-se numa árvore
próxima.
Por outra, não esperou ele. Com o favor da escuridão que ainda reinava,
deslizou rápido e foi buscar a frente da casa, quando já iam acordando os
camaradas.
Mal chegara a sala, apareceu-lhe Pereira à porta.
—Que foi isso? perguntou Cirino compondo a fisionomia.
—Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que
parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de medo.
Desconfio que a alma do Coletor andou hoje me rondando a casa... Não seja
presságio de mal... A Senhora Sant'Ana nos proteja.
—Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cirino; acordei com um
tiro...
—Não há de poder enfiar outra soneca daqui a um nadinha, está o sol
batendo no terreiro.
Com efeito, depressa caminhava o alvorecer, e debaixo daquelas vivas
impressões acordaram aqueles que haviam conciliado o sono, na morada de
Pereira.
120
XXIV—A VILA DE SANT'ANA
Debaixo do céu há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena
sem falatórios, mentiras e bisbilhotices.
(Lavergne).
Nesse mesmo dia, montou Cirino a cavalo e despediu-se de Pereira por
uma semana ou pouco mais, dando por motivo de tão inesperada viagem, não só
a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão também procurar,
quer na vila, quer mesmo nos campos da província de Minas Gerais, uns
remédios e símplices que lhe iam faltando.
—Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.
Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e agradável
a estrada, que essas três léguas lhe foram muito fáceis de vencer.
Ali, porém, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de
quatro léguas, até a Vila de Sant'Ana tornam penosa a viagem, sobretudo quando
são percorridos sob os ardentes raios do sol do meio-dia.
Exaltam-se e irritam-se os incômodos do espíritos, no momento em que
o físico começa a sofrer.
Quando Cirino passou por aquelas campinas desabrigadas, abrasado de
calor, desanimou completamente do êxito da empresa a que se atirara. Tanta
esperança o alvoroçara quando ia seguindo a vereda encoberta e amena, quanto
desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que o animal o fosse levando a
passo vagaroso e como que identificado com a disposição de animo do
cavaleiro.
—Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquela
conversa?
Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar
contra a amada do seu coração.
—Maldita a hora em que vi aquela mulher... Seguia eu sossegado o meu
rumo... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou contrito:
—Perdão, Inocência! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da
minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir... deixar-te... mas tu,
amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...
E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Ana do
Paranaíba.
De longe é sumamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.
Ponto terminal do sertão de Mato Grosso, assenta no abaulado dorso de
um outeirozinho. O que lhe dá, porém, encanto particular para quem a vê de
121
fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de áureos pomos, em
cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta
igreja matriz.
Transpondo límpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas
de sapé à direita e à esquerda, chega-se à rua principal, que tem por mais
grandioso edifício espaçosa casa de sobrado, de construção antiquada.
Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como
a querer abrigá-la em sua totalidade dos ardores do sol.
É aí que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo,
corado.
Na sua loja de fazendas, ao rés-do-chão, reúne-se a melhor gente da
localidade, para ouvi-lo dissertar sobre política, ou narrar a guerra dos farrapos
no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na corte do Rio de Janeiro, onde
estivera pelos anos de 1838 a 1839.
De vez em quando, naquela silenciosa rua em que tão bem se estampa o
tipo melancólico de uma povoação acanhada e em decadência, aparece uma ou
outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrai às janelas
rostos macilentos de mulheres, ou a porta crianças pálidas das febres do Rio
Paranaíba e barrigudas de comerem terra.
Também aos domingos, à hora da missa, por ali cruzam mulheres velhas,
embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam
capote comprido até aos pés e usam daqueles pentes andaluzes, de moda em
tempos que já vão longe.
Atravessou Cirino a vila, e passando por defronte do Sr. Taques
saudou-o com a mão, e sem parar.
Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem
meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as próprias
proezas, que muitas tinha aquele estimável cidadão, senão também as façanhas
dos antigos sertanejos, histórias que sabia na ponta da língua.
—Lá vai o doutor, disse um dos presentes a palestra da loja.
—O Sr. Cirino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é
isso? Por aqui?
—É verdade, respondeu Cirino, e vou de passagem; também por pouco
tempo: talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.
Tudo quanto enchia a salinha havia saído para a rua, de modo que o
moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quase à anca do animal;
afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.
Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto.
122
Compreendeu o major o alcance da situação.
—Cada qual tem os seus negócios particulares, disse logo para começar;
mas, se não há segredo que quer dizer esta sua volta?
—Já devia estar bem longe de acá, observou um sujeito. Há quase dois
meses que parou aqui na cidade e...
Espere, interrompeu o vigário, não há tal dois meses. O doutor passou
por esta rua há um mês e vinte dois dias, às oito horas da manhã.
—Pois bem, continuou o major, tinha tempo. de sobra para estar já por
bandas de Miranda...
—Isso, se fosse escoteiro, replicou Cirino, reparem que levava cargas...
e, demais, viajava curando...
—É verdade! confirmou o coletor (homem esguio, que trazia um chapéu
muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar... falar...
—Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigário com ar
rusguento.
—Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou
dizendo em geral... Em geral. Eu não...
—Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este
tempão todo?... nalguma fazenda?
Prometia ir longe o interrogatório.
—Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cirino meio perturbado,
no...
—Não é tão perto assim, objetou o vigário. Uma vez...
—Ouçamos, senhor padre, atalhou o coletor denunciando rixa velha com
o clérigo. O moço não disse que seja perto daqui...
Repetiu o major as palavras de Cirino, acentuando-as de certo modo:
—Então o doutor já estava quase perto do Sucuriú, não é?
—De fato. Ali encontrei uma pessoa que me devia, há meses um
dinheiro...
—Um dinheiro? perguntou o vigário. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem
será?
—Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sôfregas.
Prosseguiu o major implacável:
—Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra! . .
Foi quase a balbuciar que Cirino procurou continuar:
123
—Sim... certo tropeiro... mandou ordem para mim cobrar... de um
parente uma bolada... Também eu tinha que... pagar outra pessoa... que...
—Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor velo receber
dinheiro ou desembolsar? Não 6 uma e a mesma coisa...
—Por certo, apoiaram os circunstantes.
Cirino fez repentina parada nas suas explicações.
—Também, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei
voltando cá. Tenho de ir para lá do rio...
—Vai até as Melancias? Indagou o coletor ajeitando o nome de um
pouso para ver se acertava.
—Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de
escapar de tão terrível inquirição, mudou de tática.
—Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas
fazendas...
—Já adivinhei, exclamou o vigário cortando a palavra a Cirino, o doutor
vai casar.
—Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguém lhe vai
roubar a noiva!...
—Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar às mãos, ponderou o
padre.
Por instante, deram o acanhamento e o silêncio de Cirino azo a muitas
observações.
—Parabéns! dizia um.
—Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.
—Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não há nada...
Prosseguiu o padre:
—Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois
coelhos... E o senhor e o Manecão.
—Na verdade, concordaram os presentes.
—Mas, onde se meteu ele? perguntou um deles.
—Há pouco estava aqui...
—Quem? o Manecão?
—Sim...
—Ali vem ele! anunciou alguém
124
No fim da rua, aparecia, com efeito, um homem montado em fogoso
cavalo que sofreava com firmeza e mão adestrada.
Era a personificação do capataz de tropa.
Cabelos compridos e emaranhados, ar selváticos e sobranceiro tez
queimada e vigorosa musculatura constituíam um tipo que atraia de pronto a
atenção.
Metidos os pés numa espécie de polainas de couro cru de veado, grandes
chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos coldres da
sela e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o tropeiro no exercícios
da sua lida.
—Nosso Senhor... convosco, disse ao chegar, erguendo ligeiramente a
aba do chapéu com a ponta do dedo indicador.
—Bons dias, Sr. Manecão? respondeu por todos o major, ou melhor,
boas tardes... Já sei que desta feita vai de batida..
—Boa dúvida, grazinou o vigário, vai ver a pequerrucha.
Sorriu-se o capataz com melancolia:
—Não é por isso Sr. vigário. Não me deixo anarquizar por mulheres;
mas, enfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma viagem...
Haviam Cirino e Manecão? ficado no meio dos curiosos.
Fitaram-se: um, indiferente e altivo no modo de encarar; outro,
descorado meio trêmulo
—Este cujo é o cirurgião? Perguntou à meia voz Manecão? adernando
no selim para o lado do coletor. A Cula da venda me disse que tinha chegado...
Tem-me cara de enjoado.
—Xi! retrucou o outro, mas tem cabeça. Por aí fez um despotismo de
curas.
Cirino, notando que tratavam dele, cumprimentou com um sorriso de
amabilidade
—Boa tarde, patrício.
—Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom áspero.
E, olhando para o Sol, acrescentou:
—Vejam lá o que é um homem estar como mulher... a bater língua... A
tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente, adeus... Sr.
major, até mais ver... Sr. vigário, breve estou por cá...
Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão? partiu em boa marcha.
125
Aproveitando, por seu turno, aquela saída rápida, que rompera a cadela
dos que o rodeavam, apertou Cirino a mão do major e tomou rumo do Rio
Paranaíba em cuja margem contava passar a noite.
Mal desaparecera, e choveram comentários que nem saraiva.
—Notou o senhor, disse o vigário para o major, como esta mudado? ..
todo jururu...
—Nem tanto, contrariou o coletor, nem tanto...
O Sr. Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.
—Hão de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar,
que ai há dente de coelho.
Durante aquela noite e muitos dias subsequentes, repetiu a vila todas
estas célebres palavras.
—Foi o major quem o disse, asseveravam convictos, ali há dente de
coelho.
126
XXV—A VIAGEM
Às vezes sinto necessidade de morrer, como pessoas acordadas sentem
necessidade de dormir
(Mme Du Deffand).
Encantador país! Teu aspecto, teus solitários bosques ar puro e
balsâmico, tem o poder de dissipar toda a sorte de tristezas, menos a da perda da
esperança.
(Carlota Smith).
Cirino em pouco mais de uma hora, transpôs a distancia da povoação ao
rio. Também, na légua e quarto que ate lá media só há de ruim o trecho em que
fica a floresta que borda as margens da majestosa corrente.
Nessa mata, trazem os troncos das árvores vestígio das grandes
enchentes; o terreno 6 lodacento e enatado; centro de putrefação vegetal donde
irradiam os miasmas que, por ocasião da retirada das águas, se formam em dias
de calor abrasador e sufocante.
Abundam ali coqueiros de estípite curto e folhuda coroa chamados
aucuris, a que rodeiam numerosas lagoinhas de água empoçada e coberta de
limo.
Em nada é, pois, aprazível o aspecto, e a lembrança de que ali imperam
as temidas sezões faz que todo o viajante apresse a travessia de tão tristonhas
paragens.
Ouve-se a curta distancia o ruído do rio que corre largo, claro e com
rapidez.
Como duas verdes orlas refletem-se no espelhado da superfície as
elevadas margens, a cujo sopé moitas de sarandis, curvadas pelo esforço das
águas e num balancear continuo, produzem doce marulho.
Causa-nos involuntário cismar a contemplação de grande massa liquida a
rolar, a rolar mansamente, tangida por força oculta.
Bem como a ondulação incessante e monótona do oceano agita a alma,
assim também aquele perpassar perene, quase silencioso, de uma corrente
caudal, insensivelmente nos leva a meditar.
E quando o homem medita, torna-se triste.
Franca e espontânea é a alegria, como todo o fato repentino da natureza.
A tristeza é uma vaga aspiração metafísica uma elação inquieta e quase dolorosa
acima da contingência material.
127
Ninguém se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrário, aos
poucos é que chega como efeito de fenômenos psicológicos a encadear-se uns
nos outros.
De que modo nasceu aquela enorme mole de água? Donde velo? Para
onde vai? Que mistérios encerra em seu seio?
Largo tempo ficou Cirino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam
negros pensamentos.
Já se havia difundido o crepúsculo, e bandos folgazões de quero-queros
saudavam os últimos raios do Sol e despertavam os ecos em descomunal
gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem, batendo pesadamente
as asas; sobre as águas, adejavam garças estirando e encolhendo o níveo colo e
pombas, aos centos, cruzavam de margem a margem a buscar inquietas o pouso
de querência.
Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas
sombras; e o rio tomou aspecto uniforme como se fora imensa lâmina de prata
não brunida.
—Enfim, -conheci o Manecão? pensava Cirino. E para esse é que
reservam a minha gentil Inocência . . . Bonito homem para qualquer... para mim,
para ela, horrendo monstro!... E como é forte ! . . .
Digamo-lo, sem por isso amesquinhar o nosso herói, a Idéia de força no
rival acabrunhava-o.—Se eu pudesse... esmagava-o!... E que ar sombrio e
desconfiado!... Meu Deus, dai-me coragem... dai-me esperanças... Nossa
Senhora da Abadia!... Nosso Senhor da Cana-Verde... vaiei-me!...
E o mancebo, diante daquela natureza acabrunhadora a quem tanto
Importava a paixão que lhe atanazava-o peito, como o inseto a chilrar debaixo
da folha de humilde erva, caiu de joelhos, orando com fervor ou, melhor,
desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia, em pequeno,
ensinado.
E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum pássaro da
noite soltava gritos de susto, esvoaçando às tontas.
Transpondo na manhã seguinte, o Rio Paranaíba, pisou Cirino território
de Minas literais.
Depois de légua e meia em mata semelhante à da margem direita,
abrem-se campos dobrados, um tanto arestados do sol, de aspecto pouco
variado, mas abundantíssimos em perdizes e codornas. Tão preocupado levava o
moço o espírito que, nem sequer uma só vez, imitou o pio daquelas aves;
distração, a que aliás não se furta quem por lá viaja, tão Instantes os motivos de
instigação.
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Foi com impaciência mais e mais crescente que percorreu as dezesseis
léguas intermédias à fazenda do Pauda.
Ia com o coração cheio de apreensões e os olhos se lhe arrasavam de
lágrimas, de cada vez que contemplava o melancólico buriti. Então pelo
pensamento voava à casa de Inocência. Também, ali junto ao córrego em cuja
borda se dera a última entrevista, se erguia uma daquelas palmeiras, rainha dos
sertões.
Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?
Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?
Ao pensar nisto, aumentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a
cavalgadura.
Transformava-se para ele o caminho em dolorosa via, que numa
vertiginosa carreira quisera vencer mas que era preciso ir tragando pouso a
pouso, ponto a ponto.
A majestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.
Quando o homem sofre deveras, deseja nos raptos do alucinado orgulho,
ver tudo derrocado pela fúria dos temporais, em harmonia com a tempestade que
lhe vai no intimo.
—Meu Deus! murmurava Cirino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e
é tão belo! Com tanta leveza voam os pássaros: as flores são tão mimosas; os
ribeirões tão claros... tudo convida ao descanso... só eu a padecer! Antes a
morte... Quem me dera arrancar do coração este peso! esta certeza de uma
desgraça imensa! Que é afinal o amor?... Daqui a anos talvez nem me lembre
mais da pobre Inocência... Estarei me atormentando à toa... Oh não! Essa
menina é a minha vida! é o meu sangue... o meu farol para os céus... Quem ma
rouba mata-me de uma vez. Venha a morte... fique ela para chorar por mim...
um dia contará como um homem soube amar! . . .
Levantara Cirino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o
sufocava:
—Inocência!... Inocência!
E as sonoridades da solidão, dóceis a qualquer ruído, repetiram aquele
adorado nome, como repetiam o uivo selvático da suçuarana, a nota plangente
do sabiá ou a martelada metálica da araponga.
Como tudo, afinal, tem termo, alcançou Cirino, no quarto dia, a casa de
Antônio Cesário. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.
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XXVI—RECEPÇÁO CORDIAL
Assinalemos este dia entre os mais felizes não se poupem ânforas; e,
como Sábios, descanso não demos aos nossos pés.
(Horácio Ode XXVI).
Em breve chegara Manecão? à casa do futuro sogro.
Não é grande a distancia de Sant'Ana até lá, e entretanto o animal brioso
e descansado que montava o tropeiro viera sempre estimulado do férreo acicate.
Batia de impaciência o coração do capataz, e a lembrança da formosa
noiva que o esperava, enchia-o de desconhecido alvoroço. Também, por vezes,
fugia-lhe do rosto o toque habitual de severidade e tênue sorriso afastando a
custo os densos bigodes lhe pairava nos lábios,
Acolheu-o Pereira com verdadeira explosão de alegria.
—Viva! viva! exclamou de longe acenando com os braços, seja
bem-vindo neste rancho... Ora, até que afinal!... Faltam rojões para festejar a sua
chegada... Que demora!... Pensei que não topava mais com o caminho da casa...
Nocência vai pular de contente. . .
Enquanto o mineiro enfiava estas palavras quase em gritos, apeou-se o
sertanista que, de chapéu na mão, veio pedir-lhe a bênção.
—Deus o faça um santo, disse Pereira abençoando-o com fervor. Você
não queria chegar...
—Como vai a dona? perguntou Manecão.
—Agora, muito bem. Teve sezões, mas já está de todo boa...
—E lembrou-se de mim?
—Olhe, que enjoado... Pois se ele enfeitiça a gente... Eu mesmo só
pensava em você... Quando estará por cá aquele marreco? dizia eu comigo
mesmo:... e botava uns olhos compridos por essa estrada afora... quanto mais,
mulher! Isto é um não acabar nunca de saudades. Mas, observou ele, estamos a
bater língua e não o faço entrar... Agorinha mesmo, Nocência foi para o
córrego... Desencilhe o pingo e deixe-o por ai...
Fez Manecão o que disse Pereira. Tirou os arreios, não de súbito, mas
com cautela e lentidão para que o animal, encalmado como estava, não ficasse
airado, deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um sabugo de milho,
esfregou devagar a anca e o pescoço.
Depois de dar termo aqueles cuidados, penetrou na casa fazendo soar
ruidosamente as esporas, que pelas dimensões desproporcionadas o obrigavam a
caminhar firmado nos dedos do pé e com a planta levantada.
O mineiro não cabia em si de contente.
130
—Então, está tudo arranjado? perguntou alegremente.
—Tudo. Os papéis já foram tirados... Tive que ir até Uberaba, e foi o que
me atrasou... Quando mecê queira... botamo-nos de partida para a Senhora
Sant'Ana... Amanhã cá chegam os cavalos que comprei... Está falado o Lata... o
vigário avisado; só... falta o dia...
—Nestes casos, quanto mais depressa melhor... Não acha?
— Certo que sim...
—Então, se quiser, daqui a dois domingos...
—Como queira . . Eu, cá por mim. . . Bem sabe, isto de casórios, o que
custa é... tomar resolução... depois... deve-se pegar na carreira... A rapariga esta
pronta?...
—Não sei... há de estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem
certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é preciso matar
a porcada e mandar buscar restilo. Quando se casa uma filha e... filha única, as
algibeiras devem ficar veleiras. Já estão todos combinados... é só dar o sinal...
Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande rancho... A
latada para a janta há de ser no oitão direito... Já encomendei de Sant'Ana alguns
rojões, e o mestre Trabuco prometeu-me uns que deitam lágrimas .. Depois, tiros
de bacamarte e ronqueiras hão de troar . . .
—Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da cidade
duas dúzias de garrafas de vinho da casa do major...
—Olaré! Você meteu-se em gastos!... Duas dúzias de garrafas de vinho?
—Nhor-sim...
—Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da silva... Para o
vigário.. para o major... o coletor... o professor... Enfim, gente de alguma
representação, porque com ela conto, sem falar na arraia miada. Isto há de haver
um despotismo. Quero que, dez dias antes da fonçonata venha a comadre do
Ricardo com o seu povaréu para prepararem sequilhos, tarecos, broas, biscoitos
de polvilho e brevidades. Haverá regalo de chicolate todas as manhãs... Você
verá que desta festa falarão... E o sapateado à noite? Os descantes?... Talvez se
possa arranjar um cururu valente...
—Mas, perguntou Manecão, qu’é de sua filha?
Riu-se Pereira.
—Maganão! não pensa noutra coisa, hem? Também fui ansim... cada
qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso Senhor Jesus Cristo.
E, saindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:
—Nocência!... Nocência!...
131
Não teve resposta.
—Coitadinha da pequena, disse ele, há de saltar que nem veadinha,
quando voltar do rio.
E acrescentou:
—Já que ela não vem... entremos. Você é de casa: tome por cá e chegue
até o meu quarto... Rede e peles macias não faltam.
Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no ombro de
Manecão e fê-lo seguir para o lanço do fundo da casa.
132
XXVII— CENAS ÍNTIMAS
Santa Maria. advogada nossa, ouvi nossos rogos. Virgem pura, ante Vós
se prostra uma infeliz donzela.
(Walter Scott, Os Dois Desposados).
Descrever o abalo que sofreu Inocência ao dar, cara a cara com
Manecão fora impossível Debuxaram-se-lhe tão vivos na fisionomia o espanto e
o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do próprio pai
habitualmente tão despreocupado, foi repentino,
—Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.
—Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que meto medo a
senhora dona...
Batiam de comoção os queixos da pobrezinha: nervoso estremecimento
balanceava-lhe o corpo todo.
A ela se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.
—Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?
Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:
—Já sei o que é... Ficou toda fora de si... vendo o que não contava ver...
Vamos, Nocência, deixe-se de tolices.
—Eu quero, murmurou ela, voltar para o meu quarto.
E encostando-se à parede, com passo vacilante se encaminhou para
dentro.
Ficara sombrio o capataz.
De sobrecenho carregado, recostara-,se à mesa e fora, com a vista,
seguindo aquela a quem já chamava esposa.
Sentou-se defronte dele Pereira com ar de admiração.
—E que tal? exclamou por fim... Ninguém pode contar com mulheres,
iche!
Nada retorquiu o outro.
—Sua filha, indagou ele de repente com voz muito arrastada e parando a
cada palavra, viu alguém?
Descorou o mineiro e quase a balbuciar:
—Não... isto é, viu... mas todos os dias... ela vê gente... Por que me
pergunta isso?
—Por nada...
133
—Não;... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um
pouco... anarquizado. Este negócio é muito, muito sério. Dei-lhe palavra de
honra que minha filha havéra de ser sua mulher... a cidade já sabe e... comigo
não quero histórias... t: o que lhe digo.
—Esta bom, replicou ele, nada de percipitações. Toda a vida fui ansim...
Já volto; vou ver onde pára o meu cavalo.
E saiu, deixando Pereira entregue a encontradas suposições.
Decorreram dias, sem que os dois tocassem mais no assunto que lhes
moía o coração. Ambos, calmos na aparência, viviam vida comum, visitavam as
plantações, comiam juntos, caçavam e só se separavam á hora de dormir,
quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos hóspedes.
Inocência não aparecia.
Mal saia do quarto, pretextando recaída de sezões: entretanto, não era o
seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa sofria morte e paixão; e amargas
lágrimas, sobretudo à noite, lhe inundavam o rosto.
—Meus Deus, exclamava ela, que será de mim? Nossa Senhora da Guia
me socorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta desgraça? Eu
vivia tão sossegada neste retiro, amparada por meu pai... que agora tanto medo
me mete... Deus do céu, piedade, piedade.
E de joelhos, diante de tosco oratório alumiado por esguias velas de cera,
orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar antes de se
deitar.
Uma noite, disse ela:
—Quisera uma reza que me enchesse mais o coração... que mais me
aliviasse o peso da agonia de hoje...
E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando:
—Minha Nossa Senhora mãe da Virgem que nunca pecou, ide adiante de
Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim... que não me deixe assim nesta dor cá de
dentro tão cruel. Estendei a vossa mão sobre mim. Se é crime amar a Cirino,
mandai-me a morte. Que culpa tenho eu do que me sucede? Rezei tanto, para
não gostar deste homem! Tudo... tudo... foi inútil! Por que então este suplício de
todos os momentos? Nem sequer tem alivio no sono? Sempre ele... ele!
As vezes, sentia Inocência em si ímpetos de resistência: era a natureza do
pai que acordava, natureza forte, teimosa.
—Hei de ir, dizia então com olhos a chamejar, à igreja, mas de rastos!
No rosto do padre gritarei: Não, não!... Matem-me... mas eu não quero...
Quando a lembrança de Cirino se lhe apresentava mais viva, estorcia-se
de desespero. A paixão punha-lhe o peito em fogo...
134
—Que é isto, Santo Deus? Aquele homem me teria botado um mau
olhado? Cirino, Cirino, volta, vem tomar-me... leva-me!... eu morro! Sou tua, só
tua... de mais ninguém.
E caia prostrada no leito, sacudida por arrepios nervosos.
Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a toda lacrimosa.
Vinha sereno, mas com ar decidido.
—Que tem você, menina, perguntou ele, meio terno, de alguns dias para
cá?
Inocência encolheu-se toda como uma pombinha que se sente agarrar.
Puxou-a brandamente o pai e fê-la sentar no seu colo.
—Vamos, que é isto, Nocência? Por que se socou assim no quarto?...
Manecão lá fora a toda a hora está perguntando por você... Isto não bonito... É,
ou não, o seu noivo?
Redobraram as lágrimas.
—Mulher não deve atirar-se a cara dos homens... mas também é bom
não se canhar assim... É de enjoada... Um marido quase, como ele já é...
De repente o pranto de Inocência cessou.
Desvencilhou-se dos braços do pai e, de pé diante dele, encarou-o com
resolução:
—Papai. sabe por que tudo isto?
—Sim.
—É porque eu... não devo...
—Não devo o quê?
—Casar.
Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a boca.
—Que? perguntou ele elevando muito a voz...
Compreendeu a pobrezinha que a lata ia travar-se. Era chegado o
momento.
Revestiu-se de toda coragem.
—Sim, meu pai, este casamento não deve fazer-se..
—Você está doida? observou Pereira com fingida tranqüilidade.
Prosseguiu então Inocência com muita rapidez, as faces incendiadas de
rubor:
135
—Conto-lhe tudo papai... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro
dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste sonho,
ouviu, papai? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada! estava tão branca
que metia pena... Vinha bem limpa, com um vestido todo azul... leve, leve!
—Sua mãe? balbuciou Pereira tomando de ligeiro assombro.
—Nhor-sim, ela mesma...
—Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita... . .
—Não faz nada, continuou Inocência, logo vi que era minha mãe...
Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: Cadê seu pai? Respondi com
medo: Esta na roga; quer mecê, que ele venha? — Não, me disse ela, não é
perciso; diga-lhe a ele que eu vim ate cá, para não deixar Manecão casar com
você, porque há de ser infeliz... muito!... muito!...
—E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio,
girando os olhos.
—Depois... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande
desgraça há de entrar... nesta casa que foi minha e onde não haverá mais
sossego. Bote seu pai bem sentido nisso. E sem mais palavra, sumiu-se como
uma luz que se apaga.
Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.
Uma suspeita lhe atravessou o espírito.
—Que sinal tinha sua mãe no rosto?
Inocência empalideceu.
Levando ambas as mãos à cabeça e prorrompendo em ruidoso pranto,
exclamou:
—Não sei... eu estou mentindo... Isto tudo 6 mentira! mentira! Não vi
minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!
E, caindo de bruços sobre a cama, ficou imóvel com os cabelos espargos
pelas espáduas.
Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.
Súbito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com
muita energia:
—Nocência, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... você ha de ir
para a sala... se não fizer boa cara, eu a mato.
E erguendo a voz:
—Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vê-la morta, estendida, do que... a
casa de um mineiro desonrada...
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As pressas saiu do quarto, deixando Inocência na mesma posição.
—Pois bem, murmurou ela, já que é preciso... morra eu!
137
XXVIII—EM CASA DE CESÁRIO
Ah! a perspectiva que pode mais docemente sorrir ao meu coração é a do
aniquilamento.
(Klopstock, A Messiada)
Cirino, logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou
de lhe captar as simpatias. Medicou um escravo que estava de cama, fez valer o
conhecimento e amizade que tinha com
Pereira, conversou muito a respeito dele e incidentemente deu noticias de
Inocência.
Atalhou-o Antônio Cesário neste ponto.
—Mecê a viu? perguntou ele.
—Pois não, respondeu o moço, por sinal que a curei de sezões.
—Ah! É uma guapa rapariga...
—Parece-me...
—Isso é... falo assim, porque afinal... daqui a poucos dias está casada...
não sabe?
—Ouvi contar.
—Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É
homem de mão-cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no sertão
são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar casamentos as cegas,
e às vezes se encambulha um mocetão com uma fanadinha ou então uma sujeita
de encher o olho com algum rapaz todo engrouvinhado. . . Cruz! E, uma vez
dada a palavra, acabou-se...
Achou Cirino a ocasião própria e redargüiu com vivacidade:
—Então o senhor não é desse parecer.
— Conforme, respondeu logo Cesário com reserva. Aos pais é que
convém inziminar essas coisas.
—Boa dúvida... Mas... se... sua afilhada... não gostasse de Manecão?
—Não gostasse?
—Sim.
—E que nos importa isso? Uma menina como ela não sabe o que lhe fica
bem ou mal... Ninguém a vai consultar. Mulheres, o que querem é casar. Não
ouviu já o patrício dizer que elas não casam com carrapato, porque não sabem
qual é o macho?
E Cesário sorriu.
138
Depois, fechando de repente a cara, perguntou:
—Por que é que estamos a dar de língua nesse particular? Não sou amigo
disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador. . .
—Eu? protestou Cirino com vivacidade.
—Boa dúvida. Eu cá nem falar nelas quero. Mulher é para viver muito
quietinha perto do tear, tratar dos filhos e criá-los no temor de Deus; não é nem
para parolar-se com ela, nem a respeito dela.
Sempre as mesmas teorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de
desprezo ao sexo fraco, a mesma suscetibilidade para desconfiar de qualquer
pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem soante aos
prevenidos ouvidos.
—Minha afilhada, continuou Cesário, deve levantar as mãos para o céu.
Achou um marido que a há de fazer feliz e torná-la mãe de uma boa dúzia de
filhos.
Estremeceu Cirino, mas nada disse.
Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia
vencer.
Nessa mesma tarde quis montar a cavalo e voltar para Sant'Ana
entretanto, o pensamento da resistência com que Inocência encetara a terrível
lata com seu pai, atuou em seu espírito e o reteve.
Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.
Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido
arriscava ainda ousado lance.
—Sr. Cesário, disse ele na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em
particular.
—A mim?
—Sim, senhor.
—Pois, estou aqui às suas ordens.
—Quisera que saíssemos. O que lhe vou dizer... ninguém pode...
ninguém deve ouvir.
—Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?
—Tenho...
—Pois vá lá... Mapiaremos fora... Ao meio-dia esteja na minha roga...
sabe onde é?
—Sei...
— Espere-me num pau de peroba seco que está derrubado.
139
—Lá estarei.
Muito antes da hora aprazada, achava-se Cirino no lugar indicado.
Devorava-o a impaciência.
Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem
mui conhecia, que por ele não tinha senão razões de passageira simpatia, e de
quem, contudo, estava dependente sua felicidade, considerava decisivos os
momentos.
Quem em tais circunstâncias se acha, enxerga em tudo quanto o rodela
sintomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cirino pouco parecia sorrir a
natureza.
Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.
Tinha o céu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e
continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.
Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área, pés
de milho já pendoados, dentre os quais surgiam possantes madeiros de tronco
rugoso e galhada completamente despida de ramagem, uns, da base à extrema
ponta, lugubremente enegrecidos pelo fogo lançado antes da sementeira; outros
perdidas todas as folhas em conseqüência da incisão profunda e circular com
que o machado impedira a ascensão da selva. Esses quedavam vivos mas de uma
vida latente e esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no mais alto do
tope.
Quando o dia é claro, aqueles gigantes da floresta, que pela robustez do
cerne haviam desafiado as chamas e os esforços do homem, servem de poleiro a
inúmeros bandos de papagaios, periquitos, araçaris, ou de graúnas que formam
concertos capazes de ensurdecer os ecos.
Naquela ocasião, porém, tudo era silêncio.
Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermitentes dos
pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das árvores e a explorar-lhes
os pontos carunchosos, subindo em ziguezagues.
A hora ajustada, apresentou-se Antônio Cesário.
Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria
para derrubar alguma onça, ou animal daninho.
Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada de
curiosidade.
—Aqui me tem, doutor, disse ele descansando a arma sobre o pau
derrubado e sentando-se ao lado de Cirino. Estou pronto para ouvi-lo quanto
tempo queira...
140
Muito pensara Cirino nesse momento a que devia chegar e, entretanto,
não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações. Parafusara de
continuo mil pretextos sem nada assentar
Foi, pois, a balbuciar que respondeu:
—0 Sr... há de me desculpar... o incômodo que... lhe dou. .
—Incomodo nenhum.
—E deve estar... espantado do que lhe pedi... vir falar comigo... em lugar
ermo... comigo que sou como qualquer hospede. como tantos que sua casa tão
franca todos os dias recebe
—Com efeito, confirmou Cesário.
—Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado . Se enquanto
eu falar... o ofender, perdoe-me, ouviu?
Sr. Cesário, continuou Cirino após breve pausa, se o Sr. visse um homem
arrastado numa corredeira e pudesse atirar-lhe uma corda e salvá-lo... o faria?
—Boa dúvida, replicou o outro com forca. Ainda que corra perigo de
vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo, rico ou
pobre, conhecido ou não, sem o socorro de meu braço.
—Pois bem, exclamou Cirino arrebatadamente, sou eu esse homem que
vai morrer, que está perdido e a quem o Sr. pode salvar...
E respondendo à tácita suspeita de quem o ouvia:
—Não acredite que esteja doido... não. Estou tão são de juízo como o Sr.
e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo... eu morro de paixão por
uma mulher e essa mulher é... sua afiIhada! . . . Inocência!
De um pulo levantou-se Cesário. Seus lábios tremiam, os olhos de súbito
injetados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.
—Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cirino.
Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.
Erguera-se também, cara a cara com Cesário:
— Mate-me, bradou ele, mate-me... E um favor que me faz.. Dê cabo
desta vida desgraçada.
Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido de sua
precipitação, replicou o outro todo sombrio:
—Não tenho razões para matá-lo... O Sr. nunca me fez mal...
—Não, prosseguiu Cirino no meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o
Sr. tem caridade, e é bom, "se gosta de seus filhos, se tem pai e mãe no céu... por
tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me... mate-me!
141
E deixou-se cair aos pés de Cesário, ocultando a cabeça entre as mãos.
Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpresa.
Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no ombro e quase com brandura
lhe disse:
— Que história é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me que há...
Quero saber se a sua bola está girando ou não. Sou homem do sertão, mineiro de
lei... mas sei tratar com gente...
A estas palavras, recobrou Cirino algum alento e pôs-se de pé.
Sentando-se então ao lado de Cesário, narrou-lhe tudo, o desespero que o
minava, a certeza que tinha do amor de Inocência e a implacável sentença
preferida por Pereira.
Ouvia-o Cesário atentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta
exclamação:
— Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.
Depois que Cirino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar
severo, perguntou:
—Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com
Inocência?
Nunca esteve só com ela?
— Estive, respondeu o outro meio receoso.
As faces de Cesário subiu uma onda de sangue.
—Então, rouquejou ele, a desgraça...
—Deus meu, atalhou Cirino com fogo, caia a alma de minha mãe no
inferno, se Inocência não é pura... se...
Conteve-o Cesário com um gesto.
—Basta moço: quem jura assim, não mente... Também no meu tempo
tive uma paixão infeliz... e sei o que é sofrer..,
—Oh! Sr. Cesário, salve-me!...
—Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ela hoje hão pertence nem
mesmo ao pai, ao seu próprio pai? Pertence a palavra de honra, e palavra de
mineiro não volta atrás... Não sabia o senhor disso, quando deixou que o amor
lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam... mulheres o que querem é ver
os homens derretidos por elas... sacrificam tudo... e por um requebro pincham na
rua a honra de suas casas ..
—Não, protestou Cirino, ela não é assim...
—Então é melhor que as outras? objetou Cesário com desdém.
142
—Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima dela, só Nossa
Senhora! . . .
Ligeiramente sorriu o mineiro.
—Qual! observou ele, bem disse o outro: a paixão 6 um transtorno. Fica
um homem que nem uma miséria! É. . .
—Então? interrompeu Cirino.
—Então o quê?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada pertence
tanto a Manecão, como uma garrucha ou um guampo lavrado que Pereira lhe
tivesse dado... Não há meios e modos de voltar atrás...
Não desanimou o mancebo.
Falou por muito tempo com verdadeira eloqüência, apelando
principalmente para a proteção que todo o cristão tem obrigação de dispensar ao
ente que leva à pia batismal, a seu segundo filho, ao pagãozinho por quem o
padrinho se torna responsável perante Deus.
Feriu o sentimento religioso do mineiro e comoveu-o.
—Não me fale assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa para
o seu lado... E quem me assegura que Nocência gosta tanto da sua pessoa?...
Quem?
—O coração está-lho dizendo baixinho, respondeu com calma Cirino. O
senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo isso é
falso?... diga, acredita?
Cesário tartamudeou:
—Sim... Assunto verdades, mas...
—Ah! exclamou Cirino, o Sr. sente a consciência bater-lhe que sua
afilhada está desamparada, que vai ser sacrificada... e agora tapa os ouvidos e
diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra! Por que a deu então o
Sr. . . essa palavra de honra de que tanto tala?... Nossa Senhora que a proteja...
que a tire deste mundo .. Isso há de pesar-lhe no peito... e, quando um dia tiver
noticia que Inocência morreu de desgostos, há de dizer lá consigo que ajudou a
cavar-lhe a sepultura.
Estava Cesário abalado; com verdadeira ansiedade retorquiu:
—Que histórias me conta o Sr.? Eu metido no meu canto... vivendo tão
sossegado... não bulindo com ninguém, e agora anarquizado por estes
mexericos! . . . Quem o mandou vir cá?
—Quem seria, retrucou Cirino, senso Inocência? Porventura eu o
conhecia?... algum dia o vi?... Não; foi aquele anjo que me
143
disse: busca meu padrinho, 6 o último recurso. Se ele não nos amparar,
então... estamos perdidos de uma vez.
Estas palavras convenceram de todo Cesário.
Ficou em silêncio, recolhido, a meditar; Cirino o observava ofegante.
—Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei de
pensar no que o Sr. me conta...
—Oh! Sr. Cesário!...
—Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não
digo duas... No fim desse tempo, monto a cavalo e apareço por casa de Pereira...
—Sim, sim, balbuciou o moço.
—Amanhã mesmo, de madrugada, o Sr. sal daqui e vai esperar-me na
Senhora Sant'Ana.
—Irei... salve-me...
Cesário parou um pouco.
—Agora, quero que o Sr. me faça um juramento... pelas cinzas de sua
mãe.
—Estou pronto.
—Pela salvação de sua alma...
—Pela salvação de minha alma, repetiu Cirino.
—Pela vida eterna...
Cirino acenou a cabeça.
— Jure!
O mancebo cruzou os dois índices e beijo-os com unção abaixando os
olhos e empalidecendo.
—O Sr., disse Cesário, Jurou antes de saber o que era... Deu-me boa
idéia do seu caráter... Farei tudo por ajudá-lo, mas exijo-lhe uma condição... Se
quiser aceitá-la, fica valendo o juramento; senão... o dito por não dito...
—Que será, meu Deus? murmurou Cirino.
—E ficar o Sr. esperando em Sant’Ana. Se eu aparecer por estes oito
dias, iremos juntos à casa do compadre. Se não, é que decidi contrário. Neste
caso, virá o Sr. até cá e aqui esperará as suas cargas que mandarei buscar. Será
sinal de que nunca mais há de procurar botar as vistas em Inocência... nem
sequer falar nela. Aceita?
144
—Aceito, respondeu o moço com exaltação; mas fique certo de uma
coisa: se o Sr., no tempo marcado, não estiver na vila, reze por alma de Cirino,
porque ele terá deixado este mundo de aflições.
Cesário meneou tristemente a cabeça e retirou-se, sem dizer mais
palavra.
145
XXIX—RESISTÊNCIA DE CORÇA
Acasto.— Não pode ela falar?
Osvaldo — Se falar é tão-somente fazer ouvir
sons por meio da língua e dos lábios. e aquela criatura muda; mas se tão
maravilhosa faculdade consiste também em tornar compreensíveis os menores
pensamentos por acionados e expressivos gestos, pode dizer-se que ela a possui,
pois seus olhos cheios de eloqüência têm uma linguagem inteligível, embora
falha de sons de palavras.
(Antiga Comédia Inglesa citada por Walter
Scott).
Deixamos Inocência tão abatida de corpo, quanto resoluta de espírito.
Pressentia os choques que tinha de suportar, e robustecia a alma na
meditação continua e firme de sua infelicidade.
Estava de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de
seu pai a fez levantar.
—Nocência! chamava ele.
Rapidamente passou a pobrezinha a mão pelo rosto para apagar os
vestígios de copioso pranto, e com passo quase seguro penetrou na sala.
Estavam Pereira e Manecão sentados junto à mesa. O anãozinho Tico
aquecia-se aos pálidos raios de um Sol meio encoberto e, sentado à soleira da
porta, brincava com umas palhinhas.
—Estou aqui, papai, disse Inocência em voz alta e um pouco trêmula.
Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado.
Julgou dever dizer alguma coisa.
—Até que afinal a dona saiu do ninho... E que hoje o dia está de sol, não
é?
A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistência que o fez
abaixar os olhos.
—Ela esteve doente, desculpou Pereira.
E voltando-se para a filha:
—Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com
você em negócios particulares.
— Bem percebe ela, observou o desazado noivo intentando abrir o
motivo para risos.
Inocência replicou em tom incisivo:
146
—Não percebo.
—Está se... fazendo de... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já... se
esqueceu... do que tratei com seu pai?... Parece que comeu muito queijo.
Com a mesma entoação e cortando-lhe a palavra retorquiu ela:
—Não me lembro.
Houve uns minutos de silencio.
Acumulava-se a cólera no peito de Pereira; seus olhares irados Iam
rápidos de Manecão à imprudente filha.
—Pois, se você não se lembra, disse ele de repente, eu cá não sou tão
esquecido,
—Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se à beira da
mesa para ficar mais chegado à moça, faz-se de enjoada a toa... o nosso
casamento...
—Seu casamento? perguntou Inocência fingindo espanto.
—Sim...
—Mas com quem?
—Ué, exclamou Manecão, com quem há de ser... Com mecê...
Pereira fora-se tornando lívido de raiva.
O anão acompanhava toda essa cena com muita atenção Cintilavam seus
olhinhos como diamantes pretos; seu corpo raquítico estremecia de impaciência
e susto.
A resposta de Manecão, levantou-se rápida Inocência e, como que
acastelando-se por detrás da sua cadeira, exclamou:
—Eu? .. Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero... não
quero... Nunca... Nunca...
Manecão bambaleou.
Pereira quis por-se de pé, mas por instantes não pôde.
—Está doida, balbuciou, está doida.
E, segurando-se à mesa, ergueu-se terrível.
—Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva.
—Não, disse a moça com desespero, quero antes...
Não pode terminar.
O pai agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.
Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe, de encontro à parede.
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Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra
amparando o peito com as mãos. Mortal palidez cobria-lhe as faces e de ligeira
brecha que se abrira na testa deslizavam gotas de sangue
Ia Pereira precipitar-se sobre ela como para esmagá-la debaixo dos pés,
mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, ocultou as lágrimas que dos
olhos lhe saltavam a flux.
Manecão não fizera o menor gesto. Extático assistira a toda essa
dolorosa cena. A fisionomia estava impassível, mas, por dentro, seu coração era
um vulcão.
Lúgubre silencio reinou por algum tempo naquela sala.
O anão chegara-se a Inocência, tomando-lhe uma das mãos: depois, a
fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por sinais a necessidade de
retirar-se.
A custo pôde ela seguir aquele conselho. Quase de rastos e ajudada por
Tico é que saiu da presença do pai e de seu perseguidor.
Nenhum movimento fizeram os dois para retê-la. Calados como estavam,
deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela
grandeza daquela desgraça.
Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.
Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito.
Afinal, exclamou:
—É preciso que eu desembuche o que tenho cá dentro, senão estouro ..
Quem for homem que seja... Manecão, Nocência para nós está perdida... para
nós, porque um homem lhe deitou um mau-olhado . . .
—E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.
—Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo meti o diabo em casa... Estive
alerta... mas o mal já caminhava.
—Mas, quem é ele? tornou a perguntar com impaciência Manecão.
—Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me
o sossego que Deus me deu...
Contou então às pressas Pereira todas as tentativas do alemão Meyer,
tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos assim
supunha, já haviam produzido os seus danosos frutos.
—Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquele cachorro que tudo
era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?... Amanhã
mesmo eu lhe saio no rasto.
—Para quê? interrompeu Manecão.
148
—Respondam os urubus...
—Para matá-lo?
—Sim...
Houve breve pausa.
—Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe há de dar cabo da pele.
—Por quê?
—É negócio que me pertence. O senhor é pai.,. eu porem sou.,. noivo.
Mangaram com os dois... mas o alamão fica no chão.
—Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje... agora, se
possível for. Cão danado deve logo ser morto, para que a baba não dê raiva. Vá
depressa e venha contar-me que aquele homem já não existe... Como velho,
como pai... abençôo a mão que o há de matar. Cala o sangue que correr... sobre
os meus cabelos brancos . . .
Havia toda esta conversa sido atentamente ouvida por alguém: o anão
Tico.
Viera a pouco e pouco aproximando-se da mesa com os olhos a fulgir.
De repente, colocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.
—Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.
Começou então o homúnculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito
expressivos, que de tudo estava ciente, participando de todos os projetos e do
mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia os dois ofendidos.
Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados, fez
ver que Pereira laborava em engano, tão-somente quanto a pessoa.
Com multa propriedade de imitação e perfeita mímica, ora levantando o
braço para caracterizar as fisionomias, tão exatamente representou Meyer e
Cirino, que o mineiro logo os reconheceu.
—Bem sei, bem sei, Tico, murmurou ele. Você fala do doutor e
daquele...
Ai o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de
Inocência, indicou que nada tinha ela com o alemão.
Ficaram pasmos os dois.
— Então, balbuciou Pereira, quem será?... Ci...rino, meu Deus?!
—Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas
vezes a cabeça.
—Qual! protestou Pereira, o doutor?...
149
Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.
Gesticulou como um possesso; correu para fora de casa; denunciou as
entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cirino; mostrou o lugar do
laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua queda; repetiu o
grito que dera; lembrou a cena da madrugada, findando com aqueles tiros;
exprimiu-se por sinais tão adequados e tais movimentos de cabeça e fisionomia,
que toda a dúvida desapareceu do espírito de Pereira.
Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua cólera subiu a
um grau de violência inexprimível.
Esteve a cair fulminado.
—Infame, murmurou roxo de ira, tu me pagas!
—Infame... Infame!
Depois voltando-se para Manecão:
—Dê-me esse... eu o quero...
Abanou o capataz a cabeça.
— Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o
senhor... e fez de mim chacota.
—Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje... parta já . E quando
voltar, diga só: estamos desagravados... Inocência será sua...
Parando um pouco. concluiu tomado de enleio:
—Se quiser aceitá-la.
—Havemos de conversar,
Teve o mineiro uma explosão de desespero
—Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nos? Um
homem entra na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu teto,
bebe da água que carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de
paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me
partam!... Não quero mais saberque esse miserável respire o ar que respiro. Não!
mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que trouxe, gente do inferno como
ele! . . . Hei de cuspir-lhes na cara. . . Pinchá-los fora como cães que são!...
Ladrões! .. Eu... Interrompeu-o Manecão com calma:
—Não faça nada... E preciso que ninguém saiba do que se está passando
aqui... Ninguém!... percebe?
—E então?
—Faça de conta que recebeu uma letra de Sant'Ana. O cujo foi quem a
mandou, para que os camaradas o vão esperar no Leal... Ouviu?
150
Pereira fez sinal de tudo compreender.
—Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.
—Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta
cabeça corno um cortiço de guaxupés... E um zumbido!... Mostre que já é dono
desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e mãos atados a você...
Tudo lhe pertence... Enquanto a honra do mineiro não for desafrontada .. não
levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha! .
—Coragem, coragem, aconselhou o outro.
—Se este socavão não chegar para esconder minhas misérias... mudo-me
para as bandas do Apa... Parece que vou morrer... sinto fogo dentro da cabeça...
E, vencido pela emoção, encostou a testa à mesa, deixando cair os
braços.
Bateu-lhe Manecão no ombro.
—Que é isso, meu pai? animo! De que serve ser homem?... Olhe cara a
cara a sua desgraça... que também é minha. Não o consola a certeza de que
aquele homem brevemente...
—Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se
retirara, mas que faremos deste tico de gente, que sabe tudo ?
—Não o deixe sair mais de casa.
—Qual!... É que nem muçu. Quando a gente mal pensa, surge no Sucuriú
e até no Corredor.
—Pois bem... Ficará sabendo que... um só piscar de olho... pode sair-lhe
caro... muito caro.
—Então implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquela
gente vá... Se eu pudesse ainda dormir... esquecia um pouco, mas .
Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.
Incontinenti foi Manecão despachar os camaradas de Cirino, os quais,
pouco depois saiam com destino à casa do Leal.
Em seguida, montando o tropeiro a cavalo, partiu em carreira
desapoderada para a Vila de Sant'Ana do Paranaíba, onde chegou alta noite.
151
XXX—DESENLACE
Estão contados os grãos de areia que compõem a minha vide. É aqui que
devo tombar. É aqui que ela há de acabar.
(Shakespeare, Henrique V, Ato 1)
Eis que vi um cavalo amarelo, e quem o montava, era a morte.
(São João Apocalipse)
Durante três dias, foi Cirino rigorosamente espreitado pelo noivo de
Inocência.
Com a cautela própria dos seus hábitos esquivos, soube Manecão
acompanhar-lhe todos os passos sem ser pressentido.
Assim notou que o rival montava a cavalo e ia até certo ponto da estrada
como que esperar por alguém que não chegava. Na ida, mostrava impaciência e
inquietação; na volta vinha melancólico e curvado sobre si mesmo, absorto em
fundo meditar.
Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesário; mas este não aparecia.
Estava quase expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do
completo desengano.
Oh! se ele pudera!... Agarraria com forças de Josué esse Sol que lhe
marcava os dias e o deixaria imóvel, até que o seu salvador se resolvesse a
estender-lhe a mão.
E já ia findando a semana!...
Completo o círculo de horas, se Cesário não aparecesse, começava a
imperar o juramento que dera, irrevogável, implacável!
—Matar-me-ei, dizia Cirino; ficarão sabendo que não menti às minhas
palavras.
Nessa firme resolução saiu da vila; passou o Rio Paranaíba e, como
costumava, caminhou pela estrada de São Francisco de Sales, talvez três léguas.
Contava pousar por aqueles sítios de modo que alongava o seu passeio.
Claro era o dia; lindo:
Por toda parte cantavam mil pássaros. Gritavam as gralhas nos cerrados;
piavam as perdizes no relvoso chão.
Cirino ia multo agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na
frente, buscavam na estrada, ansiosos, o vulto de um cavaleiro.
Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.
Alguém vinha a galope.
Seu coração pulsou que parecia ter entrado também a galopar.
152
Mas o som partia de detrás.
Sem dúvida, algum viajante vindo da vila.
Continuou Cirino na vagarosa marcha.
O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve consigo estaria
emparelhando, quem extravagantemente em hora tão imprópria corria à
desfilada.
O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguém a trote
largo passara por perto de si, quase a rogar animal contra animal.
Dali a pouco, novo galope se fez ouvir.
Parecia que o mesmo cavaleiro havia dado de rédeas, cortando o rumo
que levava.
Dessa vez, porém, Cirino acordou do letargo, esporeou vigorosamente a
sua cavalgadura e... esbarrou com Manecão.
Instintivamente empalideceu. O outro estava também muito descorado.
Estacaram eles os animais e fitaram-se alguns minutos, de um lado com
desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.
—Patrício, interpelou por fim o capataz em tom provocador, que faz
mecê por aqui?
—Eu? perguntou Cirino.
—Nhor-sim, mecê mesmo.
—É boa... viajo.
—Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?
—Andejo, não, contestou Cirino com força. Não sou nenhum bruto.
E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola,
fazendo menção de a sacar.
—Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é?
—Sou o que sou, não é da sua conta.
Contraiu-se o rosto de Manecão.
De um tranco chegou o cavalo bem junto a Cirino e disse-lhe em voz
surda:
—É um ladrão... é um cachorro! .
A esse insulto, puxou Cirino a pistola.
—Mato-o já, bradou com violência se continua a destratar-me.
Sorriu-se o capataz com desprezo.
153
—Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E
sabe manejar garrucha!...
—Acabemos com isso, gritou Cirino.
—Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.
—Mas quem é o Sr.? perguntou Cirino.
—Eu?
—Sim!... sim!...
—Então não me conhece?
—Não, balbuciou Cirino.
—Conhece Nocência? uivou Manecão com voz terrível
E de supetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a à
queima-roupa em Cirino.
Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.
Dois gritos estrugiram.
Um de agonia, outro de triunfo.
Ficara Cirino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe
escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorrompeu em vociferações
contra o inimigo, que o contemplava sardônico.
—Matador!. vil! .. sim! .. conheço Inocência... Ela é minha .. Infame! ..
Mataste-me... mas mataste também a ela!... Que te fiz eu?... Deus te há de
amaldiçoar... sim, meu Deus, meus Santos .. maldição sobre este assassino...
Foge, foge... minha sombra há de seguir-te sempre...
—Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavalo, isso mesmo é 0 que
eu quero.
—Ah! queres? continuou Cirino com voz rouquejante, não é?... Pois
bem!... De noite e de dia... minha alma há de estar contigo . . sempre, sempre! . .
.
Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela
testa. Lentejava-lhe dos poros o suor frio e visguento da morte.
Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração
tornou-se-lhe mais difícil
—Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer... assim.
Devo sair desta vida... como cristão... Hei de saber perdoar... E reunindo as
forças, acrescentou com unção e energia: Manecão... eu te perdôo... por Cristo...
que morreu... na cruz, para nos salvar... eu te perdôo Nosso Senhor tenha pena
de ti... Eu te perdôo, ouviste?
154
A medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara
Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.
—Não quero o teu perdão, bradou ele a custo.
—Não importa, respondeu-lhe Cirino com voz suave. Ele é... dado do
fundo d'alma... Cata sobre tua cabeça...
Quero, quero morrer como cristão... Que me importa agora o mundo, a
vingança... tudo?... só Inocência!... Coitada de Inocência... Quem sabe... se...
ela... não morrerá? Manecão, dá-me água. Água pelo amor de Deus! . . . Desce
do cavalo, homem. . . É um defunto que te pede... Desce!...
E com os braços erguidos acenava para Manecão.
—Água, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me água... eu
te dou a salvação...
Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabelos. Queria fugir e não
podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo a agonia
da sua vitima. Aquela cena, se lhe afigurava um pesadelo, e completo torpor lhe
tolhia os membros.
Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela
estrada a trote.
Ouvira também Cirino o estrupido e arregalara com ansiedade os olhos.
Desabrochou-lhe nos lábios um sorriso de acre tristeza.
Alguém vinha chegando.
Esporeou Manecão com vigor o cavalo e, levantando uma nuvem de
poeira, desapareceu num abrir e fechar de olhos.
Nisto assomava um cavaleiro numa das voltas do caminho.
Era Antônio Cesário.
Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.
— O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorizado.
—Eu mesmo, respondeu Cirino com voz fraca.
—Mas, quem lhe fez este dano, santo Deus?
E correndo para o moço ajoelhou-se junto dele e levantou-lhe o corpo.
—Quem foi o assassino?
—Ninguém, rouquejou o mísero, foi... destino... Morro contente... Dême
água .. e fale-me de Inocência...
—Água? exclamou Cesário com desespero, aqui no meio do cerrado?...
O córrego fica a três léguas pelo menos...
155
—Ah! replicou Cirino meio desvairado, se não há... com que estancar a
sede do corpo... estanque a... da alma... Inocência... onde esta? quero vê-la...
Diga-lhe que morri... por causa dela...
—Mas, quem o matou? bradou o mineiro.
—Não vale a pena dizê-lo, respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide
agora... só de mim... Olhe nunca fui mau... não tenho pecados .. grandes... Acha
que Deus me... há de perdoar?
— Acho, respondeu Cesário com força ..
—Que fiz eu... na minha vida? Talvez... enganasse os outros... dizendo
que era .. médico... Mas também curei alguns . De nada mais me recordo . . .
Ah! sim . . . uma divida de honra . . . Na minha carteira... há uns seiscentos
mil-réis; pague... trezentos -ao Totó Siqueira, da vila; de... cinqüenta mil-réis. a
cada camarada... meu... o mais... distribua.. todo... pelos pobres, sobretudo...
morféticos... depois das .. missas... que por mim... mandar... rezar... ouviu?...
ouviu?
Fez o mineiro sinal que sim.
Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cirino. Ia-se-lhe
empanando o brilho dos olhos; ficara a língua trôpega, afilara-se-lhe o nariz e
sinistro palor mais realçava a negra cor dos seus cabelos e barbas.
Sentara-se Cesário no chão para segurar com mais jeito o corpo do
moribundo. Duas lágrimas vinham-lhe sulcando as másculas faces.
Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cirino.
—Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou... o meu dia...
Mas... eu lhe peço... nada diga... à sua afilhada... Não consinta... que case com...
Manecão.
—Então, interrompeu Cesário, foi ele quem?...
—Não, não, contestou Cirino, mas... ela havia de ser... infeliz... Ouviu?
Promete-me?
—Prometo, respondeu Cesário com firmeza. Juro até...
—Pois bem, suspirou o agonizante, agora... agradeço a morte. Quero
apegar-me... às Santas do Paraíso... e chamo por...
E com esforço, no último alento, murmurou mais e mais baixo:
—Inocência!
Na tarde deste dia, o viajante que passasse por aquele sitio poderia ver
uma cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma cruz tosca feita de dois
grossos paus amarrados com cipós.
Eram mostras da caridade do mineiro Antônio Cesário
156
157
EPÍLOGO—REAPARECE MEYER
Possuí-te do justo orgulho o coroem os louros de Apolo tua cabeça.
( Horácio ).
No dia 18 de agosto de 1863, presenciava a cidade de Magdeburgo
pomposo espetáculo, há muito anunciado no mundo científico da sabia
Germânia.
Era uma sessão extraordinária e solene da Sociedade Geral
Entomológica, a qual chamava a postos não só todos os seus membros efetivos,
honorários, correspondentes, como muitos convidados de ocasião, a fim de
acolher e levar ao capitólio da glória um dos seus mais distintos filhos, um dos
mais infatigáveis investigadores dos segredos da natureza, intrépido viajante,
ausente da pátria desde anos e de volta da América Meridional, em cujas regiões
centrais por tal forma se embrenhara, que impossível havia sido seguir-lhe o
roteiro, até nos mapas e cartas especiais do grande colecionador Simão Schropp,
Revestira-se de mil galas a ciência. Todos os sócios de casaca preta,
gravata e luvas brancas alguns com discursos nos bolsos, enchiam a sala das
sessões muito antes da hora marcada; a orquestra executava a sonata nº 26 de
Ludwig van Beethoven, e senhoras ostentavam toilettes ricas e de aprimorado
gosto.
De repente atroou um grito:
—Vivat Meyer! Hurrah! Vivat! Hoch! Hoch!...
E, ao passo que todos os pescoços se estiravam para ver quem entrava
sacudiam-se no ar com entusiasmo lenços e chapéus.
Acalmada a ruidosa manifestação, levantou-se o presidente da Sociedade
Entomológica, um presidente magro como um espeto e ornamentado de ruiva
cabeleira que lhe dava o aspecto de um projeto de incêndio.
—Sim! exclamou ele depois de ter bebido uns goles d'água açucarada e
de haver preparado a garganta; eis enfim, aqui, no meio de nós, o grande, o
vencedor, o incomparável Guilherme Tembel Meyer! . . .
E neste gosto falou duas horas seguidas
No dia seguinte, traziam as gazetas de Magdeburgo extensa relação da
festa, transcreviam o discurso do presidente e, como apêndice às notas
biográficas relativas a Meyer, enumeravam os prodígios entomológicos que
havia recolhido em suas dilatadas peregrinações.
"O que há de mais digno de admiração, dizia O Tempo (Die Zeit), em
toda a imensa e preciosíssima coleção trazida pelo Dr. Meyer das suas viagens, é
sem contestação uma borboleta, gênero completamente novo e de esplendor
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acima de qualquer concepção. É a Papilo Innocentia... (Seguia-se uma descrição
de minuciosidade perfeitamente germânica).
"O nome, acrescentava a folha, dado pelo eminente naturalista àquele
soberbo espécime foi graciosa homenagem à beleza de uma donzela (Mädchen)
dos desertos da Província de Mato Grosso (Brasil), criatura, segundo conta o Dr.
Meyer, de fascinadora formosura. Vê-se, pois, que também os sábios possuem
coração tangível e podem por vezes, usar da ciência como meio de demonstrar
impressões sentimentais de que muitos não os julgam suscetíveis."
* * *
Inocência, coitadinha...
Exatamente nesse dia fazia dois anos que o seu gentil corpo fora
entregue a terra, no imenso sertão de Sant'Ana do Paranaíba, para ai dormir o
sono da eternidade.

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